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Cruzamentos perigosos

Cruzamentos constituem real ameaça ao motorista, mas
com cuidados elementares é fácil sobreviver a eles

por Bob Sharp

Bob SharpTodo cruzamento é perigoso. Por isso, erram as autoridades de trânsito ao colocarem placas com o aviso em certos cruzamentos. Erram porque quem está começando a dirigir (e muitos dos que já dirigem) pode inferir que os demais cruzamentos não representam perigo.

Cruzamentos são tão perigosos que o maior acidente aeronáutico da história, que ceifou 587 vidas, foi no solo, quando dois Boeings 747 chocaram-se no aeroporto de Tenerife, nas Ilhas Canárias, em março de 1977.

Um deles, da holandesa KLM, estava na corrida de decolagem, quando o outro, da americana Pan Am, tentou cruzar a pista, devido a uma ordem errada da torre -- o pequeno aeroporto não dispunha de radar de solo e encontrava-se no momento, 15h40, sob forte nevoeiro.

O cruzamento responde por grande parte dos acidentes de trânsito. Não importa se controlados por semáforo ou sinalização de parada obrigatória, atravessá-los com segurança não representa dificuldade maior, mas exige conhecimento e atenção.

O maior perigo nas colisões laterais está nas lesões da coluna na região cervical e nas batidas com a cabeça contra as partes da carroceria, como a coluna central. Isso explica a profusão de bolsas infláveis laterais (sidebags) atualmente.

Cruzar linhas férreas exige cautela ainda maior. Dois casos me vêm à mente. Um, na rodovia Piaçagüera--Guarujá, no Estado de São Paulo, em que há uma passagem de nível com cancela nas imediações da Companhia Siderúrgica Paulista, a Cosipa. São vários os casos de abalroamento das cancelas por motoristas, que consideram um absurdo sua presença na estrada.

Apesar da correta sinalização de aviso sobre a passagem de nível, muitos motoristas nem tomam conhecimento de que estão ali, pois, na maior parte do tempo, estão levantadas devido ao tráfego ferroviário ser reduzido naquele ponto.

Outro fato foi um ônibus no Rio de Janeiro colhido por um trem e seu motorista, entrevistado num telejornal, dizer "eu vi que o trem vinha, buzinei mas ele não parou"... Portanto, cruzamentos de linhas férreas também são perigosos e devem ser alvo de todo o cuidado. Não há justificativa para receber uma batida de um trem.

Sempre digo para familiares e amigos que nunca vou me acidentar num cruzamento. A razão é bem simples: nunca passo por um cruzamento em velocidade que não dê para frear e parar caso surja um veículo de um lado ou pelo outro. Não importa se de dia ou de noite, com ou sem semáforo, mesmo que este esteja verde para mim. Exagero? Não. Excesso de cuidado? Muito menos.

A certeza é tanta nesse ponto que, se fossem opcionais, eu jamais compraria um carro com bolsas infláveis laterais, item de segurança tão alardeado nas campanhas publicitárias das fábricas de automóveis e enaltecidos pela imprensa especializada.

O fato é que se deve estar pronto para agir se houver a iminência de uma colisão. Para isso, tirar o pé do acelerador e encostá-lo no de freio é essencial, mas trafegar em velocidade compatível também é importante. Ao adentrar à zona de cruzamento, olhar à esquerda, depois à direita e novamente à esquerda. Bastam esses cuidados para você poder fazer a mesma afirmação que eu sem medo de errar.

Por falar em cruzamento e semáforo, quando este entra em amarelo piscante programado ou não, ou apaga-se totalmente por falta de energia elétrica, é espantoso como praticamente a totalidade dos motoristas pensa "Oba, não preciso parar!". E nem ao menos diminui a velocidade, quando deveria ser justamente ao contrário.

Nessa condição todo cuidado é pouco, pois quem vem pela transversal pode estar pensando a mesma coisa. Em todo os Estados Unidos, semáforo piscando torna-se parada obrigatória, de acordo com o código de trânsito de lá. Mesmo quem esteja numa grande e larga avenida.

Voltando a nosso país, é comum ouvirem-se comentários e opiniões de que determinado cruzamento possui alto índice de colisões e que a autoridade de trânsito deveria instalar um semáforo. Não há nada mais irracional, pois semáforos existem para regular fluxo, não para evitar que acidentes aconteçam. Então o que se vê é uma próspera indústria de semáforos pelas cidades, que servem sobretudo para prejudicar o fluxo de veículos.

Outro fator de risco nos cruzamentos está associado aos carros atuais com ar-condicionado, em que se anda com vidros fechados e muitas vezes ouvindo noticiário ou música no rádio ou aparelho de reprodução de som. Nessa situação são grandes as chances de não se escutar a sirene de uma ambulância, carro de bombeiros ou de polícia.

O cuidado deve ser sempre praticado por quem dirige -- e não precisa ser lembrado. Há alguns anos, num aeroporto dos Estados Unidos, o piloto de um pequeno monomotor, ao se preparar para pousar, recebeu autorização da torre de controle, que disse também "Primeiro terço da pista interditado para obras; pouse com cuidado".

O piloto fez o pouso normalmente e, assim que desceu do avião, emitiu uma nota de protesto ao FAA, órgão que controla a aviação no país que, em resumo, dizia: "Eu sempre pouso com cuidado, o que todo piloto é obrigado a fazer. O operador da torre deveria se limitar a dar as informações sobre as condições da pista."

Absolutamente certo, o piloto. Pilotar com cuidado é obrigação, e dirigir com cuidado acaba com os cruzamentos perigosos.

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