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Entrevista

"Com o arrocho do 'Lulinha Paz e Amor', só penso em como vou pagar a conta de gasolina do mês"

José Arthur Giannotti

Filósofo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), questionado sobre se pretende trocar de carro


Autogiro – O sr. já escreveu para a seção de cartas de um grande jornal reclamando de problemas com um modelo da Citroën, um Xsara. O sr. continua com o mesmo carro?

José Arthur Giannotti – Sim. Ele não deu nenhuma dor de cabeça, mas também não tive nenhum dinheiro mais para comprar qualquer outro carro.

AG – O sr. está acompanhando de perto a crise na indústria automobilística, com as fábricas ameaçando demitir, os consumidores sem comprar, os feirões, essas coisas?

Giannotti – Não só a crise da indústria automobilística, mas a enorme crise pela qual o país está passando.

AG – O sr. acha que a indústria automobilística é um espelho da indústria como um todo?

Giannotti – É uma parte.

AG – Representa 10% do PIB [produto interno bruto, o conjunto das riquezas produzidas no país] industrial...

Giannotti – Não é mau.

AG – O sr. acha que o carro cumpre uma função social e carrega com ele uma série de símbolos que vão além da tarefa da locomoção?

Giannotti – Calma, moço. Cumprir função ele cumpre. Se estou no Morumbi e quero visitar meus amigos em Higienópolis, ele cumpre um papel. Que ele representa papel simbólico, eu também sei. Outro dia eu vi... Tem gente que entra no carro como se estivesse trepando. Tem gente que, quando bate o carro, parece que perdeu a masculinidade.

AG – O sr. disse que entra no carro como se estivesse...?

Giannotti – Trepando.

AG – Uma analogia bem sexual...

Giannotti – Uma analogia ultra-sexual. E tem gente que, quando bate o carro, parece que perdeu a virgindade.

Então estou dizendo que o carro é um mediador social entre várias dimensões, não é uma só.

AG
– E isso é mundial ou só vale para o brasileiro?

Giannotti – É mundial. E, além do mais, o carro, apesar de destruir as cidades tal como elas haviam sido pensadas antigamente, isso porque ninguém mais consegue andar, serve para dar emprego a motoristas, operários e jornalistas...

AG – E a metalúrgicos.

Giannotti (risos) – Principalmente. Mas a jornalistas também.

AG – Escrevi em uma coluna anterior que os franceses, quando batem o carro, continuam andando com o carro batido. No Brasil, a primeira coisa é parar para consertar. A impressão na Europa é de desprendimento...

Giannotti – Ah, minha flor, não tem nada disso. Simplesmente ninguém anda na França sem um carro altamente segurado. Toda vez que bate, você toma nota sobre as condições em que bateu, depois põe no correio, e são as companhias de seguro que vão brigar. Não tem nada a ver com desprendimento.

AG – Há uma teoria de que o carro mudou nosso sistema psicomotor. O ser humano teria desaprendido a andar, esquecido a vizinhança e se acostumado a percorrer apenas grandes distâncias, com as cidades pensadas em torno de grandes avenidas...

Giannotti – Ah, mas não foi só o carro. Todo o mundo tecnológico em que estamos vivendo desaprende. Você imaginava que iria entrevistar alguém pelo telefone ou que poderia falar através do computador? Então.

AG – O sr. acha que o carro está intimamente ligado à indústria bélica?

Giannotti – Nem tanto. Não se esqueça que a gente namora dentro do carro, a gente sai para paquerar. Ele tem outras funções eróticas, não é um monstro belicista.

AG – O sr. sonha em trocar de carro?

Giannotti – Meu caro, com o arrocho que o "Lulinha Paz e Amor" está fazendo na economia nacional, eu só penso em sobreviver e, em particular, como é que vou pagar a conta de gasolina do mês. Então desculpe, não penso em mais nada...

AG – Está todo mundo com a corda no pescoço...

Giannotti – E só no pescoço?

AG – Nas pernas...

Giannotti (risos) – Sobe mais!

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