|
'Passat? Ah, você fala dos Brazíli!'
Brazíli? Ele explica: quando esses carros inundaram o país na virada
da década passada, vinham com um adesivo pregado no vidro traseiro:
Made in Brazil. Os iraquianos acharam mais fácil chamá-los de
'brasileiros', em árabe, do que pelo nome original. Vieram 170 mil
automóveis; estima-se que 35 mil viraram sucata, outros 25 mil
deixaram o Iraque para os países vizinhos e 110 mil circulam ainda,
sem problemas.
E como circulam. Num país em que a gasolina é tão barata que o
combustível é usado para lavar calçadas e tirar mancha de roupas — 100
litros da especial saíam por US$ 3 antes da guerra, numa economia em
que o salário mínimo era dez vezes este valor —, o aspecto mais
valorizado de um carro é a robustez, e isso o brasileiro mostrou ter
de sobra.
Foi a robustez que fez com que, com o passar dos anos, os Brazíli
virassem carro do povo, de pessoas com menos recursos. 'A classe média
prefere os americanos', diz Ali, proferindo sem querer uma verdade
universal, que pode ser aplicada à classe média de qualquer país em
relação a qualquer produto norte-americano.
Tudo começou em 1983, quando o teuto-brasileiro Wolfgang Sauer, então
presidente da Volkswagen do Brasil, teve a idéia de exportar carros para um país em guerra e aceitar como
pagamento não dinheiro, mas petróleo, que seria depois comprado pela
Petrobras. Um ano depois, os veículos começaram a desembarcar no porto
de Ácaba, na vizinha Jordânia, com três opções de cores e duas de
interior.
(...)
Nas quatro travessias [da Expressway 1, estrada que liga |
Bagdá à fronteira da Jordânia] uma
constante: Passats indo e vindo, ora
fugindo da guerra, ora retornando para o centro da crise, sempre
lotados de iraquianos e suas famílias, muitas vezes com todos os bens
amarrados numa corda no teto. Pode parecer piegas, mas é reconfortante
perceber nas ruas que não somos mais os únicos brasileiros, que outros
'brazíli' nos acompanham".
 Quem ficou com água na boca pelo livro (por mim recomendadíssimo,
inclusive pelas 120 belas fotos de Juca Varella), basta procurá-lo a
partir desta quinta-feira nas livrarias. Com prefácio do jornalista
José Hamilton Ribeiro e direção de arte de Rubens Amatto, traz 144
páginas no formato 23,5 cm x 25 cm, capa dura (editora DBA). Custa R$
59.
Já para quem ficou com água na boca por conhecer melhor a história do
Passat, o BCWS já dispõe de um ótimo material a respeito. É só
clicar aqui.
A entrevista desta semana é com Ricardo Bock,
professor de mecânica automobilística da FEI (Faculdade de Engenharia
Industrial) de São Bernardo do Campo, SP. Ele tem opiniões no mínimo
inusitadas sobre o futuro da indústria mundial e o fim das marcas e
tradições tais quais as conhecemos hoje.
Continua
|