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Quem é viciado em informação de boa
qualidade sabe a diferença entre as notícias requentadas (por mim
devidamente chamadas de "da recortagem local"), as fornecidas por
agências internacionais e as apuradas in loco, onde os fatos
acontecem, com todas as contas (geralmente em dólar) e riscos (na
maioria das vezes, de morte) que tudo isso envolve.
O repórter Sérgio Dávila e o fotógrafo Juca Varella, da Folha de
S.Paulo, foram os dois únicos jornalistas brasileiros na guerra do
Iraque — chegaram à capital daquele país, Bagdá, na noite de 19 de
março, horas antes de terminar o ultimato dado por George W. Bush,
presidente dos EUA, ao governo de Saddam Hussein. Lá permaneceram até
a queda do regime, no dia 9 de abril. Desembarcaram no aeroporto de
Cumbica em 20 de abril, Domingo de Páscoa.
Por ter cumprido uma das principais missões de um correspondente de
guerra — voltar dela vivo —, lançam nesta quinta-feira, dia 7,
Diário de Bagdá - A Guerra Segundo os Bombardeados. Será às 19h,
no Instituto Tomie Ohtake (avenida Brigadeiro Faria Lima 201, entrada
pela Rua Coropés, Pinheiros, zona oeste de São Paulo).
Autogiro teve acesso ao livro e, por sugestão do autor (que já
deu mostras anteriores de coragem ao chefiar este colunista, no
caderno Ilustrada, há seis anos, e de habilidade ao volante ao
ter conseguido a proeza de atolar, em Alphaville, um Humvee igual ao
usado pelo Exército americano no Iraque;
saiba mais), revela em primeira mão o capítulo que trata do
Passat, carinhosamente apelidado de "Brasíli". Não fosse a presença
dos brasileiros no conflito, o Passat seria registrado só como mais um
veículo, feioso para alguns, nessa guerra, que, por sinal, ainda não
terminou. Leia a seguir trechos do 12º. dia do diário.
 "Os iraquianos tratam os seus carros como fazem os brasileiros.
Lavam-no e o enceram todos os finais de semana, procuram o melhor
lugar para estacionar (e nem sempre é fácil achar sombra numa cidade
que é de fato um oásis entre dois desertos) e chegam a instalar
alarmes, apesar do baixo índice de furtos em cidades como Bagdá.
(O exagero dos alarmes é denunciado quando se observa outra prática
comum aos iraquianos: deixar dinheiro no console dos carros, à vista
de todos. É claro que o dinheiro em questão é o dinar iraquiano, na
maior parte das vezes maços com as notas de menor valor, 250 — cada
uma valia durante a guerra sete centavos de dólar e não comprava nada
sozinha. Mesmo assim, a prática espanta olhares de brasileiros
desconfiados.)
Nosso primeiro motorista, Alaá Sadoon Jarboo, o Ali, não foge à regra.
O pequeno e elétrico bagdali de 34 anos lembra muito o Chili Willy,
genial pingüim criado pelo animador Walter Lantz a cujo desenho ele,
Ali, nunca assistiu. Quando fechamos nosso contrato de boca, nos diz,
elétrico: 'Vocês não vão se arrepender, meu carro é full service,
com ar-condicionado, vidro elétrico, interior de veludo e rádio e
toca-fitas'.
Realmente, estava inteiro o seu [Chevrolet] Caprice 1990, preto com
interior de veludo vinho, importado dos EUA antes do embargo econômico
imposto pela ONU a partir da Guerra do Golfo, assim como ocorre com a
maioria dos carros da cidade, nunca mais novos do que o de Ali. E é
ele quem primeiro mata nossa curiosidade em relação aos Passat que
circulavam por todos os lugares por onde passamos.
Continua |

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