Como os dois carburadores ocupavam mais espaço, o estepe teve de ir para o porta-malas, reduzindo-o em boa parte. Mário Ferreira, dono da concessionária Condor, na capital paulista, percebeu então que bastava montar o pneu com a face externa para cima para que ele se encaixasse sobre o carburador direito. A idéia, simples mas genial, foi logo adotada pela VW.

"Uma emoção arrebatadora", anunciava em espanhol, em alusão à Copa do Mundo na Espanha em 1982, uma publicidade brasileira do Gol. O desempenho estava bem melhor com o motor 1,6 de carburação dupla e 56 cv líquidos

No mesmo ano, em maio, a família BX começava a se formar com o Voyage (viagem, em francês), um três-volumes de duas portas que trazia importante novidade: o motor de 1,5 litro arrefecido a água do Passat, de 65 cv. Além do porta-malas destacado, distinguia-se do Gol pela frente, em que as luzes de direção vinham ao lado dos faróis e não no pára-choque, e oferecia também a versão GLS.

Se o Voyage nunca foi um grande sucesso no Brasil (embora tenha sido exportado para vários países; saiba mais), êxito não faltou ao novo membro da família que nascia em junho de 1982: a Parati, uma perua de três portas com a mesma mecânica do Voyage. Embora não se destacasse pelo espaço para bagagem, sua traseira bem inclinada conferia-lhe ar mais jovial e esportivo que o de suas concorrentes Fiat Panorama, Chevrolet Marajó e, em segmento pouco superior, Ford Belina.

Com o Voyage, duas novidades: o porta-malas saliente e o motor 1,5 arrefecido a água do Passat, substituído por um 1,6 aprimorado na linha 1983

A família Gol já era bem-sucedida, a ponto de a VW ter confiado na retirada de produção do Brasília, no início do ano. Mas ainda faltava um membro: o picape leve para competir com Fiat Fiorino e Ford Pampa -- o Chevy 500 da GM só chegaria um ano depois. Em setembro de 1982 era lançado o Saveiro (nome de uma embarcação comum no Nordeste que transporta passageiros e carga), com o mesmo motor 1,6 "a ar" e a frente do Gol, capaz de carregar 570 kg.

Na linha 1983, Voyage e Parati recebiam o motor MD 270 ou "Torque", também empregado no Passat. A cilindrada passava a 1,6 litro e modificações na taxa de compressão, comando de válvulas e pistões, além de ignição eletrônica de série e carburador de corpo duplo, traziam mais desempenho e economia -- a potência passava a 81 cv. Outra novidade era a opção do câmbio 3+E (E de marcha econômica), com efeito overdrive, solução temporária para reduzir o consumo até que se tivesse um de cinco marchas.

Desenho atual, capacidade para 570 kg, ótima estabilidade: o Saveiro conquistou seu espaço, embora utilizasse o mesmo 1,6 "a ar" do Gol até 1984

Em março de 1983 o Voyage surgia em versão quatro-portas, a primeira num VW de três volumes desde o 1600 "Zé do Caixão". Apesar das linhas equilibradas e de possuir travas de segurança para crianças -- não uma novidade, pois surgiram no Renault Dauphine/Gordini/1093, mas ainda raras na época --, não fez sucesso e durou apenas três anos. Continua

Nas pistas
O Gol, ao lado de outros VW como o Voyage (foto) e o Passat, teve sempre destacada atuação nos circuitos de velocidade e nos ralis.

Ainda em 1980, padecendo da fama de lento devido ao motor "a ar" de 1,3 litro, o departamento de Assistência Técnica do Produto da Volkswagen, chefiado pelo ex-piloto de Turismo e Rali Ronaldo Berg (hoje na GM), conseguiu autorização da diretoria para ceder, em comodato, 45 Gols com motor 1,6-litro de Kombi para os melhores pilotos de rali de oito capitais. Logo o lento Gol passou a aparecer no noticiário esportivo da época, desfazendo em grande parte sua fama de não andar.

Em 1984 o Voyage ganhava o disputadíssimo Rali Itaú Nova Friburgo e o Rali de São Paulo. Na 12 Horas de Goiânia, terceira etapa do Brasileiro de Marcas, a dupla Jaime Figueiredo-Xandy Negrão venceu entre 60 carros que largaram, nesta corrida que contou com participação das quatro grandes fábricas -- 21 Fiats, 16 Escorts, 11 Chevettes e 12 Voyages, que ficaram com o primeiro e o quarto lugares.

Na 12 Horas de Guaporé, RS, a dupla Armando Balbi-Toni Racha venceu, e em segundo lugar, outro Voyage. A prova durou pouco mais de 5 h, pois foi interrompida devido a forte neblina e reiniciada após 4 h de paralisação. Para fechar o ano com chave de ouro, a mesma dupla ganhou também a 300 Milhas de Goiânia com um Voyage de 130 cv e velocidade final de 210 km/h. Branco com faixas azuis, tinha um aerofólio nada discreto, mas o conjunto era bonito. A VW levou o troféu no ano.

Para a temporada de 1985 do campeonato brasileiro de Marcas e Pilotos, as quatro fábricas decidiram com a Confederação Brasileira de Automobilismo que os motores seriam todos de 1.300 cm3.
A decisão, tomada em 18/12/84, deveu-se a tentar-se encontrar uma fórmula para equilibrar os desempenhos dos 1,6-litro da VW, Ford e GM com o 1,3 da Fiat, visando melhores disputas.

A engenharia da VW, coordenada pelo engenheiro Luiz Antônio da Silva, pôs mãos à obra. O 1300 "a água" de exportação era fraco demais para competição e deixaria a marca em desvantagem. A solução foi reduzir um 1,6 por meio de virabrequim de curso bastante curto: passou de 80 para 65,4 mm. No final de fevereiro o motor, a álcool, já estava rodando no dinamômetro e, com cabeçote AP, gerava 130 cv

a 6.800 rpm. O Gol 1,3 "a água" venceu na estréia e faturou o título de Marcas naquele ano.

Não raro os pilotos levavam o motor a 8.000 rpm. Seus pontos altos eram a relação r/l de apenas 0,24 e a velocidade média dos pistões: mesmo com motor girando a 8.000 rpm não passava de 17,4 metros por segundo. Em 1985 o Gol faturou também o Campeonato de Rali de Velocidade e o Brasileiro de Marcas.

Em 1986, no Rali das Estâncias, SP, o Gol levou do primeiro ao sexto lugar. Houve trechos com média de 135 km/h. Ganhou ainda o campeonato brasileiro e sul-americano nas mãos de Silvio Klein e Jorge Fleck. Outro destaque no ano foi o Voyage da categoria Hot Car, cujo motor 1,8 desenvolvia 170 cv através de uma preparação refinada, pois o regulamento permitia muitas peças importadas.

Em 1987 foi campeão paulista de rali. O carro que disputou o rali brasileiro e o Codasur (sul-americano) desenvolvia 127 cv a 6.600 rpm. Em 1988 tornou a ganhar o paulista de rali e, nos autódromos, venceu todas as provas do grupo N no campeonato brasileiro. No 8º. Rally da Argentina, o Gol 1,6 de 140 cv pilotado pelos uruguaios Gustavo Trelles e Pablo Reyno foi o carro sul-americano com melhor desempenho por mais tempo. Ainda nesse ano o Gol 1,6 ganhou o campeonato brasileiro de rali com Reynaldo Varella e Joaquim Cunha. Levou também o titulo do Sul Americano nas mãos de Eddio Fuchter e Ricardo Costa.

Bob Sharp/Francis Castaings

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