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Entrevista
"Em condições
normais, a Fiat é líder. Não entramos em guerra santa, não compramos
mercado"
Cledorvino Belini
Superintendente da Fiat Auto na
América Latina
Autogiro – Qual é a sua percepção, em
seis meses no comando da Fiat, de ser um brasileiro entre tão poucos?
Das cinco maiores fábricas [Fiat, General Motors, Volkswagen, Ford e
Renault], só há o sr. e o Antonio Maciel Neto, da Ford. O que muda?
Cledorvino Belini – Não muda nada [risos]. É absolutamente a
mesma coisa. Tenho 32 anos de grupo Fiat em tratores, automóveis, na
holding, na Cofap, na Magneti Marelli [até assumir a Fiat,
Belini era presidente da Magneti Marelli Cofap]. Principalmente por
isso não muda praticamente nada.
AG – E ter um chefe como o Herbert Demel
[presidente da Fiat Auto], na Itália, que conhece tão bem o Brasil,
como é?
Belini – Isso ajuda bastante, porque as coisas são muito mais
rápidas. Não precisa explicar tanto. Ele já conhece a percepção, os
gostos, as preferências, as características do mercado. Ajuda bastante
na tomada de decisões.
AG – Existe uma responsabilidade,
preocupação ou até um estresse do tipo: “Somos líderes há três anos.
Temos de manter a liderança”?
Belini – Não existe esse estresse. O que existe é um objetivo
claro que eu dou ao comercial, a toda a rede, que é a liderança. Mas,
acima de tudo, há uma consciência e uma responsabilidade da
rentabilidade. Nossa percepção é simples: em condições normais, o
mercado prefere a Fiat. Um exemplo foi o mês passado. Com os produtos
que nós temos, em condições normais de mercado, ficamos quase 4.000 na
frente do concorrente.
AG – E o que são condições anormais?
Belini – É quando começa uma guerra santa. Não entro em guerra
santa. Não fazemos exageros, não compramos mercado. Disso não
participamos.
AG – Qual será a grande atração do Salão
de São Paulo, em outubro?
Belini – A própria Fiat [risos]...
AG – A Idea [minivan compacta que aqui
será baseada na plataforma do Palio] vai ser apresentada?
Belini – Não pretendemos ainda. É para o final do ano que vem.
Por isso não vamos colocar no salão. Não é oportuno ainda. Seria
antecipar demais um produto, criar uma expectativa e até frustrar se
não colocasse logo o produto. Temos vários lançamentos que estamos
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trabalhando. É difícil dizer qual vai sair
na frente. Estamos trabalhando.
AG – Carro
flexível
é a grande tendência?
Belini – Há uma tendência de crescer, sem dúvida. É um ovo de
Colombo o consumidor poder escolher, muda a relação de forças em
relação à energia. Fortalece o setor alcooleiro no Brasil. Na Fiat as
vendas já estão em 30%. No mercado, se não me engano, em 22%. Minha
expectativa é que nos próximos dois anos ultrapasse os 60%.
AG – Qual é o grande problema nos preços
dos veículos?
Belini – O problema do Brasil não é preço, é escala. O Brasil
ainda pode ter alguma vulnerabilidade. Se o preço do petróleo for para
US$ 80 o barril, é um risco para o país. Até US$ 45, está normal.
AG – O que representa um gargalo hoje na
produção de automóveis?
Belini - O gargalo não existe na produção, existe em
consumidores. Faltam consumidores. Se já vendemos 1,9 milhão de
automóveis e comerciais leves no Brasil, neste ano vamos falar de
vender 1,45 milhão, então não falta produção. Falta consumidor.
AG - Mas existem problemas localizados de
abastecimento...
Belini - Isso é normal, sempre existiram. Isso se resolve com
programas estáveis e credibilidade. Se de repente o mercado vai lá
embaixo, quem tem capacidade ociosa exporta.
AG - Houve uma proposta de modificar a
relação de impostos, taxando menos a fabricação e mais o uso do
automóvel...
Belini - No Brasil existe uma distorção: muito imposto na
aquisição, enquanto na Europa é menor na aquisição e mais no desfrute.
Essa é uma questão. Isso, para ser implantado aqui, é muito difícil.
Você vai ter de aumentar o preço da gasolina para reduzir o custo da
aquisição. É uma questão política muito difícil. Não existe negociação
nesse sentido. Aquilo foi uma demonstração de comparação de países.
São retratos. É muito difícil o Brasil mudar essa estrutura. |