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Mercedes, a mocinha de um século,
emblema de
status e competência

Faz 100 anos a marca alemã, que nasceu
com um carro inovador de 35 cv

Texto: Roberto Nasser - Fotos: divulgação

Um dos nomes de automóvel mais conhecidos em todo o mundo comemora um século de bons caminhos. É o Mercedes, curiosamente projeto e designativo nascido fora da pequena e criativa Daimler, uma das pioneiras da indústria do automóvel.

Analisado sob o ponto de vista da evolução, o automóvel chamado Mercedes é um dos mais importantes marcos do desenvolvimento do carro sem cavalos.

O NOME MERCEDES

Gottlieb Daimler, talentoso engenheiro alemão, fazia confiáveis motores para automóveis, barcos, trens e motocicletas. Os carros de um século atrás nada mais eram que a combinação de toscas máquinas com uma carruagem à qual haviam retirado os varais, a arreata e os cavalos.

O primeiro Mercedes: mais baixo que os carros da época, era bom nas ruas e também nas pistas de corrida
O espírito de competição é imbricado à caracterização humana, e o que hoje nos parece inteiramente inexpressivo como desempenho, à época provocava disputas, pegas, rachas, primárias corridas. Na França, recordista em número de fábricas e marcas, o espírito de competição evidenciou-se logo. E na região de Nice, o Cônsul Geral do Antigo Império Austro-Húngaro era Emil Jellinek, um admirador, usuário e divulgador do uso das corridas.

Diziam os cronistas da época que ninguém sabia o que fazia em tal função. Sabiam-no rico por negócios na África e aparentemente com interesses em tudo negocial na região. Jellinek corria com seus abonados amigos -- aos quais havia vendido incríveis 34 unidades de Daimler, sem ter qualquer vínculo com a marca.

O ganho de importância das corridas, as disputas que deixavam de ser regionais, levaram-no a Cannstadt, sede da Daimler onde, ao engenheiro chefe da marca, listou suas sugestões sobre o que um carro deveria ser. Paul Daimler, filho do fundador, achou os palpites superiores às suas possibilidade e chamou o diretor técnico, o brilhante Wilhelm Maybach -- a Mercedes vai homenageá-lo construindo uma limusine com esta marca. Que ouviu as sugestões e disse-as viáveis.
O cônsul Emil Jellinek passou sugestões à empresa de como deveria ser o automóvel -- e impôs que deveria chamar-se Mercedes, nome de sua filha
Jellinek impôs condições: chamá-lo Mercedes, nome de sua filha; recebê-lo em Nice aos 15 de outubro para uma corrida; ser nomeado revendedor para França, Bélgica, EUA e Austrália. Em compensação pagaria adiantado por 36 unidades.

Naquela época esta encomenda viabilizou a fábrica, cujas finanças estavam tão combalidas quanto a saúde de Gottlieb Daimler.

UM OUTRO NÍVEL

Bem, a encomenda não honrou prazos ou expectativas. Somente aos 17 de fevereiro de 1901 a primeira unidade desceu do trem, mandada de Stuttgart. O público, fosse a meia dúzia de temerários possuidores destas máquinas futurosas, fosse o de aspirantes a chauffeurs, ou a patuléia ignara, acorreu a ver e conferir o que contavam as já existentes colunas especializadas em automóveis, informadas por Emil Jellinek.
O pioneiro modelo em ação: motor de 35 cv a 1.000 rpm, chassi inovador, acelerador no assoalho -- mas com problemas de confiabilidade
Era branco e revolucionário relativamente às carroças da época. O radiador era em forma de colméia -- sistema que serviu de base ao que se utiliza hoje; o motor não produzia os 4, 6, 9 ou 10 cavalos de força como usual na época, mas 35 hp a 1.000 rpm. E era proporcionalmente mais leve pelo uso de novos processos de fundição para o bloco e cabeçote. Apresentava dois comandos e válvulas laterais. O cárter era em alumínio e abrigava a transmissão de quatro marchas. O chassi, novidadoso, em liga de metais e aço, e era prensado.

Com isto o automóvel era mais baixo, mais estável, e foi o primeiro a apresentar um ar de automóvel e não de carruagem sem cavalos. Para completar, o acelerador era no chão, e a alavanca de marchas na coluna da direção, um espanto evolutivo. Era um carro rápido e veloz para a época, bom para corridas e para uso na cidade.

Foi um fracasso. Montado às pressas, inovador, sem testes, teve inúmeros problemas e conseguindo alinhar para a largada, quebrou. O motor derreteu os mancais, a embreagem quebrou, a alavanca de marchas empenou. O carro, talvez por herança de sua condição recém-abandonada, empacou...

A frustração pelo descompasso entre a beleza, a tecnologia e os resultados logo desapareceu. Aos 25 de março o Mercedes na corrida Nice-Salon-Nice, venceu com mais de hora de vantagem sobre o segundo colocado, iniciando um novo caminho, tanto esportivo quanto industrial e comercial.
Os logotipos da Daimler e da Benz foram combinados e evoluíram para a estrela de três pontas, hoje símbolo de status e qualidade nos quatro cantos do mundo
LIÇÃO SECULAR

O nítido evoluir do automóvel provocou encomendas; Jellinek pelo tino comercial e lastro financeiro, sem prejuízo de seus negócios como distribuidor, foi convidado a ser diretor da Daimler, decolando os negócios para a marca e para si pois, salvo engano, criou o franchising, ao credenciar seus sub-concessionários.

Hoje o nome Mercedes é das melhores referências de tecnologia, confiabilidade, resistência, segurança encontráveis num veículo. Mas há um exato século este caminho começava. Não apenas com a nova denominação, mas por estas características ímpares -- um automóvel projetado por um negociante estranho à atividade; um nome feminino como atrativo; o uso das colunas especializadas como vetor de divulgação de uma novidade; das corridas para promover vendas de carros de passeio. a montagem de uma rede de concessionários ligada a um distribuidor principal.

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