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Entrevista "Com o arrocho do 'Lulinha Paz e Amor', só penso em como vou pagar a conta de gasolina do mês" José Arthur Giannotti Filósofo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), questionado sobre se pretende trocar de carro
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Então estou dizendo que o carro é um mediador
social entre várias dimensões, não é uma só. AG – E isso é mundial ou só vale para o brasileiro? Giannotti – É mundial. E, além do mais, o carro, apesar de destruir as cidades tal como elas haviam sido pensadas antigamente, isso porque ninguém mais consegue andar, serve para dar emprego a motoristas, operários e jornalistas... AG – E a metalúrgicos. Giannotti (risos) – Principalmente. Mas a jornalistas também. AG – Escrevi em uma coluna anterior que os franceses, quando batem o carro, continuam andando com o carro batido. No Brasil, a primeira coisa é parar para consertar. A impressão na Europa é de desprendimento... Giannotti – Ah, minha flor, não tem nada disso. Simplesmente ninguém anda na França sem um carro altamente segurado. Toda vez que bate, você toma nota sobre as condições em que bateu, depois põe no correio, e são as companhias de seguro que vão brigar. Não tem nada a ver com desprendimento. AG – Há uma teoria de que o carro mudou nosso sistema psicomotor. O ser humano teria desaprendido a andar, esquecido a vizinhança e se acostumado a percorrer apenas grandes distâncias, com as cidades pensadas em torno de grandes avenidas... Giannotti – Ah, mas não foi só o carro. Todo o mundo tecnológico em que estamos vivendo desaprende. Você imaginava que iria entrevistar alguém pelo telefone ou que poderia falar através do computador? Então. AG – O sr. acha que o carro está intimamente ligado à indústria bélica? Giannotti – Nem tanto. Não se esqueça que a gente namora dentro do carro, a gente sai para paquerar. Ele tem outras funções eróticas, não é um monstro belicista. AG – O sr. sonha em trocar de carro? Giannotti – Meu caro, com o arrocho que o "Lulinha Paz e Amor" está fazendo na economia nacional, eu só penso em sobreviver e, em particular, como é que vou pagar a conta de gasolina do mês. Então desculpe, não penso em mais nada... AG – Está todo mundo com a corda no pescoço... Giannotti – E só no pescoço? AG – Nas pernas... Giannotti (risos) – Sobe mais! |