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Faixas para que te quero

Uma das bases da sinalização horizontal, as parcas
faixas demarcatórias são pouco respeitadas

por Bob Sharp
Bob Sharp

Certos motoristas devem achar que as faixas de divisão de pista das ruas e estradas têm mesma utilidade que as das pistas principal e de taxiamento dos aeroportos. Só isso explica o hábito de dirigirem com as faixas no meio do veículo, exatamente entre as rodas, como se tratasse de um avião se movimentando no solo...

Exageros à parte, um dos fundamentos do bom trânsito é a disciplina. Ela é tão mais importante quanto maior for a densidade de tráfego. Em grandes aglomerações urbanas, que atualmente não se restringem apenas às grandes capitais, a falta de disciplina sempre é um fator complicador.

É alarmante a quantidade de vias de trânsito com demarcação de faixas de rolamento precária ou mesmo inexistente, muitas há vários anos. É assunto que parece não incomodar justamente quem mais deveria se preocupar com ele: as autoridades de trânsito das três esferas de administração.

Um exemplo típico é o trecho próximo ao complexo chamado Cebolinha, numa das principais artérias da cidade de São Paulo, o corredor norte-sul formado pelas Avenidas 23 de Maio, Rubem Berta e Moreira Guimarães, em seqüência (estranho, uma avenida com três nomes, não?). Como as obras foram paralisadas e não chegaram ao fim, a marcação das três faixas de rolamento é completamente ilógica, irregular, cujo traçado em nada ajuda a disciplinar o tráfego no local. Pelo contrário, o ponto é palco de congestionamento todos os dias úteis no horário de grande fluxo. Passado o trecho, o tráfego flui razoavelmente bem.

E os repórteres aéreos bradam de seus helicópteros que é "excesso de veículos"...

Além de só servir para tumultuar o trânsito, é a falta de consistência na demarcação de faixas que leva o motorista a se desacostumar em obedecê-las. É fácil notar a desobediência crônica nos estacionamentos de lojas e de shopping centers pela quantidade de carros mal estacionados. Muitas vezes uma vaga é desperdiçada só porque alguém desatento e/ou indisciplinado deixou de posicionar seu veículo no espaço demarcado.

Vêem-se placas de aviso nas lojas solicitando aos motoristas que estacionem de acordo com as faixas demarcadas. Isso jamais seria necessário se cada um tivesse a consciência e, principalmente, o hábito de observar as faixas demarcatórias.

Faixas deficientes encontram-se em quantidade nas estradas, o que é totalmente inaceitável. As que estabelecem pontos permitidos e proibidos de ultrapassagem, de linha contínua (proibida) ou tracejada (permitida), muitas vezes estão em desacordo com a situação real. É fácil um motorista provocar ou ser vítima de um acidente caso não esteja bem atento à topografia e ao traçado da estrada. Ou seja, não se pode confiar no que está pintado no solo.

Outro tipo de faixa, das mais importantes, é a que indica as bordas da estrada, constituída por linha branca contínua. Essa faixa é de valor inestimável à noite, sob chuva, neblina ou quando há farol em sentido contrário nas rodovias de mão dupla, mas nem sempre existe ou está apagada pelo tempo. Novamente, é incompreensível que o órgão responsável pela via não se preocupe em refazer tais faixas ao menor sinal de deterioração.

Quem já teve a chance de dirigir no exterior pôde perceber com a pintura de faixas costuma ser irrepreensível e sobretudo mantida em bom estado. O Artigo 88 do Código de Trânsito Brasileiro determina que "Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação".

Vê-se que o legislador foi hábil na redação de uma das questões mais importantes para a segurança do trânsito. Só que a própria autoridade muitas vezes não cumpre sua obrigação, e ninguém parece se importar com isso, o que é ainda mais lamentável.

Em vez de se dedicarem ao estado das estradas, como a questão da sinalização horizontal, a palavra de ordem é, claramente, instalar radares (só pensam "naquilo") e encher os cofres públicos com a arrecadação das multas. Pior, muitas vezes lançando mão de armadilhas de velocidade.

Só para dar um exemplo, uma dessas armadilhas foi criada pela Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), autarquia que administra várias rodovias do estado de São Paulo -- uma delas a SP-70 Ayrton Senna, de padrão mundial, mas que está se deteriorando rapidamente. Só que no sentido oeste, chegando à capital, o limite de velocidade cai de 120 para 110 km/h nos 28 quilômetros finais, sem nenhuma razão técnica. No sentido inverso, cuja pista é idêntica e envolve o mesmo volume e tipo de tráfego, o limite é de 120 km/h desde o início da rodovia. Claro, há um radar fixo pouco depois do começo dessa zona de 110 km/h, em descida, à espera das "presas". Deve ser um dos radares que mais fatura.

Enquanto não for dada atenção total à questão das faixas demarcatórias e não for fiscalizada sua obediência sistematicamente, o Brasil continuará no pódio dos países de trânsito que mais mata. Mesmo que haja um radar a cada quilômetro.

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