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POODLE: CENTÍMETROS FAZEM DIFERENÇA
Na busca por um novo companheiro da raça Poodle há uma verdadeira
corrida pelo exemplar menor. Mas será que o tamanho reduzido
é ideal para todo tipo de família? Na sociedade moderna a
miniaturização está por toda parte: telefones, computadores,
eletrodomésticos, etc. Vivemos em espaços cada vez menores.
Quando o assunto é Poodle, muitos querem os menores exemplares
e exigem até mesmo garantia de que o cão não vai crescer muito.
É o que observam vários criadores da raça, que apontam uma
procura significativa pela variedade menor. A maioria das
pessoas desconhece como pode ser grande a diferença de convívio
determinada por alguns centímetros na altura, implicando uma
mudança no perfil do lar que vai se adequar melhor ao cão.
Errar na escolha do tamanho pode corromper a relação cachorro-dono,
pois ambas as partes ficarão infelizes.
FORTE DEMANDA
O padrão oficial da raça, publicado pela Confederação Brasileira
de Cinofilia, filiada à Federação Cinológica Internacional,
estabelece claramente que apenas quatro tamanhos são reconhecidos:
o Poodle Grande (de 45 a 60 cm), o Poodle Médio ou Standard
(de 35 a 45 cm), o Poodle Anão (de 28 a 35 cm) e o Poodle
Toy (abaixo de 28 cm, sendo 25 cm a altura do tipo ideal).
Mas, para atender a procura, o Toy acabou subdividido em denominações
não reconhecidas oficialmente pela Cinofilia. Nos anúncios
de venda, o nome Toy é geralmente usado para exemplares na
faixa de 25 a 28 cm. Os com menos de 20 cm são chamados de
Micro e os de tamanho intermediário recebem o nome Micro Toy.
Essa classificação decorre da diferença de tamanho facilmente
perceptível entre os Toys, além de as variações comportamentais
tornarem-se mais óbvias à medida que o porte diminui. Já para
o Poodle Anão o mercado prefere a denominação Miniatura, considerada
mais elegante por eliminar qualquer conotação de proporções
não ideais, como pernas curtas demais, típicas do nanismo
mas não dos Poodles Anões, evitando gerar confusão.
XÍCARA DE CHÁ
A busca pelos Poodles menores não é uma característica exclusivamente
nacional: mesmo em países como os Estados Unidos há criadores
que anunciam a criação dos Poodles Toys, Tiny Toys (Micro
Toys) e os Teacups Sizes (os tamanhos xícara de chá, ou seja,
os Micros), muitas vezes com garantias genéticas. "O American
Kennel Club determina que o Poodle Toy pode ter, no máximo,
25,4 cm e que exemplares com 20 cm podem participar de exposições
e competições", comenta a cinóloga Hilda Drummond. "As nomenclaturas
extra-oficiais como Teacup e Tiny Toy são só utilizadas para
Poodles com menos de 20 cm." O pequeno tamanho está associado
algumas vezes à praticidade. Outras, ao próprio instinto de
preservação que o ser humano possa sentir em relação a um
cão pequeno. Imagine-se andando pela rua e encontrando um
garotinho e um adulto, ambos precisando de cuidados. A preocupação
será maior com a criança do que com o adulto. Muitos criadores
dos Poodles menores concordam quando dizem que a fragilidade
desperta o instinto de proteção. Por isso, o público feminino
se identificaria mais com essas variedades. "A mulher gosta
mesmo de tudo que lembra o aspecto delicado, bibelô das coisas,
e o instinto maternal aparece nessas horas", explica a psicóloga
Eva Irene Blass. "Quanto menor é o cão, maior é o sentimento
de proteção que desperta e menos complicado é levá-lo junto",
diz. E exemplifica: "A modelo Gisele Bündchen leva o cãozinho
dela, pelo mundo todo, dentro de uma sacola." A ligação entre
sofisticação e tamanho vem da própria sociedade e da tecnologia,
explica Eva Irene. "Se um eletrodoméstico qualquer é pequeno,
então a sofisticação é grande, pois há a imagem de, quanto
menor, mais caro e mais raro.
ATRAINDO
MULHER
A tendência de mercado é constatada na prática pela proprietária
do Canil Oakland's Kennel, Eliana Kauschus Leal. "O Poodle
pequeno chama a atenção de pessoas delicadas e com trato refinado,
atraindo as mulheres por uma questão de identificação com
essa natureza carente", diz. "Não que não haja homens que
se interessem, mas eles acabam sendo conquistados pelo convívio,
pois a dona do cão é a esposa." Essa definição é reafirmada
por Glória Fernandez, criadora e proprietária do Gladiator's
Kennel. "O Poodle pequeno é higiênico e conquista facilmente
a confiança das mulheres que têm uma preocupação grande em
manter a casa limpa e cuidada." A busca grande pelo Poodle
pequeno acaba gerando resultados nocivos. Muitos criadores,
a fim de atender à de manda, tentam conseguir exemplares cada
vez menores. O resultado é o nascimento de cãezinhos tão frágeis
que exigem tratamento diferenciado.
Há casos de exemplares cujos ossos da nuca, por exemplo, não
se fecham completamente. Outros começam a ter as características
da raça diluídas. Os exemplares saem disformes e podem até
ser classificados como verdadeiras "aberrações". É entre os
Poodles Micro que esse tipo de ocorrência é observado na maioria
das vezes. "Um exemplo disso é um macho Micro que eu tenho,
o Salomão", conta Dolores Jimenez, proprietária do Canil Loreiman
Dog's Nena. "Ele nasceu muito pequeno, com a moleira aberta,
problemas de dentição e sem um dos testículos." Dolores acabou
ficando com Salomão. "Tenho muito cuidado quando chega alguém
de fora para que não aconteça nada, pois Salomão é muito festeiro
e só com uma batidinha na cabeça ele já desmaia", revela.
COMO SERÁ?
Os Micros são frágeis, mas nem sempre trazem problemas. Tanto
que, nas cinofilias mais avançadas, onde é comum parte dos
criadores garantirem a saúde dos filhotes vendidos, essa prática
é igualmente adotada pelos vendedores de Poodle Micro.
Outro desafio que criadores e donos enfrentam é a dificuldade
de saber, com certeza, qual será o tamanho do cão ao crescer.
Exemplares comercializados como sendo de um tamanho acabam
crescendo mais do que o esperado.
Há muitos relatos de pessoas que, por exemplo, vendem um filhotinho
de Poodle garantindo que será Micro, já sabendo que ficará
bem maior mas apostando que o comprador não o devolverá em
razão do envolvimento emocional.
É de conhecimento geral que os laços criados com o cão fazem
com que muitos reajam com resignação ao constatar que foram
enganadas nessas circunstâncias. Garantir que tamanho terá
o Poodle pequeno ao crescer é uma tarefa que só pode ter sucesso
se a previsão for feita quando o cão estiver com, pelo menos,
quatro meses de idade. Muitos clientes que compram antes disso
acabam se sentindo lesados porque levam gato por lebre. "Um
Poodle Micro ao nascer tem o mesmo tamanho que um Toy, mas,
enquanto os Toys crescem, ele fica pequeno", comenta Dolores.
Uma maneira de minimizar os riscos de levar um filhote e vê-lo
crescer demais é observar seus pais e avós, estudando a altura
dos cães que deram origem à ninhada. Nem sempre o tamanho
de um filhote indica a qual variedade ele pertencerá quando
adulto. Estar muito pequeno pode ser um sinal de má alimentação.
Algumas pessoas, para confundir o consumidor, não alimentam
os filhotes para induzi-lo a crer que se encontra diante de
um exemplar excepcionalmente pequeno. Porém, assim que for
levado para o novo lar e receber bons tratos, o cãozinho passará
por um desenvolvimento quase a jato e, em pouco tempo, ficará
bem maior do que o prometido. Uma dica para evitar isso é
procurar informar-se sobre a seriedade do canil no Kennel
Club, ou visitar exposições cinófilas onde sempre há criadores
interessados na boa qualidade da raça. Porém, lembre-se: a
criação oficial não gosta e não usa as expressões Micro e
Micro Toy. Opte por falar em Toy e informe a faixa de centímetros
procurada.
AS DIFERENÇAS
Poucos não ouviram falar da graça e da inteligência características
da raça Poodle. Mas muitas vezes os interessados procuram
o canil com a idéia preconcebida de adquirir um Micro, sem
pensar que, antes de ir ao canil, devem definir qual é o tamanho
mais adequado para companhia, para brincar com as crianças,
etc. E nem sempre a variedade menor é a mais apropriada. Os
fatores que devem ser levados em consideração na hora de decidir
por um Poodle pequeno englobam características de comportamento,
resistência física e cuidados necessários. Nesse ambiente
misto, foram definidos 26 itens relacionados ao convívio dos
cães com seus donos e submetidos à avaliação de três criadoras
experientes, que já conviveram com mais de 2.300 Poodles das
variedades enfocadas (ver quadro As criadoras entrevistadas).
Destes itens, elas identificaram nove em que há diferenças
entre as variedades. Para designá-las foi adotada a terminologia
popular, por falta de uma oficial. Quando o comportamento
de uma variedade não é citado considere que sua graduação
é proporcional ao seu tamanho em comparação com as citadas.
SOCIABILIDADE COM A FAMÍLIA
Alta em todas as variedades, com pequeno destaque para o Miniatura
"O Micro, pelas limitações físicas, é um pouco mais retraído."
- Julieta "O Miniatura se socializa mais. Os Micros ficam
na defensiva, preferem pular sem parar junto ao dono, pedindo
colo." - Dolores
ATIVIDADE DENTRO DE CASA
Muito alta no Miniatura e média no Micro "O Miniatura gosta
de andar e o Toy se diverte com brinquedos e objetos. O Micro
é mais de ficar parado no canto dele." - Julieta "O Micro
até brinca, mas se cansa mais rápido." - Dolores "Os Miniaturas
estão sempre prontos para uma brincadeira. Os Micros, não.
Eles tiram várias sonecas durante o dia em horários definidos
e não abrem mão." - Osana
RISCO DE SE MACHUCAR EM INTERAÇÕES COM CRIANÇAS
O Miniatura não tem restrições; o Micro corre perigo "Um Micro
vai mesmo correr mais risco com uma criança de 5 a 7 anos
pela fragilidade de sua estrutura física. As crianças confundem
o cachorro com um brinquedo. Mas é um ser vivo e exige atenção."
- Julieta "Nunca recomendo um Micro para quem tem criança.
O futuro dono deve ser um adolescente ou um adulto, nunca
uma criança. Ou será dinheiro jogado fora. Se quiser um cão
que sirva de brinquedo para a criança, é melhor pegar um Miniatura
ou um Toy, que são mais fortes." - Dolores "Eu jamais passaria
um Micro para uma criança." - Osana
RISCO DE SE MACHUCAR POR ATOS FÍSICOS ESPONTÂNEOS
O Miniatura não tem restrições; o Micro corre perigo "A vigilância
em cima do Micro tem que ser constante. Se ele se enfia dentro
de um saquinho de plástico, por exemplo, pode não saber sair.
Esse tipo de coisa jamais acontece com um Poodle Miniatura
ou Toy." - Julieta "Tenho uma Micro de três anos chamada Cristal
que, ao descer a escada, pulou os últimos três degraus. Resultado:
quebrou a perna em dois lugares. Não imagino isso acontecendo
com um Toy ou um Miniatura." - Dolores "Uma escada é quase
um inimigo natural do Micro. Os Miniaturas e Toys conseguem
subir uma escada ou descer de uma cadeira naturalmente, pois
são mais fortes. Mas os Micros sofrem com isso. Um Micro sobe
uma escada, por exemplo, a partir dos seis, sete meses, enquanto
as outras variedades o fazem com apenas dois meses." - Osana
NECESSIDADE
DE VIGILÂNCIA
O Miniatura e o Toy exigem muito menos atenção do dono "A
necessidade maior de vigilância cai sobre os Micros. Eles
não têm noção de sua fragilidade física e podem se colocar
em situações de risco a ponto de quebrar uma perna, por exemplo,
o que só a ação do dono pode minimizar." - Julieta "A fragilidade
do Micro não se restringe apenas à ossatura, mas também ao
seu organismo, e cabe ao dono ficar atento a problemas que,
nos outros, podem não significar muito, mas nele pode. Por
exemplo, ficar sem comer, sinais de mal-estar, etc." - Dolores
"O Miniatura é uma variedade que pode ser deixada sozinha
o dia todo sem preocupação. Já o Micro requer muita atenção.
Pisar nele pode significar a morte. Cair da cadeira pode resultar
em desmaio." - Osana
FREQÜÊNCIA DE LATIDOS
Alta no Miniatura e média no Micro "O Micro, por ser o mais
mimado, é o que late menos porque sabe que logo vem a proteção
da dona." - Julieta "O Miniatura é mais 'latidor', porque
quer dominar o espaço e se impor, mas logo pára." - Dolores
EXIGÊNCIA DE TEMPO PARA CUIDADOS DE HIGIENE
O Micro se suja menos O Micro dá menos trabalho. O Miniatura,
por ser mais ativo, se suja bem mais." - Julieta "Sempre achei
que o Miniatura complica mais em questão de higiene. O pequeno
é quieto, toma mais cuidado com as coisas em geral. Não rola
no chão com as crianças por medo de se machucar. É bem mais
fácil mantê-lo limpo." - Dolores "O Miniatura e o Toy se sujam
mais. Os Micros compensam o maior trabalho que dão para serem
vigiados com quase nenhum trabalho para limpá-los." - Osana
RESISTÊNCIA
FÍSICA EM CAMINHADAS
O Miniatura é muito mais resistente "Posso citar vários casos
de clientes que caminham bastante com Miniaturas e Toys. Mas
os Micros logo se cansam. Uma cliente acostumou a Micro que
vendi para ela a ir dentro da bolsa. A mulher vai, inclusive,
a restaurantes com a cachorra lá dentro. Andar, que é bom,
nem pensar." - Julieta "Para passear na coleira os melhores
são mesmo o Miniatura e o Toy. Para os Micros, só mesmo um
bom passeio de carro ou no colo." - Dolores "Já vi Toys mimados
a ponto de pedirem para ir no colo da dona, mas o Micro exagera:
anda, mas logo pede para ser carregado." - Osana
SOCIABILIDADE COM CÃES FORA DE CASA
Média no Miniatura e no Toy, baixa no Micro "Se for um Miniatura
ou um Toy, eles se socializam bem com cães estranhos. Mas
se for um Micro, vai ficar na defensiva por causa do tamanho."
- Dolores "O Micro, por ser menor, é o que se sente mais intimidado
ao encontrar um cão desconhecido." - Osana
PARA
SABER MAIS
Clubes: Poodle Clube Paulista, tel.: (11) 3743-0682, Rua Ministro
Guimarães, 312, Morumbi, 05750-310, São Paulo, SP. Criadoras
das variedades pequenas: 1) Dolores Gimenez, Canil Loreiman/Dog's
Nena, Julieta Florentino Corazza, Canil Dog's Park 3) Osana
Cristina de Oliveira, Canil July's Toy,
Agradecemos aos entrevistados, em especial a Eliana Kauchus
Leal e Gloria Fernandez, e aos não citados no texto: Maria
Glória Romero (presidente do Poodle Clube Paulista e dona
do Canil Shambala), Nádia Ferreira Marques (Canil Fire Queen's)
e às proprietárias de Poodles pequenos: Beatriz Haruni Ogawa,
Cláudia Maria Giglio Dragone, Deise Delgado e Ieci Spada dos
Santos. Reportagem: Sérgio Pereira Couto (Coordenação: Marcos
Pennacchi). Texto: Marcos Pennacchi e Sérgio Pereira Couto.
Revisão técnica (secretariada por Fabio Bense): Completa:
Dolores Jimenez, Hilda Drumond, Julieta Florentino Corazza
e Osana Cristina de Oliveira. Parcial: Eliana Kauschus Leal
e Eva Irene Blass. Direitos
autorais do texto: Cães&Cia, é proibida
a reprodução total ou parcial do texto
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