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Entrevista
"Com a quebra
de concessionários, fábricas agora só entregam o que eles pedem"
Francis Maris Cruz
Diretor-presidente do Cometa Moto
Center, vice-presidente da Fenabrave (Federação Nacional da
Distribuição de Veículos Automotores) e diretor regional da Assohonda
(Associação Brasileira de Distribuidores Honda)
Autogiro – Na sua opinião, todo esse
otimismo com o crescimento tem razão de ser? Ou seja, é algo que veio
para ficar ou só mais uma bolha?
Francis Maris Cruz – Eu acredito que seja duradouro, pois não
há fato novo para ser uma bolha. Não houve liberação de dinheiro, nem
taxa de juros que ficaram mais baixas de repente. Realmente é a
economia que está estabilizada. As pessoas estavam com medo, o governo
está conseguindo manter o equilíbrio fiscal e tudo isso está fazendo
as coisas melhorarem.
AG – Mas as pessoas estavam até agora
guardando dinheiro?
Cruz – Não diria isso, pois a maioria das compras ainda é
financiada e por meio de consórcio. Essas formas respondem por algo em
torno de 70%. Motos chegam a ser vendidas 80% por consórcio. Só 10%
das vendas acontecem à vista.
AG – Você pode nos explicar o que é o
grupo Cometa? Tem muita gente que deve achar que é aquela empresa de
ônibus...
Cruz [risos] – Tudo bem, não tem problema. As pessoas confundem
mesmo. O grupo Cometa é um conglomerado de empresas do setor
automotivo. Temos autopeças, concessionárias Honda e Volkswagen,
instaladas basicamente nas regiões Centro-oeste e Norte.
AG – E por que, quando se fala tanto que
a economia está concentrada em Sul e Sudeste, você resolveu apostar no
interior do país?
Cruz – Ah, sabe aquela coisa de dupla sertaneja, de raízes?
Acho que é mais ou menos isso: meu lugar é aqui. Nasci em Lucélia, e
meus pais mudaram para Vicentina, perto de Dourado, no Mato Grosso.
Atualmente resido em Cáceres, perto do rio Paraguai, famoso por ser
uma região onde há muita pescaria. Fiz toda minha vida nessas regiões.
AG – E é possível crescer economicamente
mesmo não estando nos grandes centros?
Cruz – Acredito firmemente que a grande força do Brasil está no
interior. Mato Grosso hoje está estourando em soja, algodão,
bovinos... A próxima fronteira agrícola a ser desbravada é o Estado do
Pará. Nos grandes centros, muitos se formam e vão trabalhar como
vendedores e balconistas. Dá para ir muito longe como empreendedores
no interior
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do país. E há oportunidades melhores.
AG – Esse mercado de motos cresceu quanto
nos últimos anos?
Cruz – Nossa, muito. Em 1992 eram vendidas 50 mil motos
por ano. Agora chegamos a 72 mil em um mês. Isso falando apenas em
Honda. O que era anual já estamos praticamente dobrando por mês. Tem
crescido 10%, 11% ao ano. É um grande papel impulsionador da economia.
Primeiro pela falta de transporte coletivo na região. É economia, de
combustível, manutenção, tudo. Moto é mais rápida, ágil, econômica.
AG – E como o grupo entrou para o mundo
dos carros?
Cruz – Tínhamos a autopeças Cometa. Compramos uma
concessionária em Ariquemes, Rondônia. Mas os automóveis têm caído mês
a mês, com dificuldades. A Volkswagen era líder de mercado, mandava os
carros que ela queria. Cerca de 70% da rede quebrou, faliu ou trocou
de dono. Agora a fábrica está trabalhando melhor em parceria, vendendo
os carros que o concessionário pede. Mas nem sempre foi assim.
AG – O perfil dos consumidores do
interior do país também é diferente, não?
Cruz – Claro. Como nessa região 40 graus é fresquinho, as
pessoas preferem carros prata, brancos. Os automóveis também são os
mais rústicos. Por isso o Gol, por exemplo, tem enorme aceitação.
Quanto mais robustos, melhor. Renault, Peugeot e Citroën têm menos
penetração. Mas é normal que essas marcas também cresçam e se estendam
para toda a região.
AG – Como acontece essa diferenciação de
mercado que privilegia as quatro grandes [Fiat, General Motors,
Volkswagen e Ford]?
Cruz – No interior não há a presença tão forte das newcomers
[marcas que chegaram há menos tempo no país]. Nesse ponto as grandes
mantêm um forte mercado. Em Cáceres agora vão abrir uma Toyota. A
Honda também está se interiorizando. Cuiabá já tem todas as marcas...
A tendência é que todas se interiorizem. |