Os engenheiros sempre pregam a torto e a direito que estilo não é o principal num carro. Dizem que se o projeto for bem feito os compradores aparecerão. Sabemos muito bem que isso não é verdade, mas todos nós, entusiastas do automóvel, tendemos a acreditar um pouco neste credo.
Tomemos como exemplo os carros da marca inglesa Bristol, não muito conhecidos por sua beleza -- para sermos complacentes. Em um primeiro encontro, os Bristols parecem algo que nem uma mãe pode amar. A empresa não tem departamento de estilo, somente engenheiros. Mesmo assim, a pergunta continua na cabeça: por que os carros têm essa aparência ridícula?
Vamos por um momento nos colocar na posição de um engenheiro experiente e inteligente, a quem a seguinte incumbência foi colocada: projetar um veículo de quatro lugares, rápido, ágil, porém sofisticado em seu funcionamento e tranqüilo na condução. Prioridades: conforto e espaço para um
gentleman inglês (chapéu, luvas, ternos impecáveis), sua bagagem e eventualmente mais três passageiros distintos. Acabamento de alto nível. Eficiência em consumo e "pernas longas" para viagens extremamente rápidas e relaxantes. Comportamento dinâmico voltado ao conforto, mas com segurança ativa perfeita. Considerações econômicas: o preço final do carro não importa, mas não existe dinheiro para investimento pesado.
Como ele atingirá esses objetivos? Vamos acompanhar seu trabalho.
Passageiros eventuais mas quatro lugares definem que o veículo deve ter apenas duas portas. Rapidez, agilidade e alta segurança passiva requerem motor central, de preferência, até porque as suspensões não podem ser muito rígidas (conforto de marcha também é prioridade). Mas, se o posicionarmos na traseira, comprometeremos o posicionamento dos pedais, colocando o motorista muito para frente. Motor central-dianteiro, então.
Ainda, para o ambicioso comportamento dinâmico pretendido, o carro deveria ser largo, baixo, com entreeixos longo e pequenos balanços. Mas se o
gentleman é inglês, o carro será usado primariamente na Inglaterra. Não poderá ser muito largo, como qualquer um que já esteve naquele país sabe. Carros largos também não tendem a primar pela agilidade, uma das primeiras premissas de nosso carro. Problema, então: se a largura não pode ser generosa, como fica o espaço para os ocupantes?
Fácil, se seguirmos nossas regras. Estilo não é importante. Não disseram que o carro deveria ficar bonito, disseram? Vamos então fazer as laterais subirem em linha reta a partir da largura desejada, ganhando um espaço interno normalmente desperdiçado em carrocerias que se afunilam conforme sobem, para manter uma aparência aceitável. Vamos aproveitar e fazer a linha do teto, vista da lateral, livrar o espaço necessário para os quatro ocupantes de chapéu coco, em vez de fazê-la descer suavemente até o fim do carro só para ficar bonito.
Vamos esticar, também, a distância da abertura de roda dianteira até a porta, para podermos usar esse espaço normalmente morto para colocarmos lá o estepe, livrando assim o porta-malas dessa incumbência. Veja só, o porta-malas assim fica bem espaçoso. O balanço traseiro ficou um pouco grande, mas porque dessa forma distribuímos melhor as massas em todas as situações de carregamento.
Bem, então o desenho básico do carro está pronto. Não ficou bonito, mas vamos tocando o serviço.
Está claro que para o conjunto mecânico ser suave, econômico e potente como requer a aplicação,
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necessita de grande cilindrada, bom torque a baixas rotações e relação de transmissão longa. O peso do veículo deve ser o mais baixo possível, como sempre, e para o que estamos planejando, uns 250 cv devem ser suficientes. Nosso
gentleman não vai querer se preocupar em trocar marchas por aí, portanto vamos especificar uma transmissão automática suave e eficiente.
Como não temos dinheiro para investimento, desenvolver motor próprio está fora de cogitação. Mas, mesmo que tivéssemos esse dinheiro, por que fazê-lo? Os americanos têm motores perfeitos para nossa aplicação que podem ser comprados bem baratinho. São V8s de alta capacidade volumétrica, potentes, suaves, simples, leves e até econômicos se utilizados inteligentemente. E, vejam só, parece que a Chrysler está disposta a nos vender alguns poucos deles por ano, e eles ainda regulam os bichinhos conforme nossa especificação. Perfeito!
As suspensões serão fabricadas por nós, e ajustadas na aplicação. Independente na dianteira e eixo rígido traseiro serão suficientes. Não vamos nos arriscar desenvolvendo complexos eixos traseiros independentes por não serem necessários. O baixo centro de gravidade e a reduzida massa não-suspensa gerada por pneus de tamanho correto e perfil alto (deixemos as "fitas de borracha" em rodas gigantescas para os mais ligados a modas), somados ao grande curso da suspensão, realizarão o trabalho pretendido a contento. As massas serão distribuídas meio a meio em cada eixo (motor central). E nosso comprador certamente tem um Porsche ou Ferrari para os fim de semanas nas pistas.
O chassi será fabricado em peças pequenas, sem ferramental, mas soldado com todo o cuidado. Vamos fixá-lo a carroceria, em alumínio batido à mão e suportada por tubos pequenos soldados
(estampos requerem investimento), indivisivelmente formando um bloco bem rígido e leve. Rigidez e baixo peso são itens básicos de todo bom projeto de carroceria. Dessa forma, não ficará barato, mas isso também não é problema. Lembrem-se, preço não importa, só o investimento em ferramental.
Agora cuidado nos detalhes. Vamos tornar a posição de dirigir perfeita, pois reservamos espaço para isso. Painel de madeira nobre, instrumentação completíssima. Couro de alta qualidade revestindo todo o interior, instalado com todo o cuidado. Vamos usar toda a experiência em captação de fluxos de ar diversos de nossa empresa, fabricante tradicional de aviões, para criarmos uma ventilação interna perfeita, separada do ar-condicionado de alta capacidade. Esse
know-how também será usado para melhorar o coeficiente aerodinâmico e, principalmente, reduzir os ruídos indesejáveis.
Prontinho, senhores! Todos os objetivos atingidos com louvor. Parabéns!
Acompanhar, como acabamos de fazer, o processo de criação de um Bristol é uma aula em projeto. Poucas empresas perseguem objetivos de projeto tão seriamente, mas todas deveriam fazê-lo. Se todas tivessem um foco tão bem perseguido, os carros hoje seriam incrivelmente mais eficientes. Sim, os Bristols são feios de dar dó, mas perfeitos em projeto. Bastaria colocar "aparência aceitável" lá no começo para gerar compromissos provavelmente imperceptíveis ao público em geral, mas que existiriam. Somem-se aos objetivos acima a aparência aceitável e dinheiro para investir, e tire-se o lugar para dois, e se faz um Aston Martin.
Foco, se o objetivo é coerente e bem pensado, é tudo. Sempre. Como a Bristol inglesa nunca nos deixará esquecer.
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