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Entrevista

“A tática da gangue da batida foi descoberta por acaso”

Manoel Camassa

Delegado titular da delegacia de furtos e roubos de veículos do DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado)


Autogiro – É verdade que hoje em dia é mais comum que os carros sejam roubados [com violência] do que furtados [levados sem violência] em razão da sofisticação dos equipamentos antifurto?

Manoel Camassa – Os carros hoje em dia podem ser furtados também. O que existem são veículos que saem de fábrica com segurança mais sofisticada. Por isso que, segundo as próprias estatísticas, os “populares” são mais visados. Não costumam ter dispositivos que impeçam o ladrão de levá-lo.

Os modelos que lideram as estatísticas de furto e roubo, em números absolutos, são Gol e Mille. Em terceiro e quarto lugares estão o Corsa e o Palio. E, por incrível que pareça, em quinto lugar aparece o velho Fusca, historicamente um dos mais subtraídos.

Hoje você tem vários dispositivos, como chave codificada. Quase não existe mais aquele pino que o ladrão “pescava” com arame. O aprimoramento criou diversos empecilhos para o furto. Dificilmente um Vectra é furtado hoje em dia.

AG – Em quanto tempo o ladrão leva um veículo sem dispositivo antifurto?

Camassa – Entre abrir e sair com o carro, menos de um minuto. O Fiat Mille, então, é covardia. Há investigadores meus que fazem a operação nesse carro em 30 segundos.

AG – Mas o que é maior, furto ou roubo?

Camassa – Pelas estatísticas, dá meio a meio para cada um. Antigamente, furto era disparado na frente.

AG – E há os locais em que o furto ocorre mais?

Camassa – Sim. Claro que esses locais são onde os carros são mantidos mais tempo, como proximidades de teatros, faculdades, hospitais e estações de metrô.

AG – E há algum novo golpe na praça?

Camassa – De roubo há uma série deles. O crime, como qualquer ciência, está sempre em progressão. O ladrão é muito criativo. Houve outro dia o caso do ladrão que entrou no prédio para roubar fazendo uso de o carro de um morador clonado.

A própria gangue da batida descobriu a tática por acaso. Estavam perambulando pela noite e bateram no carro de uma mulher. Viram que era tudo muito fácil, que havia essa cultura do brasileiro de parar para ver o que aconteceu. Daí criaram essa modalidade e passaram a usá-la como tática. Hoje fazem uso de tudo, objetos que obstruam o caminho, furem o pneu...

AG – Namorar no carro nem pensar, né?

Camassa – Nem pensar! E digo mais: tem muita mulher que vai buscar o marido no trabalho e fica esperando dentro do carro. O melhor é dar algumas voltas. E o amigo que leva a amiga para casa? Parece que o melhor da conversa fica sempre para o último momento. Isso tudo é oportunidade para o ladrão...

AG – Se bem que há pessoas que largam o carro na rua para ser roubado e receber o dinheiro do seguro. E ninguém leva...

Camassa – Ah, isso acontece muito. Outro dia, um programa de TV queria filmar um furto. Arrumaram um carro, demos as dicas de um ponto crítico, passaram o dia lá, mas não aconteceu nada. Temos uma frota de 7 milhões de carros. Se você for examinar a quantidade de roubos e furtos, pode chegar à conclusão de que o número não é tão grande assim.

AG – É verdade que o Golf é um modelo muito visado?

Camassa – Em números relativos, ou seja, se levada em conta a quantidade desse carro circulando, ele deve liderar em termos de furto e roubo, crimes violentos. Outro dia recuperamos três Golfs em um mesmo estacionamento.

AG – E a indústria da fraude contra seguradoras?

Camassa – É imensa. Tem gente especializada em picar o carro. Uma coisa é certa: seguradora nunca tem prejuízo. Se os custos aumentam, ela aumenta o preço do seguro. Se começar a dar prejuízo, alguém vai pagar a conta.

Quando um carro é roubado, geralmente tem três destinações. A primeira é retornar às ruas como dublê, com documento falso. A segunda é alimentar os desmanches, como comércio clandestino. E a terceira é a fraude contra seguros. Cerca de 20% do universo dos furtados e roubados é fraude. E a seguradora faz investigação paralela.

AG – E quando descobrem a fraude do segurado?

Camassa – Quando isso acontece, chamam o cliente e falam que a casa caiu [que ele foi descoberto tramando a fraude]. Mas dizem que, se a pessoa deixar por isso mesmo, eles também deixam. E esse criminoso tem características interessantes. Muitas vezes é o único crime de sua vida, cometido em situação específica de sérias dificuldades financeiras. Essa investigação da seguradora é uma praxe que até incomoda o cliente correto e honesto. As companhias têm um controle imenso sobre o perfil do cliente, se o carro foi subtraído no primeiro mês da apólice ou não, entre outros dados...

AG – O perigo maior está no centro ou na periferia?

Camassa – Ladrão à mão armada prefere os locais mais nobres. Ele não vai abordar Chevette ou Brasília em São Mateus. E você, enquanto motorista, precisa ter uma postura defensiva. Dificilmente eles abordam quem está no fim da fila à direita no semáforo. Eles preferem os carros junto à calçada, logo no início. É uma situação mais confortável.

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