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PESQUISA
SOBRE O COMPORTAMENTO REPRODUTIVO E SEU UNIVERSO SIMBÓLICO ENTRE ESTUDANTES
DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO [USP] | |
O
USO DE CONTRACEPTIVOS
| | Os
estudantes universitários usam a camisinha principalmente na primeira relação
sexual. Depois dela, voltam a usar o condom apenas em relações casuais
ou no início de relacionamentos com parceira ou parceiras novas. Os jovens
negligenciam o preservativo no contexto do namoro, tendendo a substituí-lo
pela pílula.A
contracepção ainda é cercada por descuidos, erros e esquecimentos
e por métodos de baixa eficácia como o coito interrompido e a abstinência
periódica. As conclusões são da tese de doutorado em saúde
pública da psicóloga da Universidade de São Paulo, Kátia
Machado Pirotta, defendida no final de 2002. | | A
psicóloga ouviu 952 estudantes de cursos de graduação da
USP, com idades entre 17 e 24 anos, ao longo do ano 2000 e 2001, e gravou entrevistas
de profundidade com mais 33 jovens que se ofereceram voluntariamente para participar
de sua pesquisa de tese Não há guarda-chuva contra o amor: estudo
do comportamento reprodutivo e de seu universo simbólico entre jovens universitários
da USP. | | "Os
estudantes manifestam um forte desejo de adiar a fecundidade mas o uso inadequado
de métodos contraceptivos e o recurso a métodos de baixa eficácia
podem levar a uma gestação não planejada", alerta o
estudo. Somente 4% dos entrevistados e entrevistadas tinham experiência
de alguma gestação, mas a proporção de abortos provocados
como forma de finalizar uma gestação era alta, observou a psicóloga,
apesar de 77% dos entrevistados considerar como a idade ideal para ter o primeiro
filho os 30 anos mais ou menos. | PARTICIPAÇÃO
DO HOMEM É LIMITADA | | "No
namoro, o ônus de arcar com o processo de regulação da fecundidade,
em outras palavras, com a escolha do método contraceptivo é da mulher
", informa Kátia Machado. Tal percepção é compartilhada
pelos dois sexos, revelou sua pesquisa. | | Segundo
as mulheres, a participação do homem se limita à discussão
sobre o número ideal de filhos, ou a lembrança de que elas tem de
tomar a pílula. Alguns compram para elas o comprimido.Só
eventualmente a contribuição masculina no projeto anticoncepcional
vai além e envolve um método que depende exclusivamente "deles"
como o condom. Em geral isso ocorre quando elas ficam impossibilitadas de tomar
a pílula, informa o estudo da psicóloga da USP. |
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A participação de cada um dos sexos na escolha dos métodos
contraceptivos varia, porém, nos outros contextos em que a relação
sexual de desenrola. Entre parceiros que não se conhecem ou se conhecem
pouco, tanto a mulher quanto o homem se encarregam de garantir o preservativo.
| OS
DOIS SEXOS CONCORDAM NA TEORIA | | As
mudanças na relação sexual em virtude da atual inserção
social da mulher ou da preocupação com a Aids repercutem no discurso
de ambos os sexos. "De modo geral, todos os entrevistados afirmam que tanto
o homem quanto a mulher deveriam participar do processo de regulação
da fecundidade e da responsabilidade quanto a prevenção das doenças
sexualmente transmissíveis", escreve Katia Machado. Mas no namoro,
as preocupações com o HIV e as doenças sexualmente transmissíveis
passam para um segundo plano, após a confirmação do exame
de sangue de que nem um nem o outro está infectado. |
| Os
estudantes têm consciência do risco da transmissão do HIV e
das demais doenças sexualmente transmissíveis em práticas
sexuais desprotegiadas, no entanto, e por isso o condom é um método
contraceptivo bastante mencionado em todos os grupos. Além de proteger
dessas doenças, ele evita a gravidez não planejada e permite que
o homem controle sua própria fecundidade. O alto percentual de estudantes
que mencionou o uso do condom, sobretudo na primeira relação sexualdiferencia
os universitários da população jovem em geral. O fato de
abandonarem o preservativo em seguida, quando a relação se ganha
um pouco de estabilidade, os igual aos demais e leva as mulheres a assumir o encargo
da contracepção. | AS
EXPECTATIVAS DE CADA SEXO NA PRÁTICA | |
No discurso das
mulheres, a sexualidade está diretamente associada com a intimidade e a
noção de compromisso com o parceiro. Sua vivência da sexualidade,
neste sentido, é orientada para o "futuro", ao contrário
dos homens. No discurso masculino, a articulação entre a vida sexual
e os planos futuros ou o projeto de vida a dois não é tão
evidente. A opção pelo uso ou não do condom revela o
grau da relação entre confiança e exercício da sexualidade,
mostra a pesquisa de Machado. A negociação que permite a passagem
do condom para a pílula é ancorada sobre a confiança das
mulheres no parceiro, o respeito entre o casal, o pacto de fidelidade. AO abandonar
o condom e abrir mão da segurança oferecida por esse método,
cada um afirma não ter outros fora da relação de namoro.
Esse pacto é reafirmado a cada vez que o casal mantém uma relação
sexual. Diante
de tal dinâmica, a presença do condom numa relação
sexual passa a ser índicio de que o compromisso não está
estabelecido e de que o cenário em que ele acontece aproxima-se do universo
do "ficar". | |