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FILA: AGORA MAIS SOCIÁVEL

 
 


Muda a imagem do Fila Brasileiro. Seus donos deixam de estimular a agressividade, como faziam há alguns anos, e parte deles também o sociabiliza Em meados de agosto, o Fila Brasileiro conquistou espaço num dos mais prestigiados programas da televisão brasileira, o Jô Soares Onze e Meia, do SBT. tudo começou quando, depois de classificar o Fila como "perigoso" e "mau caráter" em uma entrevista, Jô Soares recebeu uma quantidade inusitada de manifestações de discordância - mais de cem faxes. O assunto despertou o interesse de Jô e de sua equipe, que resolveram levar a público o que acontecia. Para esclarecer, foi convidado um criador dedicado à raça há mais de 13 anos e de reconhecimento destaque, Walter Vertuan, do Canil Tibaitá - Brenda Lee, de Campo Limpo Paulista, SP. Surpreendendo a muitos, Walter se apresentou na entrevista com quatro Filas - soltos. Eram exemplares de peso, e que peso - juntos, ultrapassavam 250 quilos! Os cães mantiveram-se tão tranquilos que, quando Walter pediu ao pianista do quinteto do programa, Osmar, que os acariciasse, foi atendido com tamanha confiança que Osmar chegou a beijar um daqueles gigantes e colocou seu principal instrumento de trabalho - a mão - na boca dele! Walter, então, levou uma das fêmeas à platéia. O público pôde tocá-la e constatar sua sociabilidade. A missão estava cumprida.

INIMAGINÁVEL

Cenas assim seriam inimagináveis há alguns anos, quando o Fila típico era trabalhado para ser muito mais agressivo. Seu forte instinto foi herdado em séculos de criação voltada à proteção das fazendas, ao trato do gado e à caça de animais de grande porte. Porém, muitos criadores acentuavam a aversão de seus cães aos estranhos, pelo treinamento. Outros não chegavam a esse ponto, mas tinham dificuldade em lidar com o temperamento forte da raça. A decorrência era desastrosa: diversos "acidentes" de ataques a pessoas em locais públicos espalharam a fama de "mau caráter" da raça. Nas exposições, os juízes não gostavam de julgar o Fila e nem podiam fazer a necessária aproximação, devido à agressividade extrema - desde 1946 até 1976 o padrão considerava isso normal.

Na maior entidade cinológica do País - Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), que registrou no ano passado 2.994 nascimentos de Filas -, a queda da procura ficou evidente a partir de 1982, ano do pico histórico no número de registros (o único em que a raça foi a mais registrada do Brasil) com mais de 8.000 filhotes, desempenho nunca mais repetido, apesar de a raça continuar entre as mais registradas do país. Abrandar a agressividade exagerada do Fila Brasileiro tornou-se um meta evidente. Inclusive no padrão oficial da CBKC. Em 1976, foi retirada a permissão de o Fila atacar os juízes e foi incluído que a raça devia se mostrar "indiferente aos transeuntes" quando conduida pelo dono, fora de seu domicílio.


 A maioria dos criadores passou a educar pelo menos alguns de seus Filas para as exposições, de forma a obter um comportamento mais equilibrado.  

Em 1984, o texto passou a incorporar a "procura insistente da companhia dos donos", a "extrema tolerância com as crianças", "o comportamento sereno, revelando segurança e confiança própria", mas aboliu a indiferença aos transeuntes. A maioria dos criadores passou a educar pelo menos alguns de seus Filas para as exposições, de forma a obter um comportamento mais equilibrado. Outros ampliaram essa socialização aos cães com os quais tinham convívio diário. Mas nem todos os admiradores da raça concordaram com a mudança. Os que preferem não sociabilizar o Fila, se uniram no Clube de Aprimoramento do Fila Brasileiro (Cafib). Fundado em 1978, registra anualmente cerca de 200 filhotes. Os juízes das exposições do Cafib continuam não podendo descontar pontos dos Filas que os atacam em julgamento, seguindo o padrão oficial original, de 1946. A forte aversão aos estranhos - considerada uma decorrência de o cão ser da família é, portanto, bem-vindo. Mas exige, em contrapartida, uma redobrada responsabilidade por parte dos donos.

DEPOIMENTOS

Walter Vertuan, do Canil Tibaitá-Brenda Lee, de Campo Limpo Paulista, SP: "Na década de 70, era comum os criadores estimularem no Fila um temperamento bravo e raivoso. Era desejável que atacasse partindo feito louco, e poucos conseguiam fazê-lo parar. Nas exposições, esse comportamento ajudava a passar pelas provas de temperamento. Nos anos 70 e 80, o Fila ganhava poucas exposições. Desconfiávamos de que os juízes tinham medo de manipular o cão para avaliá-lo e, além do mais, o próprio padrão dizia que se o atacasse, não seria considerado como falta. Em 1985, um juiz julgava o Fila com uma cadeira na mão, como se fosse um domador de leão.
Essas cenas continuaram até, mais ou menos, 1988. Em conversa com alguns juízes, descobrimos que, no da em que eles pudessem tocar os cães, o Fila poderia ganhar mais exposições. Ao mesmo tempo, a imagem de cão perigoso, estava reduzindo a procura pela raça. Esses fatos levaram muitos criadores de São Paulo a trabalhar na sociabilização para obterem um temperamento menos agressivo. Na medida em que conseguiram atingir esse objetivo, a raça passou a ganhar mais premiações.

Hoje, é um cão de comportamento muito equilibrado, e o mais importante: não perde a característica de guardião. Atualmente são muitos os Filas sociabilizados. Alguns podem até ficar soltos na sala, sem intimidar as visitas, permitindo ser acariciados. A sociabilização foi importante para assegurar ao Fila, a partir de 90, estar sempre entre os primeiros colocados nos rankings do sistema CBKC. Hoje, os únicos que mantêm a criação antiga são os poucos criadores do Clube de Aprimoramento do Fila Brasileiro, ainda incentivando a sua agressividade." Jether Garotti, criador há 27 anos, pelo Canil Corumbá, na Capital paulista, e presidente do Clube Paulista do Fila Brasileiro: "Nos anos 70, havia Filas que entravam nas exposições com a cabeça coberta, para não ficarem nervosos com as pessoas. Alguns chegavam a quebrar a gua ao avançar nos visitantes, como aconteceu no Parque da Água Branca. Vi um Fila escapar e matar um Dachshund numa exposição, no Camping Passárgada, em Cotia, SP. Eram cenas até frequentes. No início da década de 80, percebi que isso estava prejudicando a imagem da raça. Passei, então, a educar meus Filas para aceitarem a aproximação de estranhos fora do território deles, sob meu comando, capacidade que infelizmente algumas pessoas desconhecem e que pode ser também aproveitada no convívio diário.

Um dos primeiros detentores de várias premiações foi o Orixá do Kirongozi, do meu canil. Por volta de 84, muitos criadores e proprietários partiram para a mesma filosofia. Pessoalmente, só sociabilizo até aceita contato manual; permitir que lhe toquem a cabeça ou enfiem a mão na boca é sinal de sociabilização elevada. Por mais sociabilizado que seja, o Fila não permite que alguém entre no território dele (no jardim, por exemplo). Por isso, por segurança, recomendo prendê-lo quando vier uma visita. Em hipótese alguma o Fila se volta contra o dono ou a família, com quem é sempre dócil e carinhoso." Antonino Barone Forzano, juiz ha 55 anos, foi o único latino-americano a presidir a FCI, é considerado um dos responsáveis pelo reconhecimento do Fila pela entidade. Acompanhou de perto o comportamento do antigo Fila: "Antigamente, o Fila era mais agressivo, e deixá-lo solto, longe do dono, podi ser perigoso. Lembro das exposições no Parque da Água Branca, de 1945 a 1950, em que os cães de um criador ficavam em jaulas. Não podiam ser avaliados pelos juízes sem que o proprietário estivesse por perto. Essa característica fez com que aprendêssemos a ver nos olhos do Fila se ele era extremamente hostil ou se poderia ser manipulado. Na maioria das vezes, ele se mostrava hostil." José Pedutti, juiz da CBKC há pelo menos 25 anos e consultor de Cães & Cia: "O pior problema dos anos 70 não eram os Filas, mas os seus proprietários e os fileiros. Eles forçavam o temperamento agressivo da raça, dando tiros constantes para o alto, ao lado dos cães, para que ficassem irritados com o ruído. Incentivavam o Fila a morder, ao invés de educá-lo quando abusasse da agressividade. Era engraçado. Se não agredisse o handler e o juiz, então não era tido como um legítimo Fila.

De meados da década de 80 para cá, felizmente, o criador tem feito questão de fazer do seu cão um animal bem comportado. Hoje, isso é tão notável que você pode ver Filas nas mãos de handlers - sem alterar a sua condição de guardião - o que era impossível antigamente. Em resumo, o que mudou não foi o temperamento do Fila, mas o nível dos criadores e proprietários." Hilda Drumond, juíza há 33 anos, cinóloga e consultora de Cães & Cia: "Nos anos 70, exaltava-se o cão feroz, que não permitia sequer uma aproximação amistosa, mesmo estando sob controle físico do dono.

Desvirtuadas, as provas de temperamento exigiam que o Fila agisse como se fosse um covardão assustado, que atacava para não ser atacado. Os exemplares premiados eram os que demonstravam agressividade acentuada. Nessa época, quase todos os Filas eram assim. Já na década de 80, a raça começou a apresentar um novo comportamento. O marco desse período, não me esqueço, foi o Fila Orixá de Kirongozi, que era tudo que se podia esperar de um perfeito exemplar da raça. Além de ter uma estrutura excepcional, eu e outras pessoas às quais ele estava acostumado, podíamos brincar despreocupadamente. Nesse tempo, cogitava-se a mudança do temperamento no padrão, e acho que os criadores acompanharam essa tendência. De lá para cá, tudo mudou para melhor. Até a ponto de seu já ter visto um juiz julgando seis fêmeas soltas, todas sem guia, de frente para os seus condutores, atentas à isca exibida por eles. Hoje, o Fila tem-se mostrado totalmente sociável fora do seu território. Ou seja, um verdadeiro cão de guarda, que associa eficiência a segurança." Luis Fernando Pereira Mahtuk, colaborador do Canil Lagoa de Ycnan, em Santos, SP, associado ao Clube de Aprimoramento do Fila Brasileiro (Cafib): "A filosofia do Cafib é preservar o temperamento original do Fila, que é o de um cão da família e com ojeriza a estranhos. Isso não quer dizer que deve ser nervoso. Pelo contrário, deve ser calmo. Se alguém estiver a alguns metros de mim, meus Filas não tentam atacar. Mas se a pessoa se aproxima, se mostram avessos, seja latindo, rosnando ou atacando. Um Fila não pode ser solto ao se receber uma visita. Para ele, é um estranho e deve atacá-lo. Os juízes nas exposições nunca chegam bem perto e é natural o cão rosnar ou tentar atacar. A rejeição aos desconhecidos e a fidelidade aos donos nos dão a segurança de ter um guardião, mas exige um dono mais responsável. E nos preocupamos com isso.


 A partir de meados da década de 70, a sua agressividade foi reduzida gradualmente.  

 

Tanto que nas exposições colocamos avisos para os pais terem cuidade com as crianças e não permitimos que se aproximem. Um Fila não deve se acostumar com estranhos, para ter êxito numa situação que exija a sua ação." Procópio do Valle, criador há 48 anos, pelo Canil Kirimáua, do Rio de Janeiro, autor de O Grande Livro do Fila Brasileiro: Quatro Séculos de História do Brasil, uma das mais importantes publicações sobre a raça. "Na década de 60, o Fila era realmente bravo. Nas exposições, os juízes não podiam encostar nele. No padrão, era prevista a possibilidade de o Fila atacá-los e de não permitir que o tocassem. A partir de meados da década de 70, a sua agressividade foi reduzida gradualmente. Até entendo o motivo: o Fila em exposições não ganhava quando muito agressivo; o juiz que levasse uma dentada ameaçava processar o criador; por outro lado, proprietários negligentes descuidaram da segurança, deixando portões abertos, passeando em locais com muita gente, o que causou acidentes, inclusive a morte de algumas pessoas e teve repercussão negativa. Mesmo em países receptivos a cães de guarda, como nos Estados Unidos, um processo pode arruinar qualquer um. Todos esses fatores contribuíram para que o temperamento do Fila fosse abrandado. Mas acho que o foi em excesso. Um verdadeiro cão de guarda nunca poderia ser solto no meio de outras pessoas, que não as pessoas da família do dono, ou circular pela rua longe de seu dono. Um Fila que passeie entre o público numa exposição, sem avançar, perdeu as suas características. Em uma exposição em Israel, uma pessoa, que já tinha tido contato com a raça no passado, ficou horrorizado quando viu um juiz abrindo a boca do Fila. Depois, mandou-me um fax comentando: "Nesse mundo histérico, os cães de temperamento antigo estão desprezados." A pessoa que compra um Fila deve adquirí-lo com consciência e criá-lo para a guarda, fiel ao dono e com aversão a estranhos. Cabe aos donos de um cão com esse temperamento a responsabilidade de criá-lo ou tê-lo com segurança, mantendo-o em locais específicos." Clelia Kruel, criadora brasileira, uma das maiores divuldadoras da raça no Exterior, particularmente nos EUA, onde vive atualmente e mantém o Camping Kennel. É juíza pela FCI e pelo States Kennel Club, e autora de livros em inglês sobre o Fila Brasileiro: "Na década de 70, era considerado melhor o Fila que fazia uma boa guarda do que aquele bom companheiro. A ojeriza a estranhos, pedida pelo padrão oficial, era característica marcante na raça. Naquela época, os donos não sabiam controlar direito a agressividade com a qual o Fila nascia

 

 As visitas chegavam falando: "Segura seu cão que eu vou chegar perto."  

 

. Eu mesma tinha problemas com os meus. As visitas chegavam falando: "Segura seu cão que eu vou chegar perto." Nos anos 80, os criadores esforçaram-se para educar seus Filas para as exposições e conseguiram deixá-los mais sociabilizados, demonstrando discernimento nos momentos em que deveriam ou não atacar. Uma vez, nesse período, enquanto fazia uma verificação de ninhada, uma Fila se aproximou, rosnando e demonstrando raiva, mas não me atacou. Hoje, acho que o cão pode ser treinado para ir a exposições ou mesmo ser mais sociável. Mas se ele desenvolve suas características naturais de extremo apego à família, territorialista e indiferente a estranhos, pode sim ser perigoso. Cabe ao proprietário aprender a controlá-lo. E é isso que tem acontecido: nos últimos anos, o Fila tem sido cada vez mais bem controlado por seus donos. De certa forma, representa uma boa mudança de comportamento. O ideal é que continue assim e não volte a ter incentivadores para ser feroz, como ocorreu na década de 70." Lilia Poell, de Atibaia, SP, dona de Tess, uma Fila de quatro anos, e membro da diretoria do Kennel Vale Clube: "Não sei sobre outros Filas, mas a Tess tem um temperamento maravilhoso. Faz a guarda quando necessário e conosco é extremamente carinhosa. Estava grávida quando a Tess chegou, ainda filhote. Os vizinhos diziam: "Cuidado, essa raça é assassina!". Logo que Júlia nasceu, a colocávamos sobre um lençol, na grama, para brincar. Quando ela saía do lençol, para nossa surpresa - e susto, no início -, percebemos que Tess pegava nossa filhinha com a boca, com cuidado, pela roupa, e a recolocava no lugar. Tess não vacila quanto à nossa proteção. Nunca nos aconteceu nada porque ela está sempre atenta. Fica solta. Late aos passantes, e ninguém entra sem ela avançar. E se recebemos um amigo, além de não esboçar reação, Tess pede carinho e permite ser tocada. Se estamos por perto, fica ao nosso lado, nos defendendo." Léa Lucia de Paula, dona de uma Fila de dois anos, de São José dos Campos, SP: "Há quatro anos, acompanhava as exposições à procura de um bom cão para comprar. A raça que realmente me impressionou foi a do Fila Brasileiro. Encantei-me com o seu caráter, equilíbrio e temperamento tranquilo com o proprietário e, ao mesmo tempo, com seu ótimo sentido para a guarda. Quando conheci a raça, passei a acompanhá-la nas exposições para observar as características e conhecer os melhores exemplares, sua sociabilidade e o controle do proprietário sobre os cães. Ao comprar a minha Fila, eu a chamei de Paixão, em homenagem ao sentimento que nutri. Se alguém passa, Paixão dá o alarme e só pára de latir se for um visitante bem-vindo. Nesse caso, aceita-o bem, só não permitindo que a toque."
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