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Entrevista

"A Autolatina uniu um perneta da perna direita com outro da perna esquerda"

Hélio Perini

Gerente de Responsabilidade Social da Ford


Autogiro – Ouvi dizer que você é um patrimônio histórico da Ford. Nesses quase 30 anos de empresa, quais foram os fatos mais marcantes que você viveu na história da empresa?

Hélio Perini – Tive o privilégio de trabalhar em três momentos diferentes: antes, durante e depois da Autolatina, que foi a fusão da Volkswagen com a Ford. Foi um momento extremamente difícil em razão de uma diferença cultural entre as duas. E houve o advento do carro popular. O nosso presidente Maciel brinca muito com meu tempo de empresa, que são 29 anos. É um privilégio. Não havia campo de provas, não havia tanta tecnologia.

AG – Você entrou fazendo o quê?

Perini – Entrei em 1976 como engenheiro do desenvolvimento do produto fazendo testes especiais, que eram na estrada. O primeiro carro era o Corcel I, preparando o terreno para o Corcel II.

AG – A Autolatina durou de 1987 a 1995. Foi ruim desde o começou ou houve uma certa euforia?

Perini – Foi uma idéia interessante, pois você fazia uma economia de escala. Com duas grandes montadoras negociando no mercado, você conseguia baixar custo, melhores preços com fornecedores e uma margem maior. É lógico que tudo isso não pode ser por muito tempo, pois as estratégias das duas mudam. E você tem de pensar globalmente.

AG – O que houve para a dissolução?

Perini – Tínhamos um mercado reservado, uma economia diferente do que é hoje. Quando as duas se juntaram, a gente dizia que era um perneta da perna esquerda com outro da perna direita para poder caminhar. O mercado era extremamente difícil naquela época. A abertura trouxe novas oportunidades de negócios, e a Ford estava fazendo projetos na Europa. A fusão aqui comprometia essa troca de tecnologia, que não era interessante para a Ford. A ruptura houve por conta disso. A abertura de mercado decretou o fim da Autolatina. A reserva de mercado fazia com que as matrizes deixassem as gestões de negócios exclusivamente para decisões locais.

AG – Isso prejudicou bastante a Ford, não?

Perini – Sim, porque a Ford era reconhecida por veículos de topo, de segmento avançado, de nível social maior. E a Volkswagen era de veículos populares. Em 1990 tínhamos de 25% a 35% de mercado de carros de baixa cilindrada. A Ford não tinha participação nesse mercado, que mudou rapidamente. Hoje está na ordem de 73%.

AG – Você fez o lançamento do Corcel II. Depois veio o Del Rey, que era um desses exemplos de carros de topo, não?

Perini – Sim, ele usava a plataforma do Corcel, mas tinha uma série de argumentos

e atributos que o colocavam no segmento de topo. A Ford tinha o Galaxie, o Landau, o Maverick... Era reconhecida como uma organização que produzia veículos para o segmento de luxo.

AG – O Maverick acabou [em 1979] em razão da crise do petróleo?

Perini – Não, acabou porque tinha uma série de dificuldades, como disposição no banco traseiro muito ruim e não se adaptou no Brasil. Era de duas e depois fizemos quatro portas. Ficou um remendo no projeto.

AG
– Há carros injustiçados na linha hoje, como o Focus?

Perini – Acho que o Focus é pouco conhecido pelo consumidor. É um produto extremamente interessante, um equilíbrio de custo-benefício muito bom. Acho que, dos produtos que temos hoje, é o que temos maior valor agregado. Também tenho um Focus. É o carro da minha família, acho que é fantástico. Seu problema é agressividade para mostrar ao consumidor. Vamos fazer isso.

AG – Por que na Europa mudou, mas no mercado americano ele não mudou?

Perini – É uma questão de estratégia. O Focus ainda atende muito o mercado brasileiro. A Europa exige mais renovação sempre. Procuramos manter aqui na concepção que é nos EUA.

AG – Tem muita gente que não acredita na eletrônica, que acha que muito consumidor ainda põe a mão na massa...

Perini – Quem não gosta da eletrônica precisa começar a gostar, porque cada vez mais está presente na nossa vida. Em tudo: no computador, na sua casa, no celular, na câmera digital. É um novo passo e cada vez mais rápido.

AG – Há quanto tempo você cuida de responsabilidade social e por que ela existe?

Perini – Assumi a área em 2000. Hoje não basta fazer bons produtos e bons serviços. É preciso ter outro valor, intangível, agregado. Cada vez mais as tecnologias estão iguais. É preciso criar um diferencial, que é como a comunidade e a sociedade o vêem. É uma discussão ética, uma questão de ética. As empresas realmente incorporaram a idéia e entendem que, se não fizerem alguma coisa para que a gente tenha um mundo melhor...

O poder econômico pressupõe responsabilidade. É importantíssimo trabalhar com qualidade e responsabilidade social. Vamos ter duas empresas no futuro: as que fazem com qualidade e responsabilidade social e as que vão deixar de existir. O consumidor não admite mais trabalho infantil, empresa que polui... Por que vou escolher esse ou aquele? Porque contribui para a preservação do planeta. A Ford tem duas vertentes: educação fundamental e meio ambiente.

AG – O que se pode adiantar sobre o carro de entrada, o projeto do sucessor do Fiesta Street?

Perini – Normalmente não falamos de projetos futuros. Mas a Ford está estudando um carro de entrada, para ser feito em São Bernardo do Campo para daqui a um ano, um ano e meio. Precisamos ter isso. É um passo fundamental para a Ford no futuro: dar acessibilidade ao consumidor ter um automóvel.

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