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Entrevista
"O carro
sempre funcionou como um tanque a mais de testosterona para os machos.
O cara se orgulha e se completa no automóvel"
Xico Sá
Escritor e jornalista, que não
dirige, mas tem boas histórias relacionadas a automóvel
Autogiro - Profundo conhecedor do
comportamento humano e sobretudo feminino, você se sente em
desvantagem por não dirigir e não poder ganhar as mulheres pela
potência do seu bólido, digo, carro?
Xico Sá - Claro que um sem-carro tem suas desvantagens,
principalmente quando ainda não tem grana para levar a moça de táxi. O
automóvel é um grande fetiche e está muito associado à conquista, às
paixões... Mas sempre procurei compensar o fato de não dirigir (tenho
um pânico feroz mesmo!) com romantismo e devoção. Já fui até pra motel
a pé com uma ex-namorada, ainda no Recife, e ela achou aquela atitude
linda. Meu amor tem quatro rodas para levá-las a qualquer lugar.
AG - Na sua opinião, como os "mal
diagramados" também têm seu valor, quais são os carros mais
horrorosos, porém capazes de conquistar as pessoas?
Xico - O meu pai, que sempre teve a vida muito ligada aos
carros -- foi mecânico e depois caminhoneiro --, tinha uma Rural
Willys inesquecível na minha vida. Eu achava uma coisa horrorosa, mas
o meu tio Nelson, já falecido, fazia misérias e pegava todas as
mulheres com essa mesma Ruralzinha. Hoje acho terríveis essas picapes
exibicionistas, como aquelas que fazem fila na frente das
churrascarias chiques como Rodeio e
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Esplanada Grill, mas sei que fazem
o maior sucesso com certo tipo de mulher, as marias-gasolinas peruas.
AG - Seus livros mencionam alguma
história referente à vida sobre quatro rodas?
Xico - No livro de crônicas Modos de Macho & Modinhas de
Fêmea (editora Record), conto várias histórias do gênero. Não só
de quatro rodas, mas das dez do Fenemê do meu pai. No recente Divina Comédia da Fama
(editora Objetiva), sobre a futilidade das ditas celebridades, falo
dos carros dos exibidos.
AG - Por que o homem às vezes se sente mais macho quando está ao
volante de um automóvel superesportivo e menos na condução de uma lata
velha ou a pé?
Xico - O carro sempre funcionou como um tanque a mais de
testosterona para os machos. O cara se orgulha e se completa no
automóvel. Conheço pessoas que deixam de comer para possuir um carrão.
O cinema americano influenciou muito nessa história, mas a sociedade
brasileira supervaloriza o automóvel de maneira anormal, o que faz com
que a classe média nunca tenha se preocupado de fato com o transporte
coletivo. Conheço várias pessoas que só entram em um ônibus ou metrô
quando vão a Nova York ou para a Europa.
AG - Na época em que você era um repórter
de política, que se celebrizou por ser o "carrapato" do PC Farias [Xico
trabalhou anos na Folha de S.Paulo, onde cobriu muitos fatos
ligados ao ex-tesoureiro de Fernando Collor], quais foram os modelos
que mais o impressionaram?
Xico - O PC e a família dele tinham concessionárias de
automóveis da Fiat e eram apaixonados por isso. Muitas vezes tinha que
encontrar esses meus entrevistados e fontes nesses locais. Lembro da
paixão de PC por Mercedes, como todo capo milionário.
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