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Nunca nos arvoramos em
ser a palmatória do mundo. Procuramos, dentro de nossas parcas
possibilidades e de forma sempre amistosa, levar ao leitor um pouco do
conhecimento de que somos portadores.
Como já citamos anteriormente, não somos donos do conhecimento e,
portanto, não temos o direito de guardá-lo apenas para nós mesmos. A
divulgação daquilo que se sabe, parece-me ser uma contraprestação pelo
benefício de sabê-lo.
Os meios de comunicação em massa -- jornal, revista, televisão,
internet, cinema e publicidade -- têm a faculdade de alcançar uma
infinidade de pessoas, em todas as camadas sociais e intelectuais. Têm
ainda a capacidade financeira de manter, em seus quadros
profissionais, elementos preciosos e altamente qualificados, com
acesso a informações em todos os campos da atividade humana.
O que temos visto, no entanto, é a divulgação descuidada (e poderíamos
-- dentro de nosso conceito de responsabilidade social -- adjetivar
como irresponsável) de comportamentos que divergem frontalmente
daquilo que, no mínimo, poderíamos aceitar.
Alguém que presencia uma cena de julgamento (Tribunal do Júri, ou
Juízo singular) na televisão e que tenha visto uma na vida real sabe
do que estou falando. Gente batendo palmas quando o réu é absolvido
diante de uma injustiça que lhe fora imposta, réus que saem livres já
do Tribunal, nos braços da platéia. Com toda a diferença que temos
para o sistema jurisdicional americano (são menos presos a
formalidades e mais práticos), acredito que nem lá ocorrem estas cenas
na vida real.
São coisas que qualquer advogado, mesmo sem experiência prática --
apenas com aquela adquirida nos estágios promovidos durante a formação
acadêmica --, poderia subsidiar e acrescentar em um quadro de novela,
noticiário ou qualquer outra forma de comunicação com o público.
Acabo de ler texto de Ivan Finotti, na Folha de S. Paulo (caderno
Ilustrada, 20/5), de título “Multa pesada”, em alusão ao seriado
Carga Pesada da Rede Globo. Seus protagonistas, em apenas três
programas, já cometeram 17 irregularidades de trânsito, acumulando
pontos o bastante para terem suas habilitações cassadas e passarem por
reciclagem. E considere-se que são apresentados como profissionais do
volante, com longo tempo de experiência.
É o tipo de ação dos meios de comunicação que mais destrói do que
constrói. Apesar de sempre recebermos a resposta de que se trata de
uma ficção, de que o objetivo é o entretenimento, não conseguimos
aceitar que aquele que promove entretenimento não possa, de forma
construtiva, inserir no contexto lições de cidadania, respeito ao
próximo, solidariedade.
Lembro-me de que, desde quando pequeno, meu filho acostumou-se a
receber informações as mais variadas, tanto no rádio do carro como em
casa. Ouvia vários gêneros musicais, conversava sobre as notícias. No
trânsito, conhecia as placas regulamentadoras e, como toda criança,
exibia seus conhecimentos identificando-as quando saíamos juntos.
O tempo foi passando. Ele crescendo. De repente, vi-me advertido por
meu filho por ter ultrapassado o limite de velocidade. Foi uma
consternação e, ao mesmo tempo, motivo de grande orgulho. Sinal de que
minhas lições alcançaram resultados positivos. Ele já pensava de forma
independente e tinha a exata noção do que podia e do que não podia ser
feito.
O exemplo vem de cima. Os pais são o modelo dos filhos. As crianças
adquirem conhecimento do mundo à sua volta. Quanto mais diversificada,
correta, profunda e divertida ela for, mais rápido e fundo vai calar.
O leitor, o ouvinte e o telespectador são parte ativa no processo. E
mais: são a parte principalmente interessada, já que é a eles que tudo
se dirige. Todos conhecemos peças comerciais que foram tiradas da
veiculação por não terem sido bem aceitas pelo público. Peças
publicitárias existem para vender produtos, e se elas “caem mal”, o
produto sofre. Está na hora de o público refugar o conteúdo que não
lhe interessa, aquilo que é feito apenas para prender a atenção e não
para servir.
Exigir da mídia, além do entretenimento, a responsabilidade da
informação correta é uma relevante questão de direito.
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