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O ESTADO DE S.PAULO - 25/01/2005 Um Nélson Rodrigues para quem é arredio a esse autor Montagem de Sete Gatinhos tem entre suas qualidades evitar o caminho fácil do apelo pornográfico Beth Néspoli Tem qualidades e alcança empatia com o público - que reage com risos e interjeições às ações d os personagens - a encenação de Os Sete Gatinhos, de Nélson Rodrigues, dirigida por Alexandre Heinecke em cartaz no teatro do Shopping Higienópolis. A principal qualidade da direção está na utilização inteligente da convenção teatral, tanto na suposta presença do autor em cena como na delimitação de espaços como rua ou cômodos da casa do contínuo Noronha (Javert Monteiro) onde se desenrola a maior parte da trama. Adapta-se bem ao dinamismo de cenas e diálogos a solução de utilizar como cenário apenas um balanço, com múltiplas funções cenográficas. Difícil entender, no entanto, a opção por um balanço feito de cordas e madeira, que remete ao universo rural. Assim, ao ser lançado ao palco pela primeira vez, supostamente no urbano espaço da rua, provoca um indesejado efeito de precariedade. Materiais, sabem os artistas plásticos, fazem toda a diferença na significação de um objeto. Se há unidade nas soluções de deslocamentos em cena, ela não se repete na interpretação, carente de organicidade. Os atores parecem ter criado seus personagens de acordo com o que lhes pareceu mais interessante, sem levar em conta uma idéia central ou a harmonia do espetáculo: o tom farsesco no 'turco' seu Saul, interpretado por Jorge Cerruti, contrasta com a criação discreta, excessivamente contida, de Paulo Coronato para o Dr. Bordalo, enquanto Amanda Costa, no papel de Silene, sempre que a intensidade se faz necessária, atua em alto volume sonoro. Javert Monteiro no importante papel do chefe da família, tem dificuldades de revelar as motivações internas de seu personagem do qual só parece tomar as rédeas próximo ao desfecho da peça. Numa das primeiras cenas, por exemplo, o chefe de família ameaça fisicamente sua mulher (Noemi Gerbelli) sob impacto de ter descoberto pornografias rabiscadas na parede do banheiro de sua própria casa. Logo depois, diante das filhas, convocadas para um interrogatório, pede desculpas à mulher. Esta, por sua vez, desconcertada diante da gentileza, responde de forma atravessada, provocando outra reação do patriarca que, em seguida, volta suas baterias contra às filhas. São atitudes movidas por sentimentos diversos, expressos em curtíssimo espaço de tempo e por meio de diálogos rápidos, certamente um desafio para qualquer ator. Nessa seqüência, Javert não consegue trazer à cena as contradições do ressentido, violento e autoritário contínuo que interpreta. Também oscila entre bons e maus momentos a interpretação do restante do elenco. O destaque fica por conta da dupla Bárbara Paz e Dalton Vigh. No papel do cafetão Bibelô, ele tem construção cuidadosa e consegue revelar intenções que o personagem tenta ocultar com suas falas. No papel de Aurora, Bárbara destaca-se pela intensidade e pela atuação interiorizada que atrai o olhar do espectador até mesmo nos momentos de silêncio, numa criação que parece estar fundada mais na sua (forte) intuição de atriz do que em instrumental técnico. Seja como for, ela consegue fazer ressoar em sua personagem algo que diz respeito a todos os seres humanos: a possibilidade de ser salva pelo amor ou perder-se pela ausência dele. É justamente a convergência para uma dimensão universal o que faz falta na encenação. A história dessa família formada pelo contínuo Noronha, sua mulher e seis filhas, que passa por terríveis privações para preservar a virgindade da caçula, as mais velhas chegam a prostituir-se, não teria maior importância se não carregasse um significado mais profundo do que aparenta. Em jogo, está o embate entre grandeza e mesquinharia, transcendência e cotidiano. A preservação de algo sagrado no horizonte salva da mesquinhez do dia a dia. Sem isso, a desagregação é inevitável. "Se Deus não existe, tudo é permitido", compreendeu Dostoievski, até o parricídio. Em torno dessa reflexão, Nélson constrói sua história com elementos de melodrama e de tragédia. Se por um lado a montagem ressente-se da contundência característica do autor na observação do ser humano, por outro a direção teve a sensibilidade de evitar apelações no caminho fácil da transformação de Nélson Rodrigues num pornógrafo, erro comum em adaptações de palcos e nas telas. Assim acaba por ter como mérito conquistar uma parcela de público até hoje arredia a esse grande autor brasileiro. |volta| |
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