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Entrevista

"O problema é que o mergulho está sendo muito demorado"

José Carlos Pinheiro Neto,
vice-presidente da
General Motors do Brasil


Autogiro
– A sua personalidade é conhecida por ser forte. O sr. é um porta-voz da GM e uma espécie de showman do meio automobilístico. O sr. já fez algum curso de teatro ou de expressão verbal?

José Carlos Pinheiro Neto – Na verdade, Luís, não fiz nenhum curso especializado. Sou advogado, e isso certamente facilita. Acho que é inerente ao advogado uma expressão verbal mais facilitada, sempre gostei disso. Tive, desde os meus idos tempos de escola, uma vida com alguma liderança estudantil, desde presidente de grêmio e por aí afora. Então fui, ao longo do tempo, tendo primeiro um ato de coragem, falar em público. Nervosíssimo.

Hoje, pelo contrário, tenho prazer de falar. Aquele momento, para mim, seria bom que fosse prolongado o máximo possível. Contrariamente àqueles que não estão habituados, e você observa, quanto mais cedo saírem, melhor. No meu caso, não. E, finalmente, tanto na GM como nos nossos tempos de Anfavea [Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores], nós passamos a ter oportunidade e necessidade de falar em público com freqüência. Mas gostar do que faz é o segredo da coisa.

AG – A crise do setor está grave como o sr. nunca viu antes ou já houve períodos mais turbulentos?

Pinheiro Neto – Acho que está durando demais essa situação séria, essa situação de crise. O mercado brasileiro se caracteriza pelo ziguezague. Eu digo sempre isso: o importante é você estar no zague na hora em que o mercado está no zague. E estar no zigue na hora em que o mercado está no zigue. Aí não tem problema. O diabo é quando tem um desencontro.

A esse ziguezague nós estamos habituados. A GM está aqui há 80 anos, ou quase 80 anos. Ocorre que agora o mergulho está muito demorado para voltar à tona. É essa a nossa maior preocupação. É difícil precisar se essa é a maior crise, mas eu diria que ela está sendo a mais demorada.

Começou efetivamente em outubro. Foi a primeira noção que nós tivemos de queda do mercado. Finalizamos o ano passado prevendo um mercado de 1,65 milhão de unidades. Em março sofremos o primeiro tropeção, percebemos efetivamente uma queda. E recentemente tivemos de refazer a projeção para 1,4 milhão.

Então estamos falando, como num passe de mágica, em terem evaporado 250 mil unidades previstas para este ano. Estamos imaginando agora um mercado menor que o do ano passado. É uma situação difícil, de crise. Agora, no caso da GM, os nossos 80 anos de Brasil nos dão uma bagagem para não nos assustarmos tanto com isso. Temos como reagir e é o que estamos fazendo: investimentos maciços, uma luta arrojada para ir ao mercado, cinco lançamentos no ano passado mais cinco neste ano. Estamos indo ao encontro do nosso consumidor e o procurando onde estiver.

AG – Quando a Meriva foi lançada eu estava estudando na Europa. E poucas publicações especializadas de lá atribuíam ao Brasil o desenvolvimento e o pioneirismo no lançamento do carro. Existe um preconceito em relação ao que a América Latina faz, ainda?

Pinheiro Neto – Na verdade, não. Aí havia uma situação muito mais de marketing do que qualquer outra coisa. No Brasil nós vamos consumir provavelmente 60 mil ou 70 mil Merivas. Na Europa, 250 mil. Aí você já tem o tamanho da coisa. Homeopaticamente foi sendo informada a participação efetiva do Brasil. Praticamente metade do projeto é brasileiro.

Não nos interessava, naquele momento, caracterizar por uma razão só patriótica o carro como brasileiro. Hoje não há dúvida da participação efetiva. E hoje, mais ou menos, já se confirmou que a Meriva é um resultado da participação de ambas as corporações.

AG – O sr. costuma ler os sites especializados em automóveis?

Pinheiro Neto – Eu leio. E tem acontecido um negócio curioso, Luís. Está sendo crescente a importância dessa área em termos de mídia. Digo sempre isso: eu não dou murro em ponta de faca. Reconheço que é uma realidade. Começou com um furor extraordinário, depois amainou e, agora, acho que está ocupando o espaço que ele está conquistando. Tenho lido, tenho verificado, acompanho sim, me fornecem. Leio muito, primeiro porque eu gosto. E, segundo, porque faz parte do nosso negócio.

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