Entrevista

"Os acidentes mais graves são provocados por pessoas autoconfiantes demais"

Cecilia Bellina

Psicóloga especializada em medo de dirigir


Autogiro – Na última semana, escrevi uma coluna dizendo que os idosos saem menos às ruas e morrem mais no trânsito. Isso pode fazer com que eles fiquem enclausurados, com medo?

Cecilia Bellina – Sim, isso pode criar mesmo o medo neles. Mas isso depende muito da personalidade do velhinho. Se ele for influenciável, uma pessoa que lendo uma reportagem pode ficar com medo de sair à rua, é pior. Há os que param e enfrentam. É preciso diferenciar o medo da fobia. O medo é uma emoção que o protege, que é muito bom estar dentro de você. Faz você ver o tamanho da arte que você vai fazer. A fobia é uma emoção que atrapalha a sua vida.

Quando você vai descer de um muro de dois metros, você vai fantasiar e não faz o que na realidade poderia fazer. A fobia acaba com a sua vida. Se o velhinho tem essas limitações, pois faixa de pedestre foi feita para enfeitar, ele não vai. Mas, se for medo, ele vai com mais cuidado. Se tiver fobia, começa a ficar dentro de casa. É comum no Brasil a pessoa idosa sentir-se um incômodo, achar que não serve para mais nada. Isso causa depressão, incapacidade, seqüelas da idade...

AG – O medo de sair às ruas é o mesmo que o de dirigir?

Cecilia - Sim. Se for um medo sadio, ele vai com mais cuidado. Mas se falar “ah, não vou porque tenho medo de estrada”, isso já é uma doença.

AG – E como se elimina o trauma?

Cecilia - É enfrentando. O que não significa sair à toda por aí. Ou seja, se você tem medo de assalto, não é sábio sair se aventurando em um lugar muito perigoso. Medo de dirigir se enfrenta gradativamente, para provar a você mesmo o que é fantasia e o que é real. Você consegue assim ver o tamanho da fantasia.

AG - Tem mais gente com medo de dirigir do que pensamos?

Cecilia - Cerca de 10% das pessoas habilitadas não dirigem. Mas não há estatísticas sobre quantos não o fazem por medo. Mas deve ter gente que nem a auto-escola freqüenta.

AG – Deve haver tem gente com medo com razão, completamente desastrada...

Cecilia - Tem, sim. E é bom que tenha medo, que não saia. Mas aí é falta de aprendizagem. Dirigir é uma aprendizagem como qualquer outra, como andar, escrever, falar. Aí tem uma falha. Essa falha traz muita fobia. O Detran te dá uma carta e diz que você é habilitado e você só faz besteira. Tem gente que acaba aprendendo. A auto-escola em geral só habilita a passar naquele exame porcaria. Quando eu a ensino a dirigir, o medo vai sumindo. A gente respeita a pessoa com as características dela, fazendo uma reaprendizagem nem que ela leve 200 aulas.

AG – O que é característico de quem tem medo?

Cecilia – Ah, é uma coisa legal: quanto menos você sabe fazer uma coisa, com mais cautela você faz. Se deu perda total no carro, melhor do que dar perda total na vida. Os velhinhos, as pessoas que têm menos confiança, podem bater, perder uma lanterna aqui, ali... Os acidentes com mortes são provocados por motoristas profissionais, por boys, por gente alcoolizada. Quem coloca os outros em risco são pessoas com muita autoconfiança.

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