|
Entrevista
"Para o comprador do Gol o design
é importante, mas não determinante"
Paulo Sergio Kakinoff
Diretor de vendas e
marketing da Volkswagen
Autogiro – Outro dia
li nos jornais que você tinha 28 anos. Achei muito jovem. Estava
certo?
Paulo Sergio Kakinoff – Está errado porque eu fiz 29 no dia 6
de setembro.
AG – Ah, bom. Então a coisa muda de
figura.
Kakinoff (gargalhada) – É...
AG – E você é diretor...
Kakinoff – Diretor de vendas e marketing. Eu era só
diretor de marketing.
AG – Como é que você chegou a esse cargo
assim tão jovem? Porque a imagem que a gente tem é de um quarentão...
Kakinoff – A média nessa indústria é um pouco mais alta. Eu
trabalho na Volkswagen há nove anos. Entrei como trainee da
rede de concessionários. Foi aqui meu primeiro emprego. De lá para cá,
foram dez anos de transformação completa da Volkswagen. No sentido
figurado, entrei no barco no início de uma viagem de um porto para o
outro.
Nesse período todo de transformação, a Volkswagen foi praticamente
toda redesenhada em seus processos, sua linha de produtos, de modelos.
De forma que, quem acompanhou esse período de dez anos é quase um
veterano, porque tudo o que existe hoje, em termos de valores e
posicionamento da marca, foram construídos ou refeitos nesse período.
AG – Um pouco em razão do fim da
Autolatina [aliança entre Volkswagen e Ford, que durou de 1986 a
1993]?
Kakinoff – Ah, sim. O fim da Autolatina representou a saída de
um porto para chegar a esse outro, de uma empresa muito mais ágil,
moderna, orientada ao cliente, com foco muito claro na criação de
produtos que tenham o que a gente chama de design on the passenger,
ou seja, desenhado em volta do consumidor. Nesse sentido, tive a sorte
de participar dos principais projetos.
AG – Aí é que está. Esse período tão
histórico que você cita culmina também com a perda da liderança do
mercado para a Fiat...
Kakinoff – Sem dúvida. A perda da liderança é o somatório de
diversos fatores. Um deles, que é visível, é a desvantagem de
portfólio que a Volkswagen apresenta em relação aos concorrentes. Em
muitos segmentos nós não temos oferta de produtos. Ou não tínhamos.
Começamos a eliminar essas lacunas com o lançamento do Polo hatch em
março do ano passado. Depois, com o Polo Sedan e, agora, com o Fox. À
medida que vamos preenchendo essas lacunas, vamos recuperando a
participação de mercado. Esse é um ponto.
O outro é que fizemos uma mudança brutal na política de
comercialização dos carros com a rede de concessionários. Passamos a
trabalhar em um sistema de encomenda, em que o consumidor monta o
carro que ele deseja, e nós temos um compromisso de prazo bastante
reduzido, em relação à prática normal do mercado. Eu diria que a
Volkswagen fez o pit stop antes de todos e agora está com pneu
novo e tanque cheio... É a estratégia da equipe.
AG – Não entendi uma coisa: o Fox fica
entre o Gol e o Polo, é isso?
Kakinoff – Em faixa de preço, sim. A gente faz uma segmentação
nova, que a gente chama de segmentação atitudinal. Está baseada no
comportamento de compra e não nas características demográficas, como
tradicionalmente é feito. Antes, quando perguntávamos quem era o
público consumidor de determinado carro, a resposta para qualquer
modelo era praticamente a mesma: consumidor das classes A e B, de 25 a
55 anos... Na verdade, quem compra carro no Brasil hoje é das classes
A e B.
Imagine um país com 180 milhões de habitantes e uma frota circulante
de 16 milhões de carros, sendo que a metade disso tem mais de cinco
anos de uso. Você está falando que o percentual da população que
compra carro é de 5%, que é o tamanho de classe A e de classe B.
|

Nós buscávamos uma segmentação que pudesse
diferenciar um consumidor do outro. Essa nos traz uma divisão em
quatro grupos bem distintos, em que o maior representa 30% do total, e
o menor, 17%. Esses grupos são o essencialista, o que compra o carro
pelos aspectos racionais. E esse grupo a Volkswagen domina, é o nosso
slogan, “você conhece, você confia”. O Gol é o maior
representante desses compradores. O Fox atende dois grupos que nessa
faixa de preço não temos oferta. Um é o dos guiados pela imagem, ou
seja, em função do design. E seu grande trunfo é ser o único
que vai atingir o que a gente chama de consumidor sensato, aquele que
compra o carro de dentro para fora, em função do espaço interno, da
sua utilização, valoriza o ajuste de altura dos bancos, banco traseiro
que vai para frente e para trás, o conforto...
AG – Eu achava que não existia esse
espaço entre os Gol mais caros e os Polo mais baratos...
Kakinoff – O Polo tem preço praticado em torno de R$ 31 mil. E
o Gol, de R$ 23 mil. Então existe essa lacuna, sim.
AG – O Gol é, de longe, o carro mais
vendido. Mas você não acha que ele é antiquado?
Kakinoff – Dividindo o mercado da forma como falei, você
explica essa performance do Gol. No último mês, o Gol obteve o recorde
do ano em participação de mercado e alcançou quase 20% do total das
vendas de todos os carros do Brasil. A cada cinco carros vendidos no
Brasil, um é o Gol.
AG – Mas você não pode entrar no mérito
sobre se ele é antiquado ou não?
Kakinoff – Não, posso... É claro que o design interior
do Gol é conservador em relação aos carros recém-lançados. Mas para
esse grupo de consumidores que eu falei, o essencialista, que compra o
carro pelos aspectos racionais, economia de combustível, valor de
revenda, custo de manutenção, o Gol é imbatível. O design do
carro é importante, mas não é fator determinante.
AG – O que você achou de algumas pessoas
afirmarem que vocês lançaram o Gol Total Flex sem homologá-lo?
Kakinoff – Ah, a gente teve uma certa satisfação em mostrar os
dados depois, divulgados oficialmente pela Anfavea [associação dos
fabricantes]. Enquanto nosso amigo concorrente, que você sabe quem é,
tentava convencer os jornalistas de que o carro não existia, a gente
já havia emplacado mais de 5.000 carros. É um assunto bem tranqüilo
para a gente.
AG – O que mudou da gestão Herbert Demel
para a Paul Fleming?
Kakinoff – O Demel era um cara extremamente voltado às
fábricas, à excelência no processo produtivo. A mudança que ocorreu
foi quase forçada, porque o Demel entregou a gestão para o Paul
Fleming com um parque industrial instalado até superdimensionado para
a nossa necessidade e, em termos tecnológicos, extremamente avançado.
O foco, que era voltado para a produção, passou a ser voltado para o
produto, sua adequação às condições do nosso mercado.
AG – Ouvi dizer que foi uma guinada da
engenharia ao marketing.
Kakinoff – Você pode dizer que sim. O foco pessoal do
presidente atual é muito mais voltado ao marketing. Essa
avaliação também é correta. As ações de marketing são
acompanhadas pelo Paul Fleming quase pessoalmente.
AG – A Anfavea anunciou aumento de 24% na
venda de carros. Na sua opinião, vai salvar o ano?
Kakinoff – Não dá. Ainda que tivéssemos esse aumento nos
últimos três meses, fecharíamos o ano com involução de 7% a 10% em
relação ao ano passado. |