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Entrevista

"A frota de veículos piratas no Brasil chega a 30% em alguns Estados"

Roberto Scaringella, da Scaringella Trânsito, especialista em segurança de tráfego


Autogiro
– Eu gostaria de saber por que o sr. virou uma espécie de referência em segurança no trânsito.

Roberto Scaringella – É que eu me dediquei profissionalmente a esse campo. Eu me interessei, me esforcei, estudei, trabalhei...

AG – Como alguém se forma nesse tipo de área? Porque é algo complicado, incipiente...

Scaringella – É complicado porque não tem um curso de graduação. Eu estudei na França, trabalhei e comecei desde a companhia do Metrô de São Paulo, quando a gente precisava propor para as autoridades esquemas alternativos de trânsito por causa das instalações das obras do metrô.

AG – Isso em meados dos anos 70?

Scaringella – Isso no final dos anos 60.

AG – Mas o metrô foi implantado por volta de 74, 75...

Scaringella – Isso, isso. Mas precisou ser planejado, estruturado, construído no final dos anos 60.

AG – O sr. ocupou cargos importantes em CET [Companhia de Engenharia de Tráfego], DSV [Departamento de Operações do Sistema Viário]...

Scaringella – Fui o fundador da CET, fui secretário dos Transportes, fui diretor do Metrô, fui diretor do campus da USP [Universidade de São Paulo], fui assessor do ministro dos Transportes, fui presidente do Contran...

AG – Agora, olhando isso tudo de longe, as coisas melhoraram ou pioraram?

Scaringella – Acho que depende do que você chama de "as coisas"...

AG – A civilidade no trânsito.

Scaringella – Eu acho que ainda é um desafio muito grande. E a maior dificuldade é fazer com que esse problema seja importante principalmente para o poder público e para as pessoas em geral, que não dão valor à questão do trânsito.

O poder público não dá orçamento, não dá tecnologia, não dá recursos humanos. E o cidadão acha que o trânsito é uma coisa banal. É um desafio que requer comportamento, tecnologia. Teoricamente, as pessoas acham o trânsito uma coisa importante. Mas concretamente, praticamente, não.

AG – É aquele raciocínio meio individualista de que determinadas coisas nunca vão acontecer com elas? De que algumas atitudes, como uma conversão proibida ou não usar cinto no banco de trás, são aceitáveis? É isso?

Scaringella – Também. Tem um pouco disso. Mas, no trânsito, as pessoas não se sentem co-responsáveis.

AG – Na coluna anterior, a gente falava um pouco do trânsito em Paris, que é caótico. O que muda em relação ao brasileiro no comportamento de trânsito? Afinal, quem vai para a França não pode deixar de achar o motorista um pouco barbeiro...

Scaringella – É um trânsito que mata menos. Isso já é um indicador de que eles dão uma importância maior

ao fato de respeitar a lei. Há 30 anos eles criaram um grupo interministerial em que o coordenador tinha status de ministro e eles reformularam a legislação. Você teve uma lei dura, uma Justiça rápida.

O problema do trânsito não é ligado, como o brasileiro acha, ao de congestionamento. O congestionamento tem a ver com o nível econômico, com a taxa de motorização, com o desenvolvimento ou não do transporte coletivo, com as leis de ocupação do solo... O que caracteriza o problema sério de trânsito é que o número de vítimas é muito grande.

AG – Esse número está em quanto?

Scaringella – No Brasil está em um pouco mais de dez mortos por ano a cada grupo de 10 mil veículos. Isso na França deve ser entre dois e três.

AG – Ou seja, morre-se até cinco vezes mais.

Scaringella – É.

AG – Isso tem a ver com a falta de educação, como parar em cima da faixa de pedestres?

Scaringella – Tem a ver com vários problemas. Primeiro: a má formação do condutor. A auto-escola não forma. Ele é habilitado também de maneira precária. Vive também uma sensação de impunidade, que gera o desrespeito à lei, que gera uma atitude de risco, que gera o acidente.

AG – A sensação de impunidade é confirmada inclusive pelo fato de os Detrans [departamentos estaduais de trânsito] não estarem integrados e, com isso, as multas não chegarem quando se usa placa de outro Estado...

Scaringella – Também. Na lei de trânsito, que infelizmente não saiu do papel ainda, se diz que, caso o indivíduo seja pego fazendo racha, mesmo sem cometer acidente, pode ser processado criminalmente e detido por até 24 meses. Isso nunca aconteceu no Brasil.

AG – Na última semana, saiu uma lista de milhares de pessoas que perderam a carteira de habilitação...

Scaringella – Isso também não é uma verdade para o território nacional inteiro. Mas já é alguma coisa. Acho que a lei tem de ser cumprida. Mas eles estão perdendo por um tempo finito, não definitivamente.

AG – Mas, se não há fiscalização, o que impede esses motoristas, que em geral atingiram 20 pontos no prontuário por cometer uma série de infrações, de passar a simplesmente andar sem carteira?

Scaringella – Tem isso também. Um problema sério que acontece no nosso trânsito é que, dependendo da cidade e do Estado, entre 20% e 30% dos carros não são licenciados, não pagam multa, não pagam IPVA [Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores]...

AG – É uma terra sem lei...

Scaringella – A frota pirata que circula por aí é enorme. Quase um terço do total. Aqui em São Paulo já foi maior, mas ultrapassa 20%. Aqui e em Brasília também. Isso em geral. É que tem gente com mais multa do que vale o carro. Então ele corre o risco.
Para regularizar essas pessoas, vai precisar ter o controle da frota. Um item pelo qual a gente está torcendo muito para que seja cumprido pelo governo é a inspeção veicular anual obrigatória. Outra é fazer uma ampla fiscalização por meio da identificação eletrônica do veículo. Isso um dia vai acontecer.

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