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Entrevista
"Já passamos do tempo
de um carro de R$ 10 mil"
Ricardo
Carvalho,
presidente da Anfavea
Autogiro – O
que é a Anfavea?
Ricardo Carvalho – É a Associação Nacional de Fabricantes de
Veículos Automotores. Contemplamos os fabricantes de automóveis de
passageiros, os comerciais leves, os caminhões, os tratores e máquinas
agrícolas.
Temos cerca de 25 empresas que compõem esse parque no
Brasil e, se somarmos todas as unidades fabris, temos 51 fábricas
instaladas, com capacidade de produção de 3,2 milhões de veículos.
AG – O deputado Inocêncio Oliveira tem um
projeto de lei que, se aprovado, obrigaria as fábricas a manter no mercado um carro
durante dez anos. Qual é a sua opinião sobre ele?
Carvalho – Acredito que esse projeto talvez careça de uma
revisão sob o ponto de vista técnico. A manutenção de modelos está
ditada pelo mercado. Você pura e simplesmente não pode pretender
controlá-lo por via de legislação. Toda tentativa nessa linha foi
sempre muito fraudada. Talvez você tenha lançamentos com durabilidade
fantástica, que supere esse período, mas tem também alguns que andam
só por um curto período.
AG – Por que é tão complicado, para a
Anfavea, às vezes tomar um partido em relação a questões até muito
básicas, entrando no mérito de um produto, se pronunciar sobre preço,
lançamento?
Carvalho – Temos um impedimento legal de tratar de
preço, de produto, sob pena de sermos tachados de um cartel. Tratamos
de interesses da indústria como um todo, mas dos temas que ela pode
tratar como associação. Preço é um assunto que pertence à intimidade
das marcas.
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AG – E a proposta de
um carro popular de fato, um carro de R$ 10 mil?
Carvalho – Acho que já passamos desse tempo. Primeiro porque é
praticamente impossível chegar, com os custos de matéria-prima, a
valores como esse. Outra: se você quiser condenar o brasileiro a um
carro sem absolutamente nada, estaríamos voltando a uns dez anos atrás
ou criando uma concentração enorme, de 70% ou 80% de produção de
veículos dessa ordem.
AG – O sr. falou que a queda nas vendas
está ligada ao fato de as pessoas procurarem bens mais necessários.
Carro não é um bem necessário?
Carvalho – É, mas acho que se alimentar vem bem antes.
AG – As vendas dos carros de 1,0 litro
caíram, e as dos modelos com motores maiores aumentaram. É verdade a
frase: "Quem gosta de motorzinho é dentista"?
Carvalho – Não, eu não diria que o carro 1.0 esteja desprezado.
Mas o acesso ao carro médio ficou mais facilitado. O que acontecia no
passado era o seguinte: você comprava um "popular" por causa de um
imposto mais reduzido. Aí olhava no seu bolso e via o quanto podia
incrementar no carro. E ia pondo equipamentos. Hoje é possível ter
acesso não só a um carro melhor, mas a uma motorização mais adequada. |