A
vagina é uma parte íntima do nosso corpo. É sexy, misteriosa,
poderosa, incrível e, sem dúvida, bonita acham as mulheres em sua
maioria, segundo uma pesquisa internacional feita no início deste ano,
que ouviu 9441 mulheres da Europa, Canadá e Brasil.
(veja
a pesquisa).
Além
do glamour estético de que desfruta, e de sua nobre função
de dar acesso ao prazer e passagem à vida, a vagina também é
um meio ideal para a inserção de dispositivos contraceptivos e medicamentos.
Antibióticos e antifúngicos para tratamento de infecções,
substâncias que induzem o trabalho de parto e hormônios para reposição
na menopausa são medicações administradas há tempos
por essa via, por causa da eficiência com que são absorvidos pela
mucosa que reveste internamente o órgão. Essa propriedade da mucosa
vaginal foi descoberta em 1918 pelo cientista britânico David Macht. Antes
dele, se achava que a medicação dispensada de forma intravaginal
não entrava na circulação sanguínea. Em seu estudo
sobre A absorção de drogas e venenos pela vagina o cientista
atribuiu inclusive a ocorrência de algumas mortes de mulheres ao uso de
duchas, supositórios ou dispositivos uterinos contendo substâncias
altamente tóxicas como arsênico, mercúrio ou fenol.
O
conhecimento da contracepção intravaginal tem mais de três
mil anos e a gama de dispositivos que as mulheres vêm introduzindo historicamente
na vagina para evitar filhos é vasta. O diafragma e o capuz cervical, porém,
são os contraceptivos intravaginais mais recentes, considerada a história
da contracepção intravaginal. Ambos foram desenvolvidos no século
19 e utilizados ao longo da primeira metade do século 20, principalmente.
O capuz cervical foi popular nos anos 30 do século passado, entre as européias.
O diafragma sobreviveu à pílula anticoncepcional e chegou a ser
usado até os anos 70 por mulheres interessadas em métodos contraceptivos
não hormonais.
O anel vaginal lançado no Brasil há dois anos pelo laboratório
Organon representa uma evolução desses dois métodos, do ponto
de vista do modo de uso, ou seja, da inserção na vagina. Mas como
ele dispensa hormônios em doses equivalentes a das pílulas atuais
de baixa dosagem é obviamente comparável aos métodos hormonais.
INSERÇÃO
DO ANEL VAGINAL>>
ESTUDO
COMPARATIVO
Em
um artigo sobre os avanços atuais nessa área, publicado na revista
da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, os médicos
Nilson Roberto Melo e Cassiana Giribela incluíram entre as vantagens do
anel vaginal a facilidade do uso - dura três semanas, uma vez inserido na
vagina, o que elimina o problema do esquecimento tão comum com as pílulas.
A baixa dosagens dos hormônios e a volta rápida da fertilidade quando
o método é interrompido seriam outras duas vantagens do anel, segundo
os médicos. Comparado com a pílula, ele ainda teria a diferença
de produzir menor flutuação hormonal ao longo do ciclo e de afetar
menos o fígado bem como o chamado trato gastrintestinal, já que
os hormônios entram na circulação sanguínea sem passar
por essas vias.
Um
estudo comparativo de 2002, feito pelo cientista finlandês R.I. Bjarnadottir,
com 247 mulheres entre 18 e 40 anos, metade usuária de pílula e
outra parte, do anel vaginal, mostrou que o padrão de menstruação
com este último contraceptivo é mais estável, ou seja, a
incidência de sangramento irregular é baixa. Efeitos colaterais como
dor nas mamas, dores de cabeça e náuseas foram equivalentes entre
usuárias de pílula e do anel vaginal. O ganho de peso foi observado
entre as usuárias de pílula - cerca de 400 gramas. Entre as usuárias
do anel houve pequena redução de peso durante o estudo, de 130 gramas.
O grupo que usou o anel apresentou incidência maior de vaginite: 4,1% contra
1,6% no grupo que tomou a pílula. A pesquisa com as mulheres durou seis
meses e os hormônios utilizados foram pílulas de 30 microgramas de
etinilestradiol (o estrogênio comum dos anticoncepcionais) e 150 microgramas
de levonorgestrel, um tipo de progestogênio. O anel vaginal libera, diariamente,
a média de 15 microgramas de etinilestradiol e 120 microgramas de etonogestrel,
o progestogênio desenvolvido para esse produto. A
dosagem mais baixa de hormônios do anel se deve a maior eficiência
de absorção dessas substâncias pela vagina. A exata posição
do anel dentro da vagina não é essencial para sua eficácia,
pois não é um método de barreira como o diafragma mas hormonal.
As mulheres finlandesas que participaram do estudo de Bjarnadottir foram questionadas
sobre se elas ou seus parceiros sentiam a presença do anel durante a relação
sexual: 96% das mulheres disseram não percebê-lo. Entre os parceiros
a porcentagem foi de 90%.
ORIGEM
REMOTA
O
diafragma e o capuz cervical, os dois primeiros dispositivos contraceptivos de
barreira considerados modernos surgiram no século 19, o mesmo século
que viu surgir as primeiras investigações sobre agentes químicos
espermicidas. O
diafragma foi descrito pela primeira vez em 1880, como invenção
de um ginecologista alemão que adotou o pseudônimo de Wilhelm P.
J. Mensinga ao apresentar o seu invento em um artigo de revista especializada.
O inventor do capuz cervical foi o ginecologista nova-iorquino E.B. Foote, que
assinou um folheto com instruções sobre o uso do dispositivo em
1860.
A contracepção
vaginal é tão antiga, porém, quanto o Homo sapiens. Textos
elaborados nos primórdios do conhecimento da escrita já relatavam
o uso de tampões feitos de materiais variados como mel, azeite de oliva,
especiarias, até fezes de crocodilo como métodos de barreira ou
com propriedades espermicidas capazes de evitar a gravidez. Cada cultura tinha
a sua preferência. As japonesas inseriam na vagina bolas de papel de bambu,
as mulheres islâmicas usavam folhas de salgueiro e as nativas das ilhas
do Pacífico recorriam às algas marinhas. As referências dos
antigos escritos dão conta ainda do uso de gomas feitas com material pegajoso,
introduzidas na até a boca do útero, como métodos efetivos
de contracepção.