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CRIATIVA

A charada brasileira

Depois de 45 dias sob os holofotes, Bárbara Paz revela sua história triste e a intimidade que as câmeras de TV não conseguiram mostrar.

Por Flávia Martinelli

"Nua só me sinto quando estou sem maquiagem".

Apenas 48 horas tinham-se passado desde que Bárbara Paz saiu da Casa dos Artistas, como a grande vencedora. Nos fundos acanhados de uma casa cor de laranja em um bairro operário de São Paulo,
acotovelavam-se 19 pessoas e dois cachorros grandões. Entre toda essa gente, repórteres de Criativa, de Playboy, da Folha de S.Paulo. De repente, atendendo a um comando mudo, todos saíram
respeitosamente da sala, transformada em estúdio fotográfico. Era o momento de Bárbara preparar-se para um ritual solene. Ela tiraria a maquiagem que cobria seu rosto e aplicaria uma nova. Preparava-se para a sessão de fotos (estas, que ilustram nossa revista). Foram mais de vinte minutos a sós, Bárbara e seu maquiador. Há motivo para essa privacidade. A máscara de maquiagem esconde aquilo que de mais íntimo Bárbara tem: as cicatrizes espessas que lhe vincam o rosto de um lado a outro.

Famosa no país todo, Bárbara tem uma história comprida demais para os seus 27 anos. E triste também. Você viu essa atriz na TV se expondo de quase todas as formas possíveis. Quem tiver internet e interesse pode acessar o site www.lost.art.br/bpaz.htm e vê-la sem nenhuma roupa, o corpo sensualmente pintado. Bárbara anda pelada numa boa. "Nua eu só me sinto quando estou sem maquiagem", ela confessa. O ex-marido Marcos Lopes, que foi casado com Bárbara por três anos, diz que, mesmo dormindo e acordando com a mulher, só se deu conta da profundidade das cicatrizes muito tempo depois de os dois viverem juntos. "Ela fazia questão de acordar uma hora antes
de mim para refazer a maquiagem." É uma obsessão, nascida de um grande infortúnio.

No Natal de 1991, Bárbara, morando em São Paulo, resolveu visitar a família, na pequena Campo Bom, cidade a 40 quilômetros de Porto Alegre. Encontrou-se com mais duas amigas, beberam muito e saíram
de carro. A pilastra de um prédio apareceu na frente, e o vidro do carro entrou rasgando no rosto de Bárbara. As duas amigas desmaiaram instantaneamente. A única desperta, Bárbara, saiu pelo vidro do veículo. Seu maxilar pendia, solto, no rosto. Os músculos faciais estavam dilacerados. A língua e o céu da boca, cortados.

Cinderela moderna: só faltava o príncipe Supla para o final feliz de Bárbara.

Bárbara tentou ver o próprio rosto logo que a ambulância chegou. Não conseguiu. O grande choque foi na máquina de raio X. "Vi meu reflexo no vidro do aparelho. Não acreditei." Por mais de um ano, ela carregou os curativos das cirurgias reparadoras. Maquiava o esparadrapo. E não aceitava as cicatrizes. Vem desta época, também, o cacoete de tentar cobrir o rosto com os cabelos. "Na minha
infância eu usava corte de moleque. Bem curtinho."

Trágica ironia. O último trabalho de Bárbara, antes de viajar para Campo Bom, havia sido numa feira de promoções. Ela representava uma boneca Barbie, na versão "Feliz Aniversário". "As crianças deliravam. Adoravam. Achavam que eu era idêntica à boneca", lembra a menina. Antes do acidente, ela ainda teve seu momento de paquita. Foi a escolhida para contracenar com a rainha Xuxa num comercial de TV. Com o acidente, Bárbara-Barbie-Paquita agora tinha uma enorme cicatriz.

E o sonho de virar atriz? E a carreira de modelo que começava a decolar agora, quando ela acabava de ser contratada pela agência Ford? Bárbara teve de se reinventar. Prestou o vestibular e entrou
numa faculdade de jornalismo, onde também trabalhava como secretária. Passou um bom tempo escondendo-se, com vergonha. Quando tentou voltar a representar, levou vários nãos na cara. Foi fazer um teste para um comercial de cerveja e, tão logo entrou no estúdio, a produtora mediu cada centímetro da cicatriz e disparou: "Você está fora." "Voltei esmigalhada para casa", lembra nossa heroína.

O espelho e a caixinha de maquiagem são inseparáveis de Bárbara.

São o cinto de segurança. Também a memória da mãe, a quem ela chama de "meu espelho". Bárbara perdeu a mãe, Iraí, aos 17 anos, vítima de embolia pulmonar e insuficiência renal. Mas a mãe começou a morrer quando a menina nasceu. Bárbara tinha dias e os problemas pulmonares da mãe apareceram. Os médicos deram-lhe 4 meses de vida, que depois se ampliaram para 4 anos. Daí até os 17 anos da filha, foi uma sucessão de internações. "Cada dia ao lado dela poderia ser o último". Bárbara ia para a escola e, na volta, não encontrava a mãe. Ela estava na UTI. Três dias antes de a mãe morrer, a família recebeu o aviso da companhia de eletricidade: a luz será cortada. Não havia dinheiro para a conta. Os médicos chegaram a oferecer a Iraí a chance de um transplante de rim. O doador teria de ser uma de suas 4 filhas (Silvana, Daniela e Adriane. Bárbara é a caçula). "Mas a mamãe sempre se recusou, dizendo que não queria nos machucar", lembra Bárbara, cheia de admiração e respeito. Do pai, Oripe Paz, ela quase não se lembra. Morreu de cirrose, quando a menina tinha 4 anos, deixando a mulher e as filhas em uma situação financeira difícil.

O Brasil inteiro cuidou de Bárbara. Deu colo. Esse é o principal dom da garota – arrumar colo. Quem fez as fotos para Criativa foi o ex-marido, Marcos Lopes. Bárbara já tinha as cicatrizes quando se
apaixonou à primeira vista e foi correspondida. "Ele mostrou que eu ainda era bonita." O ex-namorado, atual assessor de tudo, Raul Barretto, acompanhava todos os movimentos no estúdio. Outro ex-namorado cuidou das plantas e do gato enquanto ela estava na Casa dos Artistas. Supla, o príncipe roqueiro de cabelos coloridos e jaquetas de espinhos, mimou-a e acariciou-a sob o edredon lilás.

Quando o rosto dela ficou desfigurado, imediatamente, um cirurgião plástico, amigo da família, ofereceu-se para iniciar a reconstrução. A esta sucederam-se várias outras microcirurgias, sempre generosamente subsidiadas. A última foi feita pelo próprio Ivo Pitanguy, o mago das plásticas. Sem salário fixo ("Às vezes faltava até para o aluguel e o telefone"), Bárbara nunca teria condições de arcar com o tratamento. Foi a rede de amigos que devolveu a menina à vida e lançou-a no súbito estrelato.

Ela queria ser estrela. E não desistiu, mesmo com a tragédia.

Estudou com um dos maiores diretores de teatro do país, Antunes Filho, que já formou gente como Giulia Gam, Alessandra Negrini e Luís Mello. Tornou-se amiga do pessoal da MTV, que fez a ponte com
aquele que seria o futuro diretor da Casa dos Artistas, Rodrigo Carelli. O pedaço triste da história de Cinderela estava quase no fim, agora só faltava o final feliz, com príncipe e tudo. Aconteceu. Na Casa dos Artistas, Bárbara e Supla chegaram a dividir base, pó e delineador, do inseparável estojo de maquiagem. O Charada Brasileiro também adora se maquiar. É o espelho dela.

A loirinha bonita, modelo e atriz, batalhando sozinha em São Paulo, sempre provocou a desconfiança da tradicional Campo Bom. O que faz essa menina lá? Coisa boa é que não deve ser. Acabou a Casa dos
Artistas e o prefeito da cidade telefonou. Convidava Bárbara para uma festança em homenagem a ela. Campo Bom enfim se reconciliava com a filha desgarrada. Mas a nova celebridade agora tem de consultar a agenda e seus assessores, para ver se dá. Também precisa saber se o maquiador que sempre a acompanha estará disponível.

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