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Entrevista
"Quando haverá civilização no nosso trânsito?"
Pasquale Cipro Neto,
professor de português
Autogiro – Para o sr., o
carro é só um meio de transporte?
Pasquale Cipro Neto - Basicamente, sim. Afinal, é para isso que são
feitos os automóveis. Mas é claro que é possível ver neles algo que vá
além desse papel básico: beleza, tecnologia, criatividade, etc.
AG - Professor, afinal o certo é bicombustível
ou multicombustível?
Pasquale - Depende. Um carro em que se possa pôr álcool ou gasolina,
por exemplo, é bicombustível. Para que fosse multicombustível, um
automóvel deveria funcionar com qualquer de vários combustíveis.
AG - Por que o sr. gosta tanto de carros de duas
portas?
Pasquale - Bem, primeiro é preciso dizer que essa questão deve ser
vista sempre de modo relativo. A escolha do número de portas deveria
depender do uso. É assim nos mercados formados por consumidores mais
racionais e informados do que os nossos. Por aqui, ainda não nos
libertamos de toscos e burros modismos.
Quando eu era jovem, vivia-se a tosca e burra ditadura das duas
portas. Carros de uso familiar (a perua Opala, por exemplo) tinham
apenas versão de duas portas. Hoje, vive-se a tosca e burra ditadura
das quatro portas. Pessoas que viajam sempre sozinhas ou no máximo com
um passageiro andam a bordo de carros pequenos ou médios com quatro
portas (muitos deles — mais da metade — sem direção hidráulica, bolsas
infláveis ou freios ABS, mas com quatro portas).
Com a diferença de preço (os quatro-portas são sempre mais caros),
seria possível equipar o carro com pelo menos um desses equipamentos.
O resultado dessa aberração é evidente (só não a vê quem não quer):
motoristas de mais de 1,80 metro batem o joelho no painel e torcem a
espinha na hora de entrar no carro (por causa da portinhola da versão
de quatro portas de carrinhos como o Fiesta, o Corsa, o Celta, o
Mille, etc.), dão com o rosto na coluna lateral, mal conseguem ver o
que se passa ao lado, têm dificuldades para manobrar, etc. Uma beleza!
Mesmo em carros médios a porta dianteira não é grande o bastante para
evitar esses dissabores em pessoas de estatura média ou alta.
Devem-se somar a esses incômodos outros fatores: a) o equilíbrio
torcional da carroceria é sempre melhor (o resultado disso é silêncio,
estabilidade, durabilidade etc.; por que será que é muito difícil ver
carros de quatro portas em ralis?); b) em caso de choque lateral, o
carro de duas portas é mais seguro (a barra de proteção das portas é
maior; o restante da lateral da carroceria, por ser menor do que uma
porta de um quatro-portas, é mais rígida); c) em caso de qualquer
choque, passageiros do banco traseiro que estiverem sem cinto (99,9%,
no Brasil) correm o risco de voar para fora do carro, escapando pela
portinhola traseira, que muitas vezes se abre facilmente (foi assim
que morreu Dias Gomes, não?); d) muitos dos carros de quatro portas
(sobretudo os "populares") não têm trava central (um ladrão pode
entrar pelas portas destravadas depois que se deixou alguém e se
esqueceu de retravá-las); e) os carros de duas portas são sempre mais
leves, por isso mais
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econômicos; por fim, devo destacar a questão
estética (que, eu sei, muitos dirão que é subjetiva): os carros de
duas portas são sempre mais limpos do que os de quatro. As versões de
quatro portas de carros como o Mille, o Corsa, o Gol, o Celta, o
Fiesta Street, o Polo hatch, o Astra, entre outros, são o verdadeiro
rascunho do mapa do inferno. A aberração maior fica por conta dos
"esportivos". Esportivo de quatro portas? Então não é esportivo!
AG - Qual foi a maior derrapada no português que
o sr. já ouviu ou leu no trânsito?
Pasquale - É simplesmente ridículo que nossas autoridades de trânsito
não consigam saber, por exemplo, que em casos como "A 500 metros" ou
"A 20 km" não há motivo para o emprego do acento indicador de crase.
Nossas placas, no entanto, insistem em perpetuar essa tolice. Órgãos
públicos simplesmente não têm o direito de cometer esses erros
primários.
AG – A que o sr. daria nota zero no setor
automobilístico?
Pasquale - Gostaria de dar muitas notas zero, mas vou ficar com
quatro delas. Vamos lá:
1) Nota zero para consumidores que ainda compram carros de tecnologia
ultra-superada (não preciso citar o nome desses carros) no lugar de
similares superiores em tecnologia (mas não no preço);
2) Nota zero para o governo (sobretudo para o Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o da Saúde, o da Fazenda e o da
Previdência) por não abaixar (ou eliminar) os impostos sobre as bolsas
infláveis e os freios ABS, que deveriam ser obrigatórios num país que
tem péssimas ruas e estradas e os motoristas mais irresponsáveis e
despreparados do planeta. Os resultados da diminuição (ou eliminação)
desses impostos e da conseqüente obrigatoriedade das bolsas e do ABS
seriam óbvios: queda no número de mortos e feridos no ultra-selvagem e
burro trânsito brasileiro e diminuição dos gastos decorrentes desses
acidentes;
3) Nota zero para os órgãos de regulamentação do trânsito por não
PROIBIREM o maldito engate. O engate concentra o que o pára-choque
distribui (a energia de um choque). O resultado disso é catastrófico:
no caso de O CARRO QUE TEM O ENGATE sofrer uma colisão traseira, quem
está sentado no banco de trás (do carro que tem o engate, é bom
repetir) corre risco muito maior de graves ferimentos. O carro que
bate na traseira de um que tenha engate sofre danos muito maiores do
que sofreria se o maldito "equipamento de proteção" não estivesse ali;
4) Nova nota zero para o pessoal de cima, por não criar legislação que
obrigue os caminhões a trafegar com pára-choque traseiro que impeça o
efeito guilhotina. Que dizer de uma barbaridade dessas? Até quando
pessoas vão morrer porque canalhas trafegam com pára-choques altos
demais (e com excesso de peso, lanternas queimadas, pneus carecas
etc.)? Quando nosso trânsito respirará algum ar de civilização? |