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Nos
estertores do Campeonato Mundial de Fórmula 1, uma corrida das mil e uma
noites, disputada em um cenário deslumbrante sob o cair da tarde e
início de noite no Oriente Médio: esse foi o Grande Prêmio de Abu Dabi,
17ª e última etapa do campeonato.
O problema foi que, para o campeonato, a corrida disputada na capital
dos Emirados Árabes Unidos de nada valeu. Afinal, com a confirmação dos
títulos de pilotos — para Jenson Button — e equipes — Brawn GP — em São
Paulo, a estreia da pista árabe no calendário do circo da Fórmula 1 foi
apenas um grande amistoso. Problema? Até que não. Sorte para o
campeonato que o título não foi disputado em um circuito tão chocho,
aguado — ainda que belo pelas construções ao redor — quanto o de Abu
Dabi.
O circuito de Yas Marina é base de um centro de entretenimento criado a
partir do nada na ilha de mesmo nome. A região da cidade de Abu Dabi não
passava de uma ilha desabitada, com um cenário desolador típico de um
deserto, até não mais que três anos atrás. No entanto, um plano de
investimento arrojado de US$ 40 bilhões bancado pela Aldar, empresa de
desenvolvimento imobiliário custeada pela família real do emirado de Abu
Dabi, fez com que a ilha de Yas se tornasse em um enorme canteiro de
obras — e, dois anos depois, em um dos maiores centros de entretenimento
do mundo. O tal centro reúne, em uma área de 1.700 hectares, além do
circuito semi-permanente, dois parques de diversões temáticos (um da
Warner Bros e outro da Ferrari), sete hotéis, centros de compras,
marinas e campos de golfe, entre outras instalações.
Como dinheiro não era problema, mas sim solução, muito foi investida
também no circuito — quase US$ 1,5 bilhão. Para se ter uma ideia, antes
de Abu Dabi o circuito em que havia sido despejado mais dinheiro era o
de Xangai, na China, com US$ 450 milhões. Ou seja, mais de três vezes
esse valor foi gasto para construir o circuito árabe. Com isso, foi
feita uma pista com tudo o que de melhor e mais moderno há à disposição:
as melhores instalações, o melhor projetista — o alemão Herman Tilke,
criador de todos os projetos modernos que estão entrando na Fórmula 1 —,
o melhor asfalto (importado da Inglaterra), o melhor sistema de
iluminação, uma pista que faz os carros de Fórmula 1 passarem pelo
saguão do hotel... Tudo foi bancado pelos emires e pela família real
árabe para fazer de Yas Marina um circuito único, exclusivo, digno de
entrar no imaginário dos pilotos, das equipes e dos fãs da categoria.
Mesmo a ideia do horário da corrida, ao cair da noite, surgiu para
reforçar a ideia de que a pista de Yas Marina é única. Preparado para
receber a categoria num horário em que a beleza do cenário é realçada —
no momento de um belíssimo por do sol no horizonte —, o circuito teria
que se adequar a receber a corrida em um momento ruim para a prática do
dirigir. Qualquer motorista sabe que o sol brilhando no campo de visão é
um dos piores cenários para a direção — quanto mais a pilotagem na
categoria mais rápida do mundo. Algumas medidas foram tomadas pelos
organizadores, como a ativação do sistema de iluminação antes de vir a
noite, mas ainda assim a visibilidade foi um assunto crítico, muito
discutido antes e depois da prova.
Continua
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