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Entrevista
"A embalagem
do produto é que faz sua mística"
Alex Periscinoto
Publicitário que criou os primeiros
anúncios do Fusca brasileiro
Autogiro – Você está completando 45 anos
de publicidade de automóveis. O que mudou nesses anos todos, uma vez
que os carros eram bem mais simples? Era mais fácil ou mais difícil
fazer a propaganda?
Alex Periscinoto – Não era tão difícil, porque a gente resolveu
que não vendia o carro, mas vendia um conceito. O carro em si não era
bonito e não tinha em si aquelas qualidades. Tudo mais que se
anunciava era conceito. Havia uma série, do campeão, que batia na
concorrência, era o carro em um ringue de boxe, indo e voltando. O
perdedor supostamente era o Fiat, mas a gente não podia mostrar, pois
a Volkswagen não queria agredir o concorrente.
AG – Qual desses primeiros anúncios do
Fusca mais marcou, na sua opinião?
Alex – Olha, um que dizia “lave e use” ficou até melhor lá [no
exterior] do que aqui. É o carro que dura, dura, dura e não precisa
fazer mais nada. E estava na moda essa coisa, por causa do jeans.
AG – Há outro, que diz “aplique em um
negócio que não quebra”, que provocou problemas, é isso?
Alex – Esse era baseado em um clima de terror das cadernetas de
poupança que estavam quebrando, como Delfim e Haspa. O ministro [da
Fazenda] Delfim [Netto] ligou para dizer “Ô, Alex...”. É que havia
outro, em que a curva da inflação era o desenho do carro, que dizia:
“A inflação vai subindo, mas pode trazer de volta o valor do seu
dinheiro. É só investir num Fusca”. Falar de coisa que não quebra e
inflação era corda em casa de enforcado para o governo na época. Isso
perturbou um pouco o ministro na época.
AG – Antes de trabalhar com o Fusca, você
trabalhou no Mappin, fazendo desenhos...
Alex – Sim, no Mappin eu fazia a gerência de comunicação. Em
1958, eu viajei para os Estados Unidos como um presente do Mappin para
estudar varejo. Lá fui a uma agência, a DDB, que estava fazendo os
primeiros anúncios da Volkswagen. Fiquei encantado de ver essa
filosofia da simplicidade, fazer filmes como aqueles, “pense
pequeno”... Ou “qual é a posição social do dono deste carro?”
Porque o Fusca a gente vendia para qualquer faixa etária, situação
econômica ou social. Era um veículo versátil. Um advogado podia ir
trabalhar de Fusca e um jovem podia ir para a escola de Fusca. Outra
coisa que a concorrência apanhava da gente era em relação a valor de
revenda. Quando você compra um carro, você quer saber quanto ele vai
desvalorizar depois. Há o exemplo de um anúncio com a foto rasgando o
carro ao meio e o texto: “Quanto ele valeria se não fosse um
Volkswagen?”
AG – Na sua opinião a publicidade era
mais fácil porque não havia tanta concorrência ou era mais difícil
porque o carro não tinha tantos recursos?
Alex – Era mais fácil porque não tinha concorrência e porque
era líder absoluto de mercado, era um carro absolutamente aceito pela
sociedade.
AG – Como foi seu encontro com a conta da
Volkswagen?
Alex – Bem, quando eu voltei dos Estados Unidos, fui trabalhar
no Mappin novamente. Alguém me procurou de uma agência pequena, que
tinha nove pessoas, dizendo que estava entrando em uma concorrência,
me convidando para fazer uma campanha free-lance. Perguntei
qual era o produto e era Volkswagen. Falei: “Só se vocês me deixarem
fazer uma coisa que eu vi em Nova York”.
Deixaram, e a agência ganhou a conta. Aí ligaram de volta dizendo que
estavam acusando, dizendo que o cara que fez a campanha não trabalhava
na agência. Aí me convidaram para trabalhar lá, insistiram. Aceitei
com a condição de trabalhar em dupla, com um diretor de criação forte,
mandando tanto como o dono da agência. Aí fui e comecei a fazer, em
1960, direção de criação e trabalhar em duplas. Começamos a pegar uma
conta atrás da outra.
AG – Você atribui à propaganda a
liderança do Fusca nesses anos todos?
Alex – Ah, sim. Já existe até um anúncio que diz que o
Fusca foi o carro que ensinou o Brasil a fazer propaganda.
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Mas existe também o caso de versões que
não pegaram, como a com teto solar, por causa do “Cornowagen”. O Rio
de Janeiro apelidou o carro dessa forma e não teve jeito.
AG – Na sua opinião, quando o público
começa a chamar de um jeito, não há propaganda que faça mudar?
Alex – Sim. Veja o próprio nome. No Rio Grande do Sul e
no Rio eles chamavam o carro de Fusca e não de Volkswagen Sedan. E a
fábrica teve de se dobrar.
AG – Você se lembra de algum anúncio de
carro que marcou?
Alex – Tem um filme do Passat, aquele antigo, que a gente vê de
fotos do Iraque. O carro está em uma estrada e atrás vem vindo um
Porsche querendo passar e não consegue. Quando a cena corta para a
lateral dos dois carros, o Passat está rebocando o Porsche e entrando
em um posto de gasolina. Aí o anúncio diz algo como “Precisamos ser
honestos: nosso carro é muito bonito, mas não é um Porsche”. Essa
coisa era simpática.
AG – Que tipo de carro é fácil e difícil
de vender?
Alex – Existem carros injustiçados. O Subaru, por exemplo, é um
excelente carro, mas não tem imagem. Porque quem representa o Subaru
no Brasil é um revendedor, não é alguém que cuide da marca. É alguém
que vende carro, que é a Caoa. A atmosfera que se cria em torno de um
produto é o que faz a mística.
Se você mostra à sua mãe ou à sua avó um papel branco, com pó branco,
dizendo que é Maizena, ela diz que não é. Ela vai dizer: “Maizena vem
em uma caixinha amarela, tal”. Tem a mística. O papa não pode usar
nossa roupa elegante, ele tem de ter a embalagem de papa. Sabe quando
vão desenhar novas sandálias Havaianas? Nunca! Ela é assim, desse
jeito. Automóvel tem um pouco disso.
AG – O consumidor entende quando o
anúncio tenta vender recursos eletrônicos?
Alex – Quanto mais sofisticado é o carro, mais é preciso
explicar.
AG – E propagandas que dão mau exemplo,
como automóveis correndo acima dos limites permitidos?
Alex – Existe uma recomendação de não sair lascando. Fizemos
uma propaganda do Passat em que o guarda pára o carro, e o dono diz:
“Seu guarda, esse carro faz de 0 a 100 km/h em três segundos” etc. Ou
seja, fala tudo o que tem de falar, mas com o carro parado.
AG – Hoje as propagandas falam muito de
porta-objetos, de bancos que deslizam, de espaço interno. Estão
parando de vender pela emoção para vender pela razão?
Alex – Carro tem uma carga emocional violenta. Houve uma época
de inflação em que um ministro foi para a TV para recomendar que as
pessoas não comprassem supérfluos. Aí eu estava na via Anchieta e
passou por mim um caminhão com umas calotas enormes nas rodas. Pensei:
“Puxa, para entregar peixe não sei aonde, não precisava dessas
calotas. É supérfluo”.
Aí eu ia passando no Canindé e vi uma fábrica de calotas. Parei para
perguntar como era feita e o dono me explicou. Ele tinha dois carros,
filhos na faculdade. Aí descobri que o ministro estava falando
besteira, porque 70% a 80% das compras que fazemos são emocionais. Se
você deixar de comprar supérfluos, você quebra o país ao meio. O que é
uma compra racional? Voltando ao caminhão, eu acho que aquele
caminhoneiro tem todo o direito de chegar às cidades com as calotas
brilhando. É uma compra emocional. E se deixasse de comprar, mexeria
na economia inteira.
AG – Qual é a sua opinião a respeito de
um presidente ir à TV recomendando fazer uma avaliação do carro, como
a Ford fez com o Antonio Maciel Neto?
Alex – Ele copiou o [Lee] Iacocca, que foi um talento. Fez o
Mustang. Só por isso já valeu ter vivido, pois é um carro que está no
imaginário coletivo. Quando ele assumiu a Chrysler, foi à TV dizer:
“Se você achar um carro melhor do que esse, compre”. Foi o que o
Maciel disse, “Deixe um Ford surpreender você”. Ele só tinha essa
saída. |