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É proibido o moto-frete!

E resolve-se facilmente um dos grandes problemas
do trânsito das grandes cidades. Será mesmo?

Texto: Rodrigo de Oliveira Moraes - Fotos: Fabrício Samahá e divulgação

Oito entre dez pessoas que dirigem automóveis nas grandes cidades odeiam os motoboys, pode-se afirmar em uma estimativa talvez otimista. Poucas categorias profissionais gozam de tão pouco prestígio. As reclamações são as mais variadas: os motociclistas mensageiros profissionais riscam carros, quebram seus retrovisores, buzinam, xingam, costuram, estacionam sobre as calçadas, congestionam as filas dos bancos, fazem a Coca-Cola perder o gás e concentram o recheio em um só lado da pizza.

A solução parece óbvia: está proibido o moto-frete. Mas alguém tem de levar os documentos de um lado a outro da cidade, pagar contas, entregar a pizza e a comida chinesa. Como a falta de educação parece algo inerente aos motociclistas, entregue-se este trabalho a motoristas mensageiros profissionais, ao volante de furgões totalmente amassados, na cor predominante cinza-epóxi, sem placas, retrovisores ou pára-choques, repletos de adesivos de gosto duvidoso, como os conhecidos "Fui..", "2 fast 4 you", "cuidado, posso parar", além do indefectível "como estou dirigindo?". Profissionais estes doravante chamados... vanboys.

Milhares de motoboys: um problema que ganha mais e mais importância à medida em que cresce a demanda por entregas rápidas nas grandes cidades
Os vanboys terão que cumprir os mesmos prazos que os motoboys tinham para suas entregas, com a clara vantagem de estarem no interior de automóveis, o que os tornará educados e respeitadores das leis de trânsito. Educadamente, eles criarão uma nova faixa de pista quando encontrarem uma via congestionada, assim como fazem ambulâncias e viaturas de polícia nestas ocasiões.

Por estarem dentro de uma van e não sobre uma moto, respeitarão a integridade dos veículos de terceiros, sem causar qualquer arranhão à pintura ou quebrar um só retrovisor, apesar de andarem sempre espremidos e com pressa. Quando os vanboys chegarem ao destino de suas entregas, não estacionarão sobre a calçada -- mesmo porque a van não caberia -- e sim em fila dupla, apenas o tempo necessário para fazer a entrega ou esperar que toda a papelada seja rubricada e carimbada.

Por sorte, esta idéia é só ficção. Os motoboys continuam a proliferar-se pelas grandes cidades, causando ódio e -- por incoerência do destino -- amenizando os problemas de trânsito daqueles que os odeiam. Não é difícil imaginar o impacto que os (estimados) mais de 200 mil motoboys trariam ao já caótico trânsito de São Paulo, ou de outra metrópole do País, se fizessem suas entregas de carro.

As empresas de moto-frete realizam um trabalho necessário. Imagine tentar entregar de pizzas a documentos usando um automóvel

A expansão do moto-frete é mais uma daquelas "soluções" para o trânsito, assim como os rodízios de automóveis e os estacionamentos pagos em vias públicas, que desagradam a quase todos, mas conseguem atrasar um pouco o dia em que as grandes cidades entrarão em absoluto colapso, parando por completo. As efetivas soluções já são conhecidas de todos: segurança e transporte público. Segurança para andar algumas quadras até o ponto de ônibus, estação de metrô ou trem. E, óbvio, ônibus, metrô e trem para todos.

Enquanto isso não passa de sonho, vamos voltar ao mundo real e ao assunto deste artigo: os motoboys. Sendo estes imprescindíveis ao dia-a-dia das cidades, deve-se pensar em um modo de tornar mais pacífica a convivência motoboy-motorista. Se quem dirige automóvel seguisse as leis de trânsito, muitas das situações de atrito já seriam eliminadas. Coisas simples e previstas na legislação, como sinalizar com antecedência a intenção de mudar de faixa, não colocar o braço para fora do veículo ou jogar objetos pela janela, ajudam muito.

Outro procedimento, não previsto em lei, mas simples e que não atrapalha ninguém -- muito pelo contrário -- é manter-se no meio de sua faixa de pista. Com o trânsito parado, na impossibilidade de ultrapassar o veículo à sua frente, por que se deslocar para as extremidades da faixa, estreitando o corredor das motos? Pelo mesmo motivo, ao trafegar na faixa da esquerda em vias rápidas, parar o mais próximo possível da guia libera bastante espaço para o corredor mais utilizado pelas motos, praticamente eliminando o risco de um contato, que traria danos ao veículo do motorista e ao próprio motoboy.
Muitos desrespeitam a lei e o bom-senso, colocando suas vidas -- e os retrovisores alheios -- em risco. Mentes insanas ou simplesmente pressão do trabalho?
E enfim se chega a esse importante elemento na história: a pessoa do motoboy. Seria ele, em geral, um maluco suicida que finalmente encontrou uma profissão que lhe dá prazer? Ou um trabalhador comum, provavelmente vindo de outra área de atuação (já que a proliferação do moto-frete é relativamente recente), em busca de um pouco de autonomia, melhor renda ou mesmo de sair do desemprego?

A partir da quantidade de pessoas trabalhando com motos, a segunda opção parece mais provável. Então o motoboy que costura, xinga e quebra retrovisores tem sempre razão? Nem sempre. Em toda área de atuação, com provável exceção da classe política e dos dirigentes de futebol, há os maus profissionais, as pessoas sem caráter. No moto-frete não é diferente. A própria polícia alerta que há bandidos, disfarçados de motoboys, que fazem entregas de drogas pelas cidades. O motoqueiro que você xinga na esquina pode não ser um pacato entregador de documentos, mas um traficante.

A antipatia da população em geral com os motoboys só traz prejuízos à classe, e eles têm ciência disso. A profissão já é por demais estressante. Ser malvisto pelas pessoas a sua volta não ajuda em nada a aliviar o peso de trabalhar, às vezes, mais de oito horas diárias sobre veículos que oferecem pouca segurança e nenhum conforto.

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Quando se fica irritado com a manobra de um motoboy perto de seu carro, é possível pensar pelos dois lados da moeda. Para o motorista, "estou irritado porque o motoboy colocou a integridade do meu veículo em risco para entregar uma duplicata de uma pessoa que sequer conheço". Para o motoboy, "estou irritado porque estou colocando minha vida em risco para entregar uma duplicata de uma pessoa que sequer conheço".

Parece claro que, ao se colocar as duas posições em uma balança, a do motoboy terá maior peso e ele vencerá. Na verdade, porém, todos perdem enquanto não se respeitarem mutuamente e canalizarem suas reivindicações ao real vilão da história: o poder público, omisso e responsável pela segurança e pelo transporte público deficientes.

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