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Lombadas assassinas

Esses dejetos viários já mataram e vão matar mais

por Bob Sharp
Bob Sharp

Onze de outubro de 2001, nove e meia da noite, véspera do Dia das Crianças. Um grupo de 10 meninos e meninas brincam na calçada de uma rua de bairro em São Paulo. Um carro surge em velocidade e invade o passeio, deixando o saldo de duas crianças mortas, uma em coma, outras feridas com mais ou menos gravidade.

O que os noticiários não disseram é que havia lombadas na rua. E o que não aventaram é que a perda de controle pode ter sido ocasionada quando o veículo -- um médio-compacto, novo -- topou com a lombada. O fato de que era dirigido por um ladrão de automóveis não muda nada.

Poucos anos atrás, em São Paulo, um assaltante tomou o Gol de uma jovem e, com ela mantida a bordo, acabou sendo perseguido pela polícia. Ao passar por uma lombada o carro capotou. A jovem perdeu a vida.

Lombada, quebra-molas, ondulação transversal: não importa o nome, esses obstáculos artificiais nas vias públicas constituem, sem a menor dúvida, o maior cancro do sistema viário brasileiro -- e há bem pouca percepção disso. Proibidas no novo Código de Trânsito aprovado em setembro de 1997, foi-lhes prorrogada a permanência por meio de uma resolução do Contran quase em seguida.

Lombadas existem em outros países. Nos Estados Unidos são chamadas de speed bumps, ondulações para reduzir a velocidade. Por suas formas e dimensões, servem apenas como alerta para quem está entrando em zona de menor velocidade. Nem de longe ocorre o impacto que se verifica com freqüência no Brasil. Podem até ser atravessadas sem diminuir a velocidade. Mas vêm-se lombadas, nos EUA e outros países civilizados, apenas em ruas estritamente residenciais e em alamedas de clubes. Como aqui -- em toda parte, inclusive em rodovias federais --, jamais.

O mesmo quadro poderia existir aqui caso as autoridades de trânsito fizessem por merecer esse nome, pois as dimensões das lombadas estabelecidas pelo Contran não impõem esforço anormal aos veículos. Mas lombadas de dimensões regulamentares são raras, e é aí que vem o problema.

Problema ainda mais grave é a falta de sinalização adequada. Há situações à noite em que lombadas simplesmente não são avistadas (como pode ter ocorrido no atropelamento coletivo do começo dessa história). Se estiver chovendo, nem se fala. É um recurso burro e antinatural para reduzir a velocidade do tráfego.

É tão antinatural que seria inconcebível lombada para linhas férreas, rios e lagoas, e espaço aéreo. No entanto, nesses três elementos veículos têm de cumprir limites de velocidade em certos casos. Por exemplo, nas chamadas áreas terminais (TMA) os aviões não podem ultrapassar 250 milhas por hora (400 km/h), de maneira a permitir o melhor ordenamento do tráfego aéreo. O mesmo ocorre nos trevos rodoviários, onde a velocidade deve ser mais baixa, propiciando condições de cruzamento de pista menos arriscadas -- lembre-se, todo cruzamento é perigoso.

Por aqui, tudo começou em Curitiba, bem no começo dos anos 80, quando Jayme Lerner (PFL) era prefeito. De repente, a cidade se viu repleta de lombadas, desde em ruas residenciais até nas avenidas importantes como a que leva ao aeroporto. De lá a moda atravessou divisas de estado para chegar aos níveis deploráveis e inaceitáveis de hoje.

"Rua que não tem lombada não é rua", devem pensar moradores, a julgar pelos pedidos de lombadas feitas à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que administra o trânsito da capital paulista. Segundo o órgão são mais de 4.000 pedidos de instalação de lombadas por mês. É como se se tratasse de questão de status, tanto quanto possuir iluminação pública ou rede de esgotos.

A coisa chegou a tal ponto em que os carros fabricados no Brasil e a maioria dos importados oficialmente estão mais altos. Quem já teve a chance de seguir um Honda Civic modelo 2001/02 pôde notar como as "ferragens do chassi" ficam expostas, ou seja, a (bela) suspensão traseira independente fica totalmente visível. Os efeitos de carro mais alto do que o necessário todo mundo sabe: menos estabilidade, maior arrasto aerodinâmico, mais consumo de combustível. Tudo o que a indústria automobilística se empenha em melhorar.

Existe um efeito ainda mais nefasto relacionado a essa quantidade absurda de lombadas: o motorista passa a se condicionar apenas por elas quanto a ter cuidado ao dirigir. Sua ausência significa "luz verde para acelerar". A lombada deseduca, e é justamente educação no trânsito uma de nossas maiores carências.

Há outros efeitos não menos nefastos ocasionados por estes dejetos viários. Aumenta a carga de poluentes lançados na atmosfera, resultado da necessidade de acelerar de novo após transpô-las; pelo mesmo motivo, aumenta o ruído produzido pelos veículos. Ambos efeitos não interessam a ninguém, certo? Uma autoridade em questões ambientais, o engenheiro Gabriel Murgel Branco, afirmou certa vez que 30% da emissões de monóxido de carbono na região da Grande São Paulo são causadas exclusivamente pelas lombadas.

Sem contar a maior solicitação mecânica em todos os veículos, do popular de 1,0 litro à carreta de 40 toneladas, não esquecendo os ônibus urbanos. Um motorista de táxi de Curitiba disse-me certa vez que as pastilhas de freio de seu Voyage não duravam mais do que 5 mil quilômetros. As lombadas influenciam na composição das planilhas de custo que levam ao estabelecimento das tarifas.

Há outro efeito ainda pior, a dificuldade de veículos de serviços públicos, como ambulâncias e corpo de bombeiros, de trafegarem com maior rapidez nas emergências. É fácil imaginar o que acontece com um paciente com hemorragia interna se o motorista da ambulância não perceber uma lombada à frente. Ou com um garupa desatento na motocicleta.

Na principal avenida de acesso ao centro de Pindamonhangaba, cidade-sede do BCWS, inúmeras e sucessivas lombadas -- uma delas próxima a uma rotatória, por si só um redutor de velocidade -- tiram todo o encanto da bela cidade que tem a Serra da Mantiqueira como moldura. Inversamente, ao precisar ir a Jacareí, também no interior de São Paulo, e imaginar chegar lá e penar com as lombadas, surpreendi-me: removeram-nas todas. Na cidade do Rio de Janeiro praticamente não existem lombadas e nem por isso os índices de acidentes de lá são maiores que os de São Paulo.

Uma das esperanças do Código de Trânsito Brasileiro, a eliminação das lombadas assassinas sucumbiu à irracionalidade. Por quê, um mistério.

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Foto: Fabrício Samahá

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