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Entrevista

"Quem sabe o que deve ser feito na empresa é a prata da casa"

Antonio Maciel Neto

Presidente da Ford Brasil e América do Sul, sobre a volta por cima da empresa nos últimos anos


Autogiro – A gente pode esperar para até o fim deste ano o anúncio de um novíssimo carro de entrada da Ford?

Antonio Maciel Neto – Nós estamos estudando um carro de entrada como uma possibilidade de aumentar a nossa participação de mercado. Até o final do ano, vamos tomar uma decisão sobre se vamos ou não. É um mercado muito importante, grande, onde podemos crescer na participação, pois nos outros segmentos nós já temos praticamente igual ou mais que a nossa concorrência.

Mas é um segmento de margens muito baixas. Temos de tomar muito cuidado para fazer os novos investimentos. Então, estamos estudando. Se até o final do ano tomarmos a decisão, ainda vão alguns anos para fazer o produto.

AG – Vai ser um carro com o estilo do Ka e com a aceitação mecânica e funcional do Fiesta Street?

Maciel – O Ka é um produto espetacular. Tem o melhor valor de revenda do mercado, é um produto que tem mais de 90% de lealdade. Quem tem um Ka quer comprar um novo. O Fiesta tem o espaço. Um carro de entrada, conceitualmente, tem de ter um design bom e o espaço no mínimo equivalente ao do Fiesta. Essa é que é a idéia.

AG – Você ainda tem dado autógrafo na rua por ter ido à TV falar dos carros da Ford?

Maciel – Está diminuindo à medida que o tempo passa. Já dei autógrafo no Salão do Automóvel. Mas aí é para pessoas que gostam muito de automóvel. Basicamente, as pessoas me falam: “Eu acho que te conheço de algum lugar”.

AG – O Fiesta Sedan vai ser lançado no mês que vem. É negativo para a Ford ter sido, entre as quatro grandes fábricas [Fiat, General Motors, Volkswagen e Ford] a primeira a mostrar e a última a lançar um carro com motor flexível? E vai haver algum elemento diferencial que você possa adiantar, como aperitivo?

Maciel – Do ponto de vista como você está falando, é ruim. Todo mundo já lançou, ou melhor, todo mundo não, mas as grandes... A nossa opção foi essa. Quando a gente lançar você vai entender por que a gente demorou um pouco mais.

AG – O carro já vem com gás natural veicular?

Maciel – Não, não vem com gás. Mas vem com um motor novo, de características muito interessantes.

AG – E vai ter versões de 1,0 litro e maior cilindrada?

Maciel – Não. Vamos começar com o flex 1.6.

AG – Como foi o encontro da Ford com a Bahia em aspectos culturais? Vocês sentiram alguma diferença em trabalhar no Nordeste?

Maciel – Foi uma mudança muito grande, diferente do ponto de vista de cultura. O desempenho da nossa fábrica aqui é espetacular. A grande diferença de uma área que já tem bastante experiência no setor metalúrgico e a área que não tem, estamos fechando esse gap com treinamento. Nós temos 900 horas de treinamento para cada pessoa que trabalha na fábrica.

AG – O pessoal se entusiasma com isso?

Maciel – Sim. Nós temos um público completamente diferente. É jovem, com 24 anos de idade média, 42% dos que trabalham na fábrica de Camaçari são mulheres.

AG – Você veio para a Ford há cinco anos com a fama de ser um executivo recuperador de empresas em crise. Quando entrou e viu o tamanho da encrenca, tinha uma noção clara do que deveria ser feito ano a ano? Como se desenha uma estratégia dessas?

Maciel – Há muito folclore em torno desse negócio. Quem sabe o que tem de ser feito na empresa é o pessoal da empresa, que está lá há 20 anos. É a prata da casa. A reestruturação da empresa foi feita basicamente pela

prata da casa da Ford. Meu papel é mais de coordenação, de entrosamento, de debate com o pessoal, de fazer as perguntas e de juntar o time.

Não existe nenhum processo de reestruturação de empresas de grande porte no mundo em que vá um exército de fora e faça a reestruturação. Isso é folclore. Existe em curtíssimo prazo. Chegar lá e cortar todos os custos qualquer um faz. Quero saber o que acontece depois. Você cortou todos os custos e depois não tem nenhuma receita.

O que quem vem de fora tem de fazer é se entrosar, aprender o que é a empresa, a cultura, e mudar, dar o que o pessoal não está vendo dentro, dando algumas orientações. Foi o que fizemos com a equipe.

A Ford hoje tem cerca de quase 8.000 pessoas. Temos 300 gerentes importantes. Eu conheço um por um, sei quem é, o que faz. Dedico mais de 30% do meu tempo para gente, pessoal, equipe. Conheço pelo nome, sei o que faz, converso com eles. Hoje falei com quatro. Vou conversar com mais dois ainda hoje.

Durante o test-drive [Maciel concedeu esta entrevista no sábado, 31, durante o jantar de lançamento do Ranger], levei três comigo para conversar. E não falo, não. Só escuto. Quando falo, falo o que já sei. Quando escuto, aprendo alguma coisa. Desses 300 caras mais importantes para a empresa, não há nem dez que tenham vindo de fora.

AG – Eu sempre quis perguntar uma coisa: como é que ninguém fez o EcoSport antes?

Maciel – Isso é o que explico para os gringos, lá nos EUA, como o jump of the cat, ou o pulo do gato. Nossa pesquisa é muito bem-feita. Todo mundo teve essa competência igual ou superior à nossa nesse ponto. A questão está na leitura da pesquisa. O pulo do gato é traduzi-la em produto.

O pessoal leu que deveria haver um carro maior, mais alto, com posição de dirigir mais alta, que pudesse trabalhar durante a semana e, no fim de semana, ir ao sítio ou à praia, com design bonito, mais robusto. Isso todo mundo leu. Nossos concorrentes lançaram seis minivans. Teve concorrente que lançou duas. Nós lançamos um utilitário esportivo.

A raiz foi fazer uma coisa diferente do que os concorrentes. Mas tem risco. A segunda coisa é o entendimento que a juventude brasileira está mais alinhada com os hábitos e costumes americanos do que europeus. O EcoSport é prova disso. Na Europa só tem minivan. Nos EUA não tem minivan [compacta como as produzidas no Brasil], mas só SUV.

AG – Já que você estava reclamando que ninguém falava de Ranger, vamos lá...

Maciel – Pois é. Dez e meia da noite e ninguém pergunta de Ranger...

AG – O título da minha reportagem no BCWS é uma brincadeira com uma música gravada pela Carmen Miranda, baseada no fato divulgado pela Ford de que o modelo foi desenvolvido por engenheiros brasileiros. Em vez de “disseram que eu voltei americanizada”, coloquei “disseram que eu voltei abrasileirado”. Justifica-se esse título?

Maciel – Sim, porque a Ranger teve essa reestilização baseada no conceito da F-150, só que toda feita aqui. Mas não é apenas obra de engenheiro brasileiro, mas de sul-americanos. Tem muito engenheiro argentino que participou desse projeto. Todo mundo sabe que o motor é sensacional, que ela é robusta etc. Mas ela estava havia seis anos sem mudar.

O mercado estava pedindo uma reestilização para seguir o DNA, a herança da Ford, melhorando o conforto, que é uma demanda de todas as picapes. A Ranger, que sempre liderou no motor, vai liderar também no espaço, no conforto, na suspensão e na dirigibilidade.

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Foto: Luís Perez

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