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Entrevista
"Evitar que a
Volkswagen volte à liderança vai ser um desafio"
Lélio Ramos
Diretor comercial da Fiat
Autogiro - A Volkswagen lança no
próximo mês o Fox, e o presidente da
empresa, Paul Fleming, disse que será a retomada da liderança do
mercado depois de dois anos de hegemonia da Fiat. Vocês estão mesmo
ameaçados, na sua opinião?
Lélio Ramos - Olha, é sempre mais difícil ser líder do que
conquistar a liderança. A Fiat já está como líder do mercado
brasileiro há três anos. Este é o terceiro ano consecutivo. O mercado
disse, quando a Fiat foi líder pela primeira vez, que era um acidente,
mas a Fiat consolidou a sua liderança.
É um mercado muito disputado. As três marcas que têm a maior
participação são a Volkswagen, a Fiat e a GM, disputando cabeça a
cabeça, com a VW muito atrás, em torno de 20 mil carros atrás da Fiat,
mas é uma empresa que a gente respeita muito, é competitiva. Vai ser
um desafio evitar que a VW volte à liderança. Mas a gente confia nos
produtos da Fiat. Nos atuais e naqueles que a gente vai lançar e
também no trabalho da rede. Vai ser uma disputa muito difícil, como
tem sido nos últimos anos, mas a gente confia que a Fiat possa manter
a liderança.
AG - Você arriscaria um palpite sobre
quanto tempo ainda dura o Mille?
Ramos - Acho que o Mille é um carro em que investimos bastante
nos últimos anos para que ele fosse atualizado em termos de segurança,
desempenho e acabamento. É um carro muito robusto, durável, com custo
de manutenção baixíssimo, muito espaçoso internamente. As pessoas
adoram o carro, vendemos quase 10 mil por mês e vamos mantê-lo sempre,
atualizando por quantos anos os clientes quiserem.
AG - Já ouvi duas teorias. Uma, de que o
mercado é soberano e que, deixando de comprar, tira um carro de linha.
E a outra de que, aos poucos, a fábrica vai deixando de fazer
propaganda, de investir em um carro e, assim o vai matando aos poucos.
Quem acaba com o carro? A fábrica ou o mercado?
Ramos - Eu acho que o cliente sempre acaba com o carro.
Qualquer companhia que acha que sabe mais do que o cliente é uma
companhia que tende a acabar. Isso não é conversa de vendedor, mas o
fato é que o cliente sabe o que quer. Sempre que o cliente acha que o
carro deve permanecer, a gente deve respeitá-lo. Óbvio que o mercado
mundial evolui em termos de tecnologia e temos que fazer com que o
Mille evolua e seja um carro atualizado.
AG - Já se pode dizer algo sobre um novo
Palio? A gente ouve boatos de que ele vai ficar mais parecido com o
Punto...
Ramos - Acho que não tem nenhum carro que fique muito tempo
igual.
O mercado exige que você esteja sempre
trabalhando, mexendo e evoluindo. O Palio atual foi lançado três anos
atrás e ainda hoje é o segundo carro mais vendido do país. Nós
trabalhamos no Palio, mas não temos nada a curto prazo em termos de
lançamento.
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AG - Neste ano não?
Ramos - Não.
AG - Você trabalhou na Ford, não?
Ramos - Sim, 22 anos, de 1968 a 1990.
AG - Então sua saída foi um pouco antes
de ser dissolvida a Autolatina... O que foi possível trazer em termos
de aprendizado?
Ramos - Na verdade, saí da Ford para ser presidente da Maxion,
onde fiquei quatro anos. Saí para ser diretor da GM, onde fiquei
quatro anos. E depois saí para ser diretor comercial da Fiat. Em 22
anos de Ford, conheci também a Volkswagen, porque fiquei seis ou sete
anos na Autolatina. Fui uma das únicas pessoas dessa área que conhece
as quatro companhias do Brasil pessoalmente.
AG - Esses feirões para vender mais
carros lhe agradam?
Ramos - Acho que feirão tem de ser feito esporadicamente. Não
fazemos todo mês, como outras companhias. O cliente tem de achar que o
feirão é uma coisa especial. É o local onde ele vai comprar o carro
por uma boa oferta.
Nós fizemos um em São Paulo no último fim de semana e vendemos 600
carros. Mas o último havia sido seis meses antes. Fazemos de modo que
o cliente dê valor. Promover feirão todo mês é muito prejudicial à
marca, porque, no fim, o cliente acaba sempre esperando para comprar o
carro em um feirão.
AG - Com o Cruzeiro na liderança do
Campeonato Brasileiro, a gente vê a Fiat aparecendo, pois ela investe
nos times de futebol de Minas Gerais. É uma filosofia da empresa?
Ramos - Na verdade, já investimos em sete times do futebol
brasileiro. Hoje investimos em cinco. São três times de Minas, o
Atlético, o Cruzeiro e o América, mas também investimos no Caxias e no
Goiás. Durante alguns anos, também no Bahia e no Vitória. Investimos
no futebol, traz um ótimo retorno, estamos felizes com o Cruzeiro
aparecendo, muito embora eu seja são-paulino.
AG - É até temerário perguntar isso,
ainda mais para a Fiat, que é dona da Ferrari, tem o sangue quente
italiano... Mas tenho colocado essa questão a todos os executivos de
fabricantes que entrevisto: carro é mais do que um meio de transporte?
Ramos - Ah, é uma paixão. "Movidos pela paixão" é o slogan
da Fiat. As pessoas se apaixonam pelo estilo do carro, pelo seu
interior, pelo modo de guiar, querem parecer com o carro, curti-lo. E
ele se transforma em um membro da família, na sua namorada, no seu
namorado, se for uma mulher... Carro é muito mais do que um meio de
transporte. |