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Nesta semana o calendário entra no último mês do ano. Este colunista,
por sua vez, entra em uma fase meio introspectiva. Um pouco pela
proximidade do final de ano, outro tanto pela virada da idade, que por
erro de cálculo (ou inconseqüência mesmo) dos meus pais acontece
justamente no último dia do ano.
Fatos ocorreram nos últimos dias que me lembram cenas de filme:
pessoas desesperadas pela iminência de um acidente ou por um doente
grave na família. Não adianta. A tal evolução custa vidas, sacrifica
qualidade de vida, cobra alguns anos da juventude. Por mais que se
tente reproduzir as “circunstâncias reais” de determinado fenômeno,
com a ajuda de computadores, simuladores etc., a realidade sempre se
mostra imponderável. E a vida humana (mesmo a nossa própria)
infinitesimal.
Confesso aqui certa influência do fato de, paralelamente com o
exercício da atividade de jornalismo automotivo, estar editando uma
revista de aviação. Li anos atrás uma entrevista com o comandante
Rolim Amaro (que era o dono da TAM) na qual ele dizia que muitas vidas
humanas ainda seriam sacrificadas para prevenir outros acidentes
aéreos. Ficou chocado, caro leitor?
Pois isso ocorre em todos os campos (no automobilismo, na medicina, na
economia, na psicanálise...). Lembra a canção Almanaque, de
Chico Buarque (“Diz quem foi que fez o primeiro teto/ Que o projeto
não desmoronou/ Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto/ E o valente
primeiro morador”). Pois é. Depois que um automóvel é projetado e seu
protótipo, construído, os motoristas de teste saem às ruas e às
estradas para experimentá-lo em condições reais.
Ao que tudo indica, essa fase jamais será substituída. Milhões de
quilômetros são percorridos para que se avaliem as reações de
suspensão, freios, comportamento dinâmico, nível de ruído, rádio
ligado, rádio desligado. Os profissionais da indústria automobilística
chegam a ficar trancados no porta-malas para saber quanto do barulho
do motor vaza para aquele compartimento. Simuladores? Microfones?
Sensores? Bobagem! Não adianta fazer uso de eufemismos, tentar
abrandar a realidade tão simples que relutamos em complicar com
argumentos parabólicos: somos assim como ratos de laboratório cada vez
mais cobaias, tamanhas e tantas são as inovações.
Assim como no século passado o sistema psicomotor foi praticamente
transformado com o advento do automóvel (essa idéia não é minha e sim
de um meu ex-professor, o historiador Nicolau Sevcenko; mas não é
preciso ir muito longe para concordar com ela), o computador nos está
transformando em criaturas de extremos.
Se nos anos 80 e até meados dos 90, gerações como a minha haviam
perdido o hábito de escrever cartas, a violência nas grandes cidades
combinada com as facilidades da internet resgatou o hábito da escrita
(quantos de nós não nos pegamos escrevendo mentiras sinceras para
pessoas a quem bem queremos?) ao passo em que nos manteve com os dois
pés atrás. Escondido por trás de uma seqüência de cliques (“iniciar”,
“desligar o computador”, “desativar”), é possível encerrar uma
conversa que não nos agrada, pôr fim a um relacionamento (o qual não
temos coragem de fazê-lo pessoalmente), nos dedicar de corpo e alma
até que o modem nos separe...
Entramos no automóvel, fechamos a porta, damos a partida, engatamos
primeira marcha e partimos da mesmíssima forma que um dia aprendemos a
andar, abrir a porta de casa, acender a luz... Assim, naturalmente,
vamos nos moldando às inovações que foram feitas a princípio
exatamente para nosso bem-estar. O automóvel, assim como o computador,
representa uma espécie de armadura. Ao volante ou ao teclado, se
processa uma transformação.
O que é melhor, o que é pior? Simplista demais dizer que cidades “de
verdade” são ruas estreitas, repletas de praças e calçadas amplas,
hostis aos carros (de preferência cobrando pedágio), cada vez menos
bem-vindos nos grandes centros urbanos. Afinal, escolhemos essa vida.
E há muita gente que não vive sem infinitas highways – e olha
que não são os Engenheiros do Havaii.
Um belo dia Sevcenko, o professor, que morou muito tempo em Londres,
saiu para caminhar em uma cidade americana, dessas como Brasília, em
que não se vive sem carro. A polícia o abordou. Achou que fosse um
maluco, um maníaco depressivo ou algo que o valha, pois ninguém em sã
consciência sairia para caminhar à beira daquelas auto-estradas de
pelo menos quatro faixas de rolamento.
Onde termina o “ser normal” e onde começa a loucura? Até que ponto
sabemos que reações vamos ter em relação a determinadas ações? Em que
medida somos como aquele veículo que percorre milhões de quilômetros
antes de chegar às lojas, que será levado a limites que mais tarde
podem ou não, a alto custo, ser superados?
Tive outro dia uma longa conversa com Marcos Cesar Pontes, o único
astronauta brasileiro em atividade na Nasa, a agência espacial
americana. Ele me contou que, no espaço, o corpo humano perde massa
muscular e densidade óssea, sem falar na exposição à radiação. Com que
finalidade ele, uma pessoa superqualificada, será lançado ao espaço em
2006 (justamente quando é celebrado o centenário do primeiro vôo de
Santos Dumont)?
É um extremo, que traduz com perfeição quase absoluta, em uma
perspectiva histórica e científica, uma das razões pelas quais nos
primeiros automóveis não havia o conceito de suspensão com amortecedor
(ou seja, cada buraco virava um doloroso solavanco para o ocupante do
veículo), quanto mais de ventilação (os automóveis eram uma verdadeira
fornalha!). Por que duas ou três gerações atrás eram menos “cobaias”
do que nós? E em que espécie de ser humano essa espiral tecnológica
vai nos transformar? |

Haja álcool 1 - Deu
no Financial Times: com os modelos
flexíveis respondendo por um
terço das vendas, os investimentos na produção de álcool deram
um salto no Brasil.
Haja álcool 2 - Só que a reportagem alerta: a demanda
mundial pelo combustível pode aumentar ainda mais com o início
do programa colombiano. Sem falar de União Européia, Austrália e
Tailândia, que prevêem novos programas baseados em combustíveis
fabricados a partir da cana-de-açúcar.
Espírito natalino 1 - Até o dia 20 de dezembro, as
autorizadas Volkswagen vão promover a Revisão Solidária. O
cliente leva um quilo de alimento não-perecível à revenda e
ganha uma revisão de 27 itens em seu automóvel.
Espírito natalino 2 - A cada quilo de alimento recebido,
a VW doará mais um (o que dobrará o volume total). O que for
arrecadado será doado a entidades assistenciais indicadas pelas
próprias concessionárias.
Eu também tenho! - Foi só a Citroën lançar o C3 Stop &
Start no Salão de Paris que a Ford prometeu lançar o
Liga-Desliga no Fiesta híbrido. Feito pela Valeo, reúne motor de
partida e alternador em uma só peça. |
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Pequeno grande - É
colorido. Parece um chaveiro (e pode ser usado como tal). Só que
capaz de carregar 512 megabytes de dados, fotos e música. É o
Micro Mini Drive Iomega. Preço: R$ 756.
2005 vem aí - Já está nas bancas o Carros 2005,
especial da revista Quatro Rodas com mudanças,
lançamentos e versões de 182 modelos, ficha técnica e preço. Foi
editada por este colunista, com reportagens de Fabiano Pereira
(colaborador do BCWS) e Daniel Messeder. Preço: R$ 9,95. |
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