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Instruir ou destruir

Os meios de divulgação em massa são responsáveis
diretos por boa parte da educação de um povo

por Luís Carlos P. Garcia

Nunca nos arvoramos em ser a palmatória do mundo. Procuramos, dentro de nossas parcas possibilidades e de forma sempre amistosa, levar ao leitor um pouco do conhecimento de que somos portadores.

Como já citamos anteriormente, não somos donos do conhecimento e, portanto, não temos o direito de guardá-lo apenas para nós mesmos. A divulgação daquilo que se sabe, parece-me ser uma contraprestação pelo benefício de sabê-lo.

Os meios de comunicação em massa -- jornal, revista, televisão, internet, cinema e publicidade -- têm a faculdade de alcançar uma infinidade de pessoas, em todas as camadas sociais e intelectuais. Têm ainda a capacidade financeira de manter, em seus quadros profissionais, elementos preciosos e altamente qualificados, com acesso a informações em todos os campos da atividade humana.

O que temos visto, no entanto, é a divulgação descuidada (e poderíamos -- dentro de nosso conceito de responsabilidade social -- adjetivar como irresponsável) de comportamentos que divergem frontalmente daquilo que, no mínimo, poderíamos aceitar.

Alguém que presencia uma cena de julgamento (Tribunal do Júri, ou Juízo singular) na televisão e que tenha visto uma na vida real sabe do que estou falando. Gente batendo palmas quando o réu é absolvido diante de uma injustiça que lhe fora imposta, réus que saem livres já do Tribunal, nos braços da platéia. Com toda a diferença que temos para o sistema jurisdicional americano (são menos presos a formalidades e mais práticos), acredito que nem lá ocorrem estas cenas na vida real.

São coisas que qualquer advogado, mesmo sem experiência prática -- apenas com aquela adquirida nos estágios promovidos durante a formação acadêmica --, poderia subsidiar e acrescentar em um quadro de novela, noticiário ou qualquer outra forma de comunicação com o público.

Acabo de ler texto de Ivan Finotti, na Folha de S. Paulo (caderno Ilustrada, 20/5), de título “Multa pesada”, em alusão ao seriado Carga Pesada da Rede Globo. Seus protagonistas, em apenas três programas, já cometeram 17 irregularidades de trânsito, acumulando pontos o bastante para terem suas habilitações cassadas e passarem por reciclagem. E considere-se que são apresentados como profissionais do volante, com longo tempo de experiência.

É o tipo de ação dos meios de comunicação que mais destrói do que constrói. Apesar de sempre recebermos a resposta de que se trata de uma ficção, de que o objetivo é o entretenimento, não conseguimos aceitar que aquele que promove entretenimento não possa, de forma construtiva, inserir no contexto lições de cidadania, respeito ao próximo, solidariedade.

Lembro-me de que, desde quando pequeno, meu filho acostumou-se a receber informações as mais variadas, tanto no rádio do carro como em casa. Ouvia vários gêneros musicais, conversava sobre as notícias. No trânsito, conhecia as placas regulamentadoras e, como toda criança, exibia seus conhecimentos identificando-as quando saíamos juntos.

O tempo foi passando. Ele crescendo. De repente, vi-me advertido por meu filho por ter ultrapassado o limite de velocidade. Foi uma consternação e, ao mesmo tempo, motivo de grande orgulho. Sinal de que minhas lições alcançaram resultados positivos. Ele já pensava de forma independente e tinha a exata noção do que podia e do que não podia ser feito.

O exemplo vem de cima. Os pais são o modelo dos filhos. As crianças adquirem conhecimento do mundo à sua volta. Quanto mais diversificada, correta, profunda e divertida ela for, mais rápido e fundo vai calar.

O leitor, o ouvinte e o telespectador são parte ativa no processo. E mais: são a parte principalmente interessada, já que é a eles que tudo se dirige. Todos conhecemos peças comerciais que foram tiradas da veiculação por não terem sido bem aceitas pelo público. Peças publicitárias existem para vender produtos, e se elas “caem mal”, o produto sofre. Está na hora de o público refugar o conteúdo que não lhe interessa, aquilo que é feito apenas para prender a atenção e não para servir.

Exigir da mídia, além do entretenimento, a responsabilidade da informação correta é uma relevante questão de direito.
 

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Data de publicação: 20/5/03

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