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Entrevista
"A alíquota de 35% inviabiliza o negócio de importados"
José Luiz
Gandini
Presidente da Kia Motors
do Brasil e vice-presidente da Abeiva, Associação Brasileira das
Empresas Importadoras de Veículos Automotores
Autogiro –
Gandini, tudo bem?
José Luiz Gandini – Tudo ótimo.
AG – Ótimo não, né?
Gandini – [risos] Você não falou que a entrevista tinha
de ser descontraída?
AG – A gente está vivendo um momento meio
crucial para as importações. Você diria que toda a competitividade que
a indústria nacional atingiu, em parte graças às importações, pode ser
algo, no mau sentido, reversível?
Gandini – Pode. Quando você pára de ter um balizador que mostra
nova tecnologia, as atuais podem ser mantidas e sem investimento para
trazer novas. Acaba voltando para trás. Por isso é importante o
importado estar aí, mostrando o que está existindo de novidade lá
fora.
AG – Até que ponto a Abeiva é
representativa, ou seja, como ficam as grandes fabricantes que
importam carros, mas não estão na Abeiva?
Gandini – A maioria está filiada. Hoje temos fora da Abeiva sem
fábrica no Brasil algumas marcas que estão ligadas a alguma montadora,
como a Audi [que pertence à Volkswagen], a Volvo [à Ford], a Alfa
Romeo [à Fiat]. Estão de alguma forma ligadas à Anfavea [Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores], porque o fabricante
local é que está trazendo essa marca. Fora disso acho que só temos a
Hyundai fora.
AG – E temos as fábricas, que também
importam um grande volume...
Gandini – Sim, mas são filiadas à Anfavea, e o negócio
principal delas é a fabricação de veículos.
AG – Pelos números da Anfavea, houve uma
queda brutal nos importados, da ordem de 37% no primeiro semestre, em
relação ao mesmo período do ano passado. Isso se reflete na Abeiva?
Gandini – A nossa foi maior [58,98%], porque, de alguma
maneira, eles têm a manutenção dos custos fixos pelos produtos
produzidos no Brasil, enquanto os nossos são só importados. E eles têm
incentivo fiscal, qualquer que seja.
Ou de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] ou uma
alíquota reduzida para trazer produtos por vias de acordos fechados ou
do Mercosul ou do México. E agora está nascendo com a União Européia.
De alguma maneira, eles têm mais benefícios do que nós, que não temos
nada. Nós pagamos a alíquota inteira, o ICMS, o IPI. Então fica mais
difícil competir com eles.
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AG – Você falava da
perda da capacidade de compra dos brasileiros em razão de as empresas
estarem contratando profissionais para ganhar menos do que aqueles que
foram demitidos. Isso acontece em todos os setores?
Gandini – Eu acredito que sim. O que a gente vê no mercado é
isso. Pode haver alguma exceção, de alguma pessoa mais qualificada,
que ainda haja falta no mercado. Mas, pelo que a gente está sentindo,
na grande maioria das profissões, se ele perder o emprego que tem
hoje, ele vai ser empregado novamente com um salário menor em 99% dos
casos.
AG – E por que o momento é crucial? Há
alguma luz de mudança de alíquota dos 35% para alguma contrapartida?
Gandini – O que esperamos é que o governo seja justo e nos faça
uma concessão na alíquota. Eu digo justo porque estão trazendo produto
do Mercosul sem alíquota e do México pagando 1,1%. Está se criando um
novo acordo com a União Européia com alíquota reduzida que eu não sei
qual é. E, quando o governo lançou o regime automotivo, em 1996, que
deu alíquota reduzida de 50% para quem se instalasse no Brasil, ele
deu uma cota para os filiados à Abeiva de 50 mil produtos por ano.
Nada mais justo do que agora fazer uma alíquota reduzida para os
associados.
AG – E qual seria o ideal?
Gandini – O que as montadoras têm hoje. México, 1,1%, e
Mercosul, zero. Mas isso é muito difícil. Nosso pleito é de que pelo
menos nos dêem 20%, que foi o que o governo acordou na OMC
[Organização Mundial do Comércio], que era para vigorar desde 1º. de
janeiro de 2000.
AG – Este segundo semestre vai ser
melhor, na sua opinião?
Gandini – Eu acho que vai. Não muita coisa, mas pelo menos
daqui para a frente nós começamos a receber os produtos com a taxa do
dólar já reduzida. Os nossos estoques foram nacionalizados e pagos com
dólar maior. Daqui para a frente, vou ter um custo menor e vou
conseguir um custo mais competitivo.
AG – Como resolver a equação do dólar se,
quando ele cai demais, quem exporta é que chia?
Gandini – O dólar precisa ter um patamar que seja bom para todo
mundo. O Brasil precisa exportar, nós somos conscientes disso. Mas
colocar uma alíquota de importação que inviabilize o setor com medo de
aumentar muito a importação, porque o dólar estava R$ 0,85 e hoje está
R$ 3, é querer acabar com as marcas importadas no Brasil. |