"1984" é um daqueles livros inesquecíveis, principalmente levando em conta o ano em que foi escrito, 1947. Numa época distante, o ano de 1984 (?), o autor, que nasceu na Índia, mostra um mundo totalmente controlado e dominado pela tecnologia de informação, em que até a privacidade individual deixou de existir.
"Mas o que isso tem a ver com uma coluna no BCWS, que deveria falar de automóvel?", poderão alguns estar se perguntando.
Talvez a tecnologia de informação venha a servir como santo remédio para curar algumas mazelas do nosso trânsito. Uma delas é o uso dos faróis de neblina sem necessidade.
A Bosch desenvolveu há pouco mais de 10 anos um medidor de opacidade da fumaça expelida pelo escapamento dos motores diesel, para fins de fiscalização. O instrumento, apropriadamente chamado de opacímetro, é colocado na saída do escapamento pelo agente fiscalizador e compara a diminuição da intensidade luminosa de um ponto a outro. Desta maneira, a informação é traduzida em um sinal elétrico para indicar, por meio de um mostrador, a porcentagem de fuligem nos gases de escapamento.
Muito bem, a partir da idéia do opacímetro poderia perfeitamente ser construído um medidor de opacidade do ar que fosse instalado nos automóveis por força de legislação. O sinal elétrico resultante da medição seria, então, levado a um interruptor do circuito elétrico dos faróis de neblina (e da luz traseira de neblina), que só acenderia esses faróis e essa luz caso houvesse de fato neblina a partir de uma determinada concentração de gotículas d'água no ar. Ou seja, se houvesse realmente neblina, fumaça de queimadas ou água da chuva borrifada em excesso. Do contrário, de nada adiantaria o motorista ligar os faróis ou luz traseira de neblina.
Talvez seja mesmo a única forma de acabar com essa mania -- que não é só nacional, frise-se --, que é usar faróis de neblina em vez dos principais e trafegar com a luz traseira de neblina acesa sem necessidade.
Francamente falando, apesar dos meus 40 anos no banco do motorista, não dá para chegar a uma conclusão sobre o que leva alguém a acender faróis de neblina sem que as condições atmosféricas o justifiquem. Desses 40 anos, nos dois últimos usei um carro (Omega CD) que tinha faróis de neblina e nunca foram ligados... Seria o mesmo que um piloto de jato achar avião bonito com o trem de pouso abaixado e fazer todo o vôo numa configuração que só serve para decolar e pousar.
No automóvel, o raciocínio é o mesmo. Faróis servem para iluminar o caminho à frente; caso contrário, nenhum carro teria farol. Faróis de neblina, ou faróis auxiliares de neblina, não foram inventados para iluminar o caminho à frente em velocidades normais, mas para baixas velocidades, sobretudo com capacidade de iluminar as margens da estrada, muito importante quando há neblina. É por isso que os ajustes dos fachos são diferentes. Nos faróis baixos, o padrão de inclinação do facho vai de 1% a 1,3%. Nos faróis de neblina, 2%.
Então, para que usar farol de neblina sem necessidade? As razões são várias. Mostrar aos outros que o carro tem o equipamento ("Meu carro tem, olhem só.") deve ser uma delas. Visual agradável pode ser outro motivo ("O carro fica lindão."), embora o próprio dono, a bordo, nunca tenha esse prazer.
Tem mais: muitos ainda acham que os faróis principais incomodam os motoristas que trafegam em sentido contrário e, num ato de (rara) delicadeza, usam os faróis de neblina, supostamente menos ofensivos. Só que isso é verdadeiro apenas se estiverem corretamente ajustados. O que ocorre em muitos casos é mandar levantar o foco dos faróis de neblina para que iluminem um pouco mais à frente, resultando em enorme ofuscamento. Pior, esses faróis não possuem o facho assimétrico que todo farol principal tem hoje, piorando a situação.
Por falar em facho assimétrico, uma dica: quando for parar ou estacionar na contramão de direção (proibido pelo Código, mas todo mundo faz de vez em quando se não tem guarda por perto), só acenda os faróis do carro se não houver ninguém vindo em sentido contrário, pois a assimetria de facho fica desfavorável e ofusca bastante. Cortesia não custa.
Sempre vejo carros trafegando em auto-estradas a 120 km/h com faróis principais e de neblina ligados. Esses não servem para nada nessas condições. Para que iluminem o caminho diretamente à frente, o facho dos faróis de neblina têm de ser necessariamente baixo. Para reduzir o reflexo do facho nas gotículas d'água da neblina possuem uma zona de corte de luz acentuada. Por isso, esses faróis não permitem enxergar-se placas de sinalização de trânsito. Só esse motivo é suficiente para não utilizá-los em condições de boa visibilidade.
Que tal você não ver uma placa de parada obrigatória, a "PARE", e se acidentar num cruzamento ou acesso a via expressa? Ou deixar de avistar algum dejeto rodoviário chamado lombada?
O que é pior é muitos - mas muitos - motoristas não perceberem que estão trafegando com a luz traseira de neblina acesa, incomodando todo mundo que vem atrás. Como essa luz é chaveada em conjunto com os faróis de neblina, acendê-los leva quase sempre a acender a luz traseira para essa condições atmosféricas.
Digo quase sempre por que a maior parte dos motoristas não conhece o esquema dos interruptores e acende tudo de uma vez. E, até onde sei, só o Chevrolet Blazer traz o péssimo arranjo de a luz traseira de neblina acender-se ao ligar os faróis de neblina, não sendo possível utilização individual.
Para encerrar, leitor do BCWS, se você usa faróis e luz de neblina só quando a visibilidade piora a partir de certo ponto, parabéns. Se, pelo contrário, você pertence ao time dos que os usam normalmente, procure mudar seus hábitos, para fazer um bem aos outros e a você mesmo.
Se não, "1984" pode vir aí...
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