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Já
abordamos em artigos anteriores a questão bastante discutida da
segurança no trânsito, quando estão envolvidos motociclistas,
principalmente aqueles que, dentro de um trabalho extremamente útil,
fazem entregas de encomendas ou correspondências: os conhecidos
motoboys.
Por que esta categoria profissional é tão polêmica? Porque ao ocorrer
um acidente, invariavelmente, surgem discussões acaloradas, tentando
culpar esta ou aquela parte. Motociclistas acusam os motoristas de não
os respeitarem, de abusar da proteção que possuem e aproveitar-se da
falta de proteção daqueles. Motoristas alegam que os motociclistas são
temerários, que abusam da agilidade que o veículo proporciona e
extrapolam, entrando invariavelmente numa zona de perigo constante,
pela falta de prudência.
Sou motorista desde maio de 1971 e, apesar de habilitado para, nunca
tive uma motocicleta. Mesmo assim, tentarei olhar a situação de uma
forma isenta (será que consigo?).
Circulando pelas ruas de uma cidade como São Paulo, podemos notar
algumas coisas que nos informam sobre este universo:
> a maioria das motocicletas que circulam é de baixa cilindrada
(125 a 250 cm3);
> muitas, talvez a maioria, destas motocicletas estão em
péssimo estado de conservação;
> os condutores destas motos muitas vezes não possuem
equipamentos adequados de segurança (capacetes, macacões, botas,
luvas, óculos);
> grande parte destes veículos possui adaptações toscas que
possibilitam o transporte de carga sem segurança;
> estes veículos trafegam, em sua grande maioria, pelos
corredores formados pelas faixas de tráfego, buzinando constantemente
– para avisar da sua presença e, ao mesmo tempo, "pedir" passagem.
Quando o trânsito pára, num cruzamento por exemplo, tentam avançar até
a frente da fila, não raro mudando de um corredor para outro.
Tudo isso é pura constatação. Qualquer um que se dispuser a dirigir
num dia de semana, pelo centro de São Paulo, constatará que não
“carreguei nas tintas”.
Se avaliarmos o quadro com alguma atenção veremos que:
> a maioria dos motociclistas citados está utilizando seu
veículo (próprio) a serviço de terceiros;
> a ausência ou precariedade dos equipamentos de segurança e a
manutenção displicente – muitas vezes restringe-se a manter a moto
andando – decorre da impossibilidade de investir, pela baixa
remuneração do serviço;
> se não investe em equipamentos de segurança e na manutenção,
o que se pode esperar quanto ao “baú”?
> a maioria destes motociclistas é jovem, habilitou-se
recentemente, já “pilotava” antes de habilitar-se (e portanto carrega
vários “vícios” dessa época) e possui encargos familiares (filhos para
sustentar, família grande com pessoas improdutivas, etc.).
Com base nisso podemos, de uma forma tranqüila, avaliar o tamanho do
problema: pessoas com uma habilitação deficiente, desinformadas, sem
conhecimento suficiente sobre os riscos e as responsabilidades de sua
atividade, com uma carência financeira urgente a suprir, vêem na
acessibilidade do pequeno investimento uma oportunidade de ter a
própria profissão e com isso sanear seus problemas.
De outro lado, temos um “empresário”, que na maioria das vezes tem
capacidade financeira maior que a do motociclista, que agencia este
motociclista e lhe dá serviço. Normalmente, se o motociclista provocar
um acidente, a responsabilidade é do “empregador”. Daí a ausência do
contrato de trabalho. O motociclista é “agenciado”, portanto autônomo
– o risco é dele. Conseqüência imediata: o motociclista não possui
nenhuma garantia trabalhista (férias, 13º. salário, Fundo de Garantia,
aviso-prévio no desligamento, indenização).
Como este “empresário” pode não ter uma capacidade financeira
suficiente, normalmente a “empresa” não tem competitividade, não pode
garantir segurança ao cliente e portanto não tem uma “clientela” que
lhe garanta um faturamento fixo. Com isso, paga mal pelo serviço
prestado, obrigando a contratação de motociclistas jovens e
inexperientes, que precisam pilotar por longos períodos para garantir
um faturamento mínimo no final do mês.
Acredito que, de forma singela, levantamos o problema e sua origem.
Como acreditamos que não basta apontar os problemas e origens,
tentaremos apontar para uma provável solução.
Inicialmente, o trabalho de entrega de mercadorias ou correspondência
por motociclistas deveria ser regulamentado por lei. Não sou favorável
à criação de leis a torto e a direito, porém neste caso acho
necessária, tanto quanto a que implantou a obrigatoriedade do uso do
cinto de segurança.
O estabelecimento de piso salarial, a exigência de registro
profissional, a verificação do equipamento (motocicleta e equipamentos
de segurança pessoal), por fiscais da Higiene e Segurança do Trabalho,
e a exigência de seguro contra terceiros para os veículos tornariam a
atividade mais segura e rentável para os motociclistas. Além disso,
livraria o mercado de “empresas” que não têm a mínima competência para
subsistir, e acabam sendo apenas “sanguessugas” dos motociclistas.
Alheios ao próprio mercado, os fabricantes simplesmente desconhecem a
amplitude do problema e insistem que o motociclista é responsável pela
própria segurança (direção defensiva). Da mesma forma que é
responsável pela própria segurança, também o é — e em condição de
primazia — pela subsistência, que depende de seu rendimento. Para
eles, ter alguém que não cuida da manutenção parece ser interessante,
pela garantia de reposição da moto em um prazo curto.
Reconhecem, no entanto, que algumas práticas dos motociclistas são
perigosas. Segundo um
artigo do jornal O Estado de S. Paulo:
"Uma prática comum
entre motociclistas, mas bastante perigosa, é costurar no
congestionamento. Segundo Claudemir Touron (Instrutor de Pilotagem da
Honda), estando num corredor formado por carros, o certo é permanecer
nele, caso contrário será grande o risco de acidente com os carros e
também com outras motos.
'Quando há um furgão ou outro veículo que não permita ver o que
acontece à frente, é necessário manter uma distância maior para evitar
uma freada brusca', explica Elias de La Cruz (da Yamaha). A orientação
vale também para condutores de automóveis. 'O ideal é, sempre que
possível, manter distância segura de qualquer veículo', acrescenta
Touron.
Um exemplo prático sobre a importância de manter boa distância entre
veículos, tanto para motos como para carros, é citado pelo instrutor
Fonseca: 'Se uma motocicleta cai, o motorista que segue muito próximo
pode atropelar o motociclista', lembra.
Para os motoristas, Claudemir Touron destaca a necessidade de estar
atento a tudo que acontece em volta do veículo. 'Os automóveis
precisam respeitar as faixas, mantendo a distância não apenas dos
carros da frente, mas também dos que estão aos lados', assinala.
'Muitas vezes, o motorista acostuma-se com o grupo de veículos que
está rodando com ele no trânsito, mas a moto aparece rapidamente, pois
não fica presa em nenhum bloco', analisa. 'Por isso, é necessário
estar constantemente checando retrovisores e notando a presença de
algum elemento novo, como uma motocicleta'."
Reconhecemos que, se
depender da iniciativa dos motociclistas ou motoboys (não
importa como os chamemos ou que comportamento adotem) ou dos
“empresários” de entregas, a questão da segurança no trânsito não se
resolverá.
Pelos primeiros, em função da total impossibilidade de se aglutinarem
num movimento que deságüe na regulamentação e num melhor ambiente de
trabalho. Pelos segundos, pela total falta de interesse econômico e
também pela impossibilidade de articulação (os pequenos acusariam os
grandes de estarem restringindo suas atividades através da
regulamentação).
Cabe à sociedade exigir que esta fatia de mercado passe a funcionar
com maior segurança para todos: segurança no tráfego, segurança
pessoal dos motociclistas, segurança de indenização pelos que sofrem
acidentes envolvendo motociclistas profissionais e segurança
trabalhista dos motociclistas, para falar o mínimo. Não se pode mais
aceitar a estatística de duas mortes a cada três dias no País por
acidentes com motocicletas.
Regulamentar para garantir segurança, não só contra como também
e principalmente para os motociclistas, é pura questão de
direito. |