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Entrevista
"Se meu carro
quebrar na rua, tenho de chamar um guincho"
Walter da Costa Moreira
Dono da oficina Auto Técnica Pardal
Motores, do grupo GOE
Autogiro – Há quanto tempo você trabalha
no ramo de reparação?
Walter da Costa Moreira – Desde 1976, aproximadamente.
AG – E o que você diria que mudou
daqueles tempos até hoje? Outro dia eu estava lendo matérias sobre o
Chevette de fim dos anos 70. Era um carro com motor 1,3 de 69 cv, mas
considerado um carrão, que alcançava 140 km/h...
Walter – Ah, mudou muita coisa. O Chevette era um bom carro, um
carrinho gostoso de andar. Hoje temos aí vários carros 1,0-litro que
rendem bem mais. Um dos aspectos que mudaram bastante foi a
durabilidade de um motor, que chega a 400 mil quilômetros. Naquela
época, se o carro chegava a 100 mil quilômetros, era motivo para
agradecer.
Por outro lado, nosso trânsito de hoje é bem mais lento, exige muito
do carro. Andamos em torno de uma hora em torno de 10 km/h, em média.
Isso exige muito do automóvel. As pessoas acham que correr é condição
severa. Que nada. Severo é o trânsito da cidade.
AG – Os carros estão bem mais fáceis de
dirigir, não é? Requerem menos mão-de-obra.
Walter – Sim, é como acontece na Fórmula 1. Antigamente tinha
mais ação do piloto. Hoje não, os carros praticamente andam sozinhos.
Os carros de uso urbano têm controle de velocidade, controle de
estabilidade, controle de acelerador. Não têm mais cabo, mas
acionamento eletrônico.
No acionamento do pedal, às vezes você pegava uma subida e acelerava
até o final. Em vez de o carro responder rápido, demorava um pouquinho
e ia lento acelerando. Hoje o carro recebe a informação e processa.
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Se não tem potência até o fim é porque não
tem velocidade no motor. É um sistema mais inteligente. Sem falar que
vários modelos hoje fazem sozinhos algumas coisas como travar porta,
acender o farol, acionar o limpador de pára-brisa...
AG – Isso não torna o ato de dirigir um pouco sem graça?
Walter - Não, claro que não. A gente tem de acompanhar a
tecnologia. Isso tudo existe para o nosso bem. Quem pega um carro
antigo sente na primeira aceleração. Hoje até na auto-escola as coisas
precisam ser ensinadas de forma diferente. Antigamente quando o aluno
esquecia de acelerar, o carro morria. Ou, se bombeava, afogava. O
pessoal de carta nova põe primeira e mesmo errando ele acelera. O
sistema corrige.
AG – E o que falar da eletrônica
embarcada?
Walter - Hoje é difícil uma oficina se manter no mercado sem
uma tecnologia de diagnóstico. Mudou tudo. E a gente não pára de fazer
cursos. Eu mesmo faço três ou quatro por semana. Você tem de se
atualizar. E quando não estuda a parte mecânica, você precisa fazer
curso de psicologia para saber interpretar o que o cliente quer. E
saber que ele não pretende só o conserto do carro, mas algo mais. Quer
um bom serviço de leva-e-traz, que o carro seja entregue limpinho,
facilidades de pagamento.
Tudo isso é a oficina do futuro. O piso da minha oficina é branco.
Antes bastavam uma chave de fenda e um alicate para reparar um carro.
Com a eletrônica, isso não acontece. Hoje se o meu carro quebrar na
rua eu chamo um guincho. Não tem como consertar.
AG – A conclusão é de que não se fazem
mais carros como antigamente?
Walter – Não se fazem mais carros como antigamente. Ainda bem.
Graças a Deus, aliás. A única coisa ruim para donos de oficina é que
os carros quebram menos. Antes o Fusquinha tinha primeira revisão com
500 quilômetros e a segunda com 1.500. Isso 30 anos atrás. O Renault
Clio hoje tem revisão só aos 40 mil quilômetros. Isso acaba com
qualquer oficina. |