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Nunca fui muito fã de um determinado elogio, que ouço desde criança:
"Puxa, como você é inteligente". Quando vindo de mulheres, eu o vejo
como uma forma de atenuar o fato de ser feio. Caso parta de algum
entrevistado, certamente sua intenção é tentar entorpecê-lo com a
própria vaidade (tradução: enrolá-lo). Se vem de um amigo, de novo não
vale. Afinal, é amigo e na certa está tentando lhe agradar.
Aproveitei o fim de semana em que não era possível viajar – em razão
de ser obrigado a exercer o dever cívico do voto – para me atualizar
em relação a tudo o que foi apresentado no Salão do Automóvel de São
Paulo, que terminou no último domingo. Foram poucos os lançamentos.
Parei então para assistir ao DVD com a entrevista do presidente da
Citroën do Brasil, Sergio Habib.
Qual não foi minha surpresa ao me pegar percebendo quase palpável,
durante a entrevista concedida ao jornalista Renato Acciarto, aquela
qualidade difusa dos que querem agradar, enrolar ou amenizar o fato de
não ser nenhum Reinaldo Giane... Bom, deixa pra lá. Depois de assistir
à entrevista, “gravada ao vivo” (ou melhor, corrida, sem edição), é
possível arranhar a superfície do que seria uma pessoa inteligente,
algo que as pessoas próximas ao executivo falam, mas que dificilmente
se manifesta de maneira tão clara.
Habib percorre com desenvoltura os labirintos dos números para
comprovar suas teses. Ele o faz com uma habilidade que tem tudo para
confundir os jornalistas – tão pouco familiarizados com as ciências,
por assim dizer, exatas (eis por que muitos jornalistas vão ser
jornalistas). Conta como, há 14 anos, transportou litros e litros de
gasolina brasileira ao aeroporto Charles de Gaulle, para ser testada
pelos franceses que pretendiam entrar no mercado nacional.
Com franqueza e realismo pouco comuns a dirigentes de empresas, diz
que a renovação da frota não vai acontecer. Por sua linha de
raciocínio – e por vezes repete "gente, estamos no Brasil!" –, os
acordos que seriam necessários com 50 mil oficinas (as responsáveis
pela inspeção) e com os desmanches (que teriam de dar garantias de que
a licença do veículo velho foi mesmo cancelada) são inviáveis em razão
da corrupção. Sem falar da integração dos Detrans (Departamentos
Estaduais de Trânsito), que, segundo ele (e com razão), "não consegue
cobrar em Porto Alegre uma multa de São Paulo porque os Detrans não se
falam".
Sem mencionar que, pelas contas do presidente da Citroën, a tal
renovação da frota vai deixar 20 milhões de pessoas a pé. "Governo que
aprovar isso nunca mais vai ser eleito", emenda. Sergio Habib não
deixou de abordar, na entrevista, fatos negativos, como o prejuízo em
que a empresa vem operando. "Nossa prioridade é rentabilizar a
operação e não aumentar market share, pelo menos por enquanto",
afirma. E sobre uma frase de meses atrás, que desdenhava os motores
flexíveis (comparando a um pato,
"que não voa direito, não anda direito e não nada direito"), Habib
mudou de opinião e admite: "O motor flexível é uma realidade, e eu vou
ter de engolir o pato".
Quando peguei o DVD nas mãos e vi que havia uma entrevista dentro,
juro que temi pela isenção. Que fosse um diálogo recheado de bolas
levantadas para Sergio Habib cortar. O primeiro sinal de que não
deveria ser assim veio antes de inserir o disco no aparelho: o fato de
o entrevistador ser Acciarto, editor da Gazeta Mercantil – um
profissional no mais exato significado da palavra.
Pensei em assistir apenas aos cinco primeiros minutos. Acabei vendo o
DVD todo, de uma vez, rindo às vezes com os pontos de vista de Habib
(com quem nem sempre somos obrigados a concordar). A gravação do DVD
foi uma jogada de mestre, que compensou a desastrada operação de
evacuar o Anhembi para a visita do presidente Lula, no dia 20 (leia
editorial), prejudicando a cobertura do salão.
É o que sempre digo: burocracia se combate com criatividade combinada
a uma adaptação rápida às novas tecnologias. Parabéns à Citroën.
O frio fora de época que fez em São Paulo, nos dias de imprensa do
salão, me fez esquecer dos anos anteriores, marcados pelo calor
intenso, que fez muita gente passar mal dentro do Anhembi. Parecia que
a história não ia se repetir. Parecia.
Sábado dei uma passadinha naquele formigueiro (o que me fez pensar que
já era hora de tentar aumentar o número de dias da exposição, para a
qual eram esperadas 500 mil pessoas) e o calor era intenso, coisa de
32° C. Quatro anos atrás tive de ouvir de um organizador que "ainda
não se manda em São Pedro". Tudo bem. Mas será que alguém manda nos
pais que levam bebês de colo àquele calor senegalês?
E por que não morri congelado no frio do Salão de Genebra, em março
deste ano? Simplesmente porque no Palexpo suíço há algo chamado
climatização. Coisa, ao que parece, que é privilégio do Primeiro
Mundo. Continua |

Por falar em Sergio
Habib - Não faltarão novidades da Citroën no próximo ano:
Xsara Picasso com motor 1,6 16V (que para o presidente da marca
pode canibalizar o 2,0 atual, apesar de a potência cair de 138
para 110 cv), C3 XTR (dependendo da reação do público no salão)
e motor flexível 1,6 para o C3 (até o final do ano).
Números 1 - A SsangYong aproveitou o salão para falar a
respeito de sua atividade no país, onde comercializa (com motor
Mercedes!) os modelos Musso, Musso Sport Pick Up, Korando,
Rexton e Chairman. De 2001 até este ano, comercializou 350
unidades.
Números 2 - O modelo mais vendido é o Musso (43,5%),
seguido por Korando (24,1%), Rexton (17,1%) e Musso Pick Up
(6,5%). A maior parte (27,7%) vai para Santa Catarina. Depois é
que vêm São Paulo (25,5%) e Rio Grande do Sul (13%).
Mais fora-de-estrada - Outra marca que procurou dizer ao
público a quantas anda foi a Cross Lander, que fabrica o jipe
CL244 e o picape CL330. Comandada por um novo grupo empresarial
desde maio, pretende ampliar os negócios no exterior. “Nosso
produto é muito competitivo lá fora”, diz José Francisco de
Oliveira Neto, diretor comercial.
Fora de cena - A Renault confirma que não está nos planos
da empresa lançar, nem em 2005, a nova geração da minivan Scénic
que já roda na Europa há algum tempo. Mais uma geração perdida. |
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