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Esta não é a história de Caryl Chessman, o bandido da luz vermelha que no final dos anos 40, nos Estados Unidos, se valia de uma luz dessa cor em seu carro (sempre roubado) para fingir que era polícia e assaltar e matar. Pelos seus inúmeros crimes foi condenado à morte, num processo que o deixou 11 anos no corredor da morte (se quiser, leia mais sobre Caryl Chessman em
www.crimelibrary.com/classics3/chessman/16.htm, em inglês somente).
Estamos falando de uma praga que se alastra nas ruas e cidades brasileiras: o uso da luz traseira de neblina sem necessidade. O incômodo proporcionado por aquela luz forte no lado esquerdo do veículo (dois lados nos Ladas, Fiat Tipo e Renault Scénic), cuja intensidade é de 21 watts -- a mesma da luz de freio --, incomoda mesmo. Não há quem não tenha passado pela desagradável experiência de ter de ficar atrás de um carro com essa luz acesa.
O curioso é que essa tendência de incomodar os outros é relativamente recente, digamos de uns cinco anos para cá. Antes, raramente via-se alguém causando essa perturbação, apesar dessas luzes traseiras de alta intensidade terem surgido em 1985 com o Santana.
Um amigo dirigia na Alemanha alguns anos atrás e foi parado pela polícia rodoviária numa auto-estrada. Em meio a gentilezas iniciais dos dois lados, um dos policiais teve o cuidado de perguntar se meu amigo estava com algum problema de visão. Surpreso, por ter visão para longe perfeita, respondeu ao policial que não e perguntou por quê. "Se o senhor está enxergando bem e não há nevoeiro na estrada, então por que está trafegando com a luz traseira de neblina ligada?"
Não foi lavrada multa, ficou só na advertência -- e na lição para o motorista brasileiro meu amigo.
Imagino que, com raríssimas exceções, quem anda com a luz traseira de neblina ligada à toa não tem noção do que está fazendo. Ou seja, não há dolo na atitude, apenas culpa. Culpa de não conhecer o carro que dirige ou de não prestar atenção nas indicações do painel ou das teclas de acionamento dos diversos acessórios. Desleixo mesmo.
No primeiro caso, até que a culpa pode ser dividida: é o caso do
Chevrolet Blazer que traz a luz traseira de neblina chaveada junto com os faróis auxiliares de neblina; deveria ser individual como na maioria dos carros. Por outro lado, se a luz traseira de alta intensidade não se justifica no momento, o mesmo acontece com os faróis auxiliares (leia coluna
À George Orwell). Mas, pelo menos, operação independente resolveria em parte o problema.
A culpa de tais motoristas está em não se preocupar com o que o painel ou o próprio interruptor diz. Em todos os casos a luz traseira de alta intensidade é indicada por uma luz alaranjada, de fácil visualização. No caso do Fiat Tipo, que vinha com luzes nos dois lados, há um forte luz dessa cor no painel; só não a vê quem não quer.
Pode ser que a pressa e a tensão dos dias em que vivemos estejam levando motoristas a perderem a concentração. A vida anda difícil, é problema de todo lado, as emissoras de rádio exageram em notícias ruins, há radares em excesso nas ruas e estradas (multa de R$ 540 dói no bolso de qualquer um, sem esquecer da pontuação para a carteira de habilitação), enfim, o dirigir tranqüilo parece pertencer ao passado. A falta de concentração ou atenção em outras coisas pode explicar a luz traseira acesa.
Pode explicar também, aproveitando, um fenômeno crescente: não baixar os faróis quando necessário, como se fosse o único carro na estrada.
Mas há alguns motoristas que, tenho certeza, sabem o que estão fazendo. O perfil é mais ou menos esse: homem, jovem, e seu carro é escuro, equipado com película escurecedora nos vidros, bola de engate, pneus de perfil ultrabaixo e suspensão mais baixa que o normal. Mas é só uma observação, não quero aqui acusar ninguém injustamente.
Evitar que esses bandidos da luz vermelha incomodem meio mundo cabe ao policiamento de trânsito. O exemplo do que aconteceu com meu amigo na Alemanha fala por si só -- só que isso no Brasil é uma utopia. Como venho dizendo, policiais e fiscais de trânsito parecem só pensar "naquilo" - autuar por excesso de velocidade. É como se todo o espectro do Código de Trânsito não existisse.
Parece brincadeira, mas no jornal O Estado de S.Paulo de 6/10 há uma notícia sobre a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo estar adquirindo 20 radares e estimar aumento da arrecadação com multas em 14%, revertendo a tendência de queda... Está lá para quem quiser ler.
Esse assunto de luz e iluminação é mais grave do que se pensa. Já vi caminhões com luzes vermelhas na dianteira e com farol na traseira apontado para trás. Há as lentes de lanternas traseiras fumês pintadas em casa, deixando a luz pouco visível; máscaras para imitar a solução Fiat Brava -- e os morcegões, gente que anda completamente às escuras, mesmo agora em tempo de racionamento de energia elétrica e de iluminação pública reduzida.
Bandido é caso de polícia, não é não?
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