biografia
inquietações
trabalhos
fotos
imprensa
e-mail
agenda
ALIÁS

O ESTADO DE S.PAULO - 16 de Janeiro de 2005

A importância de ser Ninguém
Enquanto os Big Brothers correm atrás da fama, a vencedora de Casa dos Artistas brilha no teatro

Fred Melo Paiva



Jean, Grazielli, Giulliano, Tatiane, Juliana, Natália, Alan, Paulo, Rogério, Karla, Sammy, Tatiana. Um professor universitário, uma modelo, um jogador de futebol, uma empresária, um estudante, uma apresentadora de tevê, um engenheiro mecânico, um consultor administrativo, um médico, uma dançarina, um comerciante, uma promotora de eventos. Infelizes criaturas, pobres almas expulsas do paraíso das very important people - carregam consigo a indelével marca do anonimato. A eles caberia bem a pergunta feita a um amigo do autor de novelas Aguinaldo Silva, abordado por uma garota na porta dos estúdios da Globo, no Rio, sob a suspeita de que fosse um famoso: "Quem é você? Você não é ninguém"? Até o domingo passado, Jean, Grazielli, Giulliano etc. poderiam pendurar no peito o seguinte crachá: "Fulano de tal, Ninguém." Mas o dedo de Deus, este que não se sabe ao certo se é realmente Alguém, apontou-lhes o caminho da salvação. Foram escolhidos. Desde então encontram-se dentro do Projac. Sob a batuta de Pedro Bial, este um alguém sem sombra de dúvida, eles se transformaram nos incríveis Big Brothers. Na quinta versão do programa, disputam o prêmio de R$ 1 milhão, o dobro dos anos anteriores. É verdade que todo mundo precisa de R$ 1 milhão. Mas o bom mesmo é ficar famoso - afinal, ninguém agüenta essa vida de anônimo. Ninguém.

Na mesma semana em que triunfavam os fabulosos Big Brothers - cujas performances são denunciadas por 42 câmeras e 68 microfones, lamentavelmente -, duas outras estréias aconteciam em São Paulo. No pequeno palco do Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis, uma nova e bem-sucedida montagem de Os Sete Gatinhos, de Nelson Rodrigues. No teatrão Imprensa, centro da cidade, volta à cena o delicioso texto de Oscar Wilde aqui traduzido para A Importância de ser Fiel (no original, The Importance of being Earnest - um trocadilho entre earnest, zeloso, e o nome próprio Ernest). A primeira é dirigida por Alexandre Reinecke. A segunda, uma produção do premiado Grupo Tapa, sob o comando de Eduardo Tolentino. Em ambas as peças, lá está uma carinha que muita gente julga fabricada na linha de produção dos BBB, essa máquina de forjar celebridades: é Bárbara Paz, a vencedora da primeira Casa dos Artistas, levada espertamente ao ar pelo SBT em 2001, embora os direitos do formato pertencessem à esperneante concorrência.

Em Os Sete Gatinhos, Bárbara Paz é Aurora, personagem central, uma das cinco filhas de Noronha, funcionário da Câmara dos Deputados (um "contínuo", que ele não nos ouça). A cenografia resume-se a uma gangorra. O narrador, um Nelson Rodrigues que batuca a máquina de escrever enquanto narra o próprio folhetim - servindo-se também à função de compor, com o barulho do velho teclado, um incômodo fundo musical. Está em cartaz às terças e quartas, com atuações seguras e casa cheia. A Importância de ser Fiel é um espetáculo muito mais arrojado, que já viajou o País a reboque da fina ironia de Wilde e dos 25 anos de sucesso do Grupo Tapa. Bárbara Paz contracena com Nathalia Timberg, Etty Fraser, Brian Penido Ross. Nas duas peças, divide palco também com o namorado Dalton Vigh, de 40 anos - a melhor figura em cena na reestréia da peça, quinta-feira passada em São Paulo. Bárbara não faz parte desse time porque apareceu na televisão. "É uma ótima profissional", aplaude Paulo Autran, que a dirigiu em Vestir o Pai, de Mário Viana. "Tem muito talento, é disciplinada, inteligente e determinada." Quando esteve em cartaz pela primeira vez com A Importância..., Daniel Piza assinalou em sua coluna no Estado: "Nathalia errou o nome de sua própria personagem, chamando-se de tia Cecilia. Bárbara, de bate-pronto, como se fosse uma fala do texto: 'Não pode ser tia Augusta?' O público e Nathalia riram e aplaudiram." Ao contrário do que possa parecer, a participação em Casa dos Artistas só tem servido para inflar o preconceito contra o aposto que a acompanha, desgastado pelas peladonas de Playboy - Bárbara Paz, modelo e atriz.

"Bárbara tem muita sensibilidade para o palco", diz Raul Barreto, um dos integrantes dos Parlapatões, Patifes e Paspalhões, conceituada trupe paulistana que a escolheu para 6 de seus 20 espetáculos. "O preconceito por causa da Casa dos Artistas é injusto. Ela já tinha uma carreira antes de participar do reality show." Na verdade, a carreira de Bárbara Paz remonta aos tempos da infância em Campo Bom (RS), cidade de imigração alemã onde ela nasceu, a 40 km de Porto Alegre. Ali, dedicava-se com rigor às danças do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) porque "não tinha dinheiro para pagar o balé". "Na minha cidade só havia uma rua e o circo que ficava na esquina", diz. "Eu ia para lá todo domingo, ganhava o concurso de dança e um ingresso para a próxima semana. A minha infância foi isso, uma coisa meio felliniana."

O Fellini de Bárbara Paz carregou um tanto no drama, produzindo enfim "uma infância mexicana". Quando nasceu, caçula de uma família de quatro filhas, seu trabalho de parto foi o único a substituir a parteira pelo hospital. A despeito disso, um problema afetou de forma crônica um dos rins de sua mãe, Iray. Daquele momento até o fim da vida, 17 anos depois, faria hemodiálise três vezes por semana, quatro horas ao dia. O pai morreu antes da mãe, quando Bárbara tinha apenas 6 anos. A partir de então, a vida mudou completamente. Sem dinheiro, trabalhou desde os 9 anos - primeiro vendendo esculturas de gesso, depois em lojas e fábrica de calçado; mais tarde, já adolescente, em uma agência de publicidade. Nessa ocasião, a vida se resumia ao CTG, aos hospitais e à labuta diária. Em 1992, a saúde da mãe piorou. "Não havia mais carne, seu peso não chegava a 40 quilos", anotou Bárbara em um poema para seu diário. Dona Iray morreu em 29 de maio: "Ao meio-dia sua alma foi filtrada deste mundo." "No dia que minha mãe faleceu, eu me vi sozinha em casa. Morávamos só eu e ela, as irmãs todas casadas. 'O que eu vou fazer aqui nesse Campo Bom?', pensei." Em junho do mesmo ano, já estava vivendo em São Paulo - desfilando, fotografando e estudando teatro na escola Macunaíma. Em dezembro de 92, nas primeiras férias no sul, segue "essa mexicanada que não acaba". No dia do Natal, Bárbara e um grupo de amigas sofreram um acidente de carro. Saíram de uma casa às 5 horas da manhã. Todas tinham bebido. Bateram o Chevette numa árvore da esquina da mesma rua, "uma coisa que ninguém explica direito". "Foi como se abrissem uma torneira de sangue no meu rosto", lembra. "Naquela hora, misturou o álcool com o sono, fui para o meio da rua e comecei a rezar. Pedia perdão e pedia para acordar - achava que estava sonhando." Bárbara tomou 400 pontos no rosto. Sua boca abriu de orelha a orelha, de forma que "viam-se todos os dentes". De volta a São Paulo, trancou-se em casa. Com duas cicatrizes enormes, abandonou a carreira de modelo, que até retomaria mais tarde. Foi estudar, ler e fazer teatro, agora no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho. "Lá eu nasci como artista, mas não como atriz. Entendi que eu podia tudo na arte - pintar, escrever. Mas a maneira dele se portar não bateu comigo. O Antunes gosta de dizer que o ator não é nada. É uma técnica de destruir para construir. Eu até entendo. Mas já tinha coisa demais desmoronada na minha vida." Bárbara então desembarcou nos Parlapatões, um elogio ao riso e ao deboche. "Voltei para o meu circo. Voltei a rir dos meus defeitos."

Bárbara passou a emendar um peça na outra. Foi dirigida por Hugo Possolo, Eduardo Tolentino, Francisco Medeiros, Sandra Corveloni, Débora Dubois, Beth Lopes. "Bárbara é uma excelente atriz", atesta Bibi Ferreira, que a dirigiu em A Babá, de Juca de Oliveira. "Tem instinto, uma voz excelente, um físico maravilhoso." Na televisão, fez participações em programas da Globo, Band, MTV. Numa quarta-feira qualquer, quando gravava um curta-metragem no Rio de Janeiro, foi tocada por aquele dedo de Deus (ou será do diabo?): ao telefone, um produtor do SBT acenava com um cachê-prêmio de até R$ 300 mil. "Perguntei apenas o que tinha de fazer. Ele respondeu: 'As malas'." Bárbara não fazia idéia do que vinha a ser reality show. "Entrei na Casa dos Artistas pela grana. Não pensei em alavancar carreira. Ao contrário, pensei que ia ser mico. Afinal, era um programa do Silvio", diz. "Hoje olho e comprovo: mico. Pude comprar meu apartamento e ajudar minhas irmãs. Mas... mico. Acho muito questionável esse tipo de programa. Detesto essa transformação da vida em espetáculo. Quem sou eu para falar, né? Mas o fato é que eu não faria de novo de jeito nenhum." Depois de sair da casa, onde viveu um romance com o roqueiro Supla, foi direto para o divã. "Uma piração sentimental", diz. "E um ano em que eu me senti muito sozinha."

Bárbara Paz recusou, de cara, uma proposta para posar nua em Playboy, ainda que o cachê pudesse superar o prêmio recebido no reality show. Preferiu engrenar a não menos constrangedora tarefa de protagonizar a novela Marisol, co-produção que juntou México e SBT, um casamento quase redundante. Desembarcou na Ilha de Caras em três oportunidades. Numa delas, cruzou Débora Secco. "Ela disse: 'Nossa, eu sou igual a você!' Eu nem conhecia ela, porque não assisto muita televisão e ela não era tão Débora Secco ainda", diverte-se. "Agora deve ter até um bangalô com o nome dela." Diante das investidas para transformar sua vida numa seqüência out doors da Casa dos Artistas, decidiu pisar no freio. Dispensou assessoria de imprensa, "deletei programas de tevê". "Carreira de atriz se constrói com tempo. Os melhores papéis vêm depois dos 30. Muita gente me encontra e diz: 'Você sumiu... Não está em lugar nenhum?' Eu digo: 'Estou fazendo o que gosto e o que sempre sonhei na vida'." Em suma, virou Ninguém - de terça à domingo, em duas das melhores peças em cartaz na cidade. Ninguém segura.

|volta|






Clique abaixo para baixar fotos em alta resolução:

     

Clique para ver o álbum de fotos "Imprensa"