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Entrevista
"Não vendo
para frotistas porque não dou aquele descontão"
Sergio Habib
Presidente da Citroën do Brasil
Autogiro - Há cerca de um ano, o sr. me
disse em primeira mão que iria importar o C2 na versão VTR em pequena
quantidade. O carro não chegou até agora. O que aconteceu?
Sergio Habib - Com a subida do euro, o modelo teria de ser
vendido aqui a no mínimo uns R$ 60 mil. Fica inviável. No momento, o
país está realizando importação só de carros de luxo.
AG - Mas nem em pequena quantidade, para
clientes que se dispusessem a pagar um preço mais alto só para ter
aqui esse carro?
Habib - Não, não funciona assim. É preciso ter peça de
reposição, toda uma estrutura que não vale a pena. A alta do euro
inviabiliza operações desse tipo.
AG - A gente tem visto por aí gerações
perdidas de modelos. É o caso do Golf 5, do Vectra, do Astra, da
Scénic. A Citroën vai manter esse fôlego de ter modelos entrosados com
o que é fabricado lá fora?
Habib - O C3 é um automóvel que foi lançado na Europa há apenas
dois anos. Por conta disso, não temos esse problema que, conforme você
bem mencionou, acontece com outros fabricantes. Mas tanto o C3 quanto
a Picasso ainda são fabricados na Europa. E os novos carros não estão
vindo para o Brasil porque o real está muito desvalorizado em relação
ao euro. Mais desvalorizado do que em relação ao dólar.
AG - Qual seria a saída? Começar a
importar carros americanos, que sairiam mais em conta?
Habib - Não. Brasileiro não gosta de carro americano.
Nós não temos modelos americanos e fica difícil também trazer
automóveis da nova geração européia. Para você ter uma idéia, pelo
preço do novo Golf na Alemanha, se fizéssemos a conversão do euro para
o real, o carro custaria aqui R$ 70 mil.
AG - E o C4, que seria o substituto do
Xsara?
Habib - Não está previsto importar C4. Seria outro modelo que a
gente precisaria vender por R$ 70 mil e não vale a pena ter estrutura
de peças.
AG - Publiquei em uma revista de grande
circulação nesta semana o ranking do recall brasileiro.
As fábricas que mais têm feito convocações são as grandes nacionais. A
Citroën aparece com
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apenas 0,2% dos modelos
produzidos
até hoje, levados em
conta os veículos feitos no Brasil. Qual é a sua opinião a respeito de
recall?
Habib - Olha, recall é uma prática comum. Acontece com
todas as montadoras. Às vezes um fabricante fornece um lote com
defeito e o carro já está na rua. Isso acontece, faz parte. Considero
a legislação brasileira para recall bem severa.
AG - O sr. não teria um furo para os
leitores?
Habib - Bom, uma coisa que eu não disse para ninguém é que
vamos ter no futuro o C3 1.6 automático. Isso vai acontecer em meados
do ano que vem. O C3 é um carro urbano, em que modelos automáticos são
muito úteis. Vou lhe dar uma estatística: carros automáticos são mais
ou menos 20% das vendas quando você pega uma faixa de preço até R$ 40
mil. De R$ 40 mil a R$ 60 mil, já pula para 50% dos modelos vendidos.
Acima de R$ 100 mil, é tudo automático. O câmbio automático do C3 será
seqüencial, mas diferente do que está sendo lançado nesta semana no
Picasso [Nota do colunista: na Europa é usado um câmbio manual
automatizado].
AG - Há um discurso segundo o qual o
câmbio automático não "pega" aqui por uma questão cultural. É cultural
ou é poder aquisitivo?
Habib - Eu diria que é mais questão de cultura. Na Itália, o
câmbio automático é 2%. Na França, é 5%. Os latinos gostam de cambiar
as marchas. Nos EUA, esse
número já sobe para 90%. E uma coisa é certa: quem compra carro com
câmbio automático não compra com mecânico depois.
AG - Até hoje ouço comentários de uma
declaração sua dada em um evento. O sr. se arrepende por ter dito que
a Citroën não vende carros para taxistas, frotistas e governo?
Habib - De maneira nenhuma. A questão é que nossa política não
é atender órgãos como polícia, taxistas ou grandes locadoras. Não é
nosso foco. Esse mercado requer descontos grandes para que possamos
vender. E não faz parte da política da empresa comprar mercado. Não
estamos dispostos a isso. É uma prática que compromete as contas da
montadora. Então, a questão não é que eu não vendo. Eu não dou aquele
descontão. E, como não dou aquele descontão, acabo não vendendo. |