Jornalismo e merchandising

Quando uma atividade nobre e útil se junta a uma
eficiente tática de propaganda, o resultado é o pior possível

por Bob Sharp

Acabo de ler o interessante livro O Código Da Vinci e uma coisa que me chamou a atenção foi a denominação clara dos veículos presentes na trama. Por exemplo, o carro do capitão da Polícia Judiciária francesa é um Citroën ZX. Outro usado num fuga em meio a uma trilha era um Range Rover. Ou o Audi preto do assassino. Ou o Smart da heroína, de caixa manual, que o herói, um americano habituado a carro com caixa automática, não consegue dirigir direito. Um Fiat serve ao bispo da contemporânea história. Na garagem de um milionário inglês, vários carros interessantes, até um Porsche 356.

Esses detalhes dão um quê de veracidade e tornam a história bem mais agradável, principalmente para quem aprecia automóvel. Quanto mais num livro de alcance mundial e de elevada tiragem — já foram vendidos 10 milhões de exemplares em todo o mundo, segundo a editora da versão brasileira, a Sextante. E baseado no livro será produzido um filme, já tendo sido escolhido o ator para personificar o tal americano: Tom Hanks.

Essa técnica de anunciar, o merchandising, que tem seu indiscutível valor, é muito usada no cinema e na televisão. Só que precisa ser bem dosada, discreta, senão fica pesado, uma coisa desagradável. A nossa dileta TV Globo é useira e vezeira em forçar a barra com o merchandising nas novelas, como mostrar alguém que vai pagar uma contas pela internet e aparecer o monitor com o nome do banco, para que não fique dúvida qual é. Fica evidente nesses casos a roteirização para fins comerciais.

Em O Código Da Vinci isso é feito de maneira natural, sem chocar. Caso de um determinado momento em que a bibliotecária preparava um Nescafé instantâneo para os dois visitantes-heróis da história. Ou ter sido citado o café brasileiro, de maneira elogiosa, numa outra parte. Tudo isso, mais a maestria com que escreve, dá um colorido especial à obra de Dan Brown.

Se o autor usou o merchandising para auferir mais, está dentro de seu pleno direito. Mas o fez com classe e sobretudo respeito aos seus leitores, dando ainda mais riqueza à história. Como ao especificar a marca de um jato executivo, o Hawker 731.

Justiça seja feita: a emissora líder acerta também. Caso da novela Mulheres Apaixonadas, em que os mais variados automóveis apareciam na história da maneira mais natural possível e que foram muito bem retratados na coluna "Mulheres motorizadas", de meu colega Luís Perez, uma de suas primeiras publicadas neste BCWS, em agosto do ano passado. Nesse caso, um merchandising bem-feito.

"Um supermercado..."
Vou aproveitar para fazer uma crítica ao jornalismo da TV Globo, que pode passar despercebido por alguns leitores. É inaceitável que uma notícia seja dada pela metade — isso constitui um desrespeito ao telespectador, ouvinte ou leitor. Dizer, por exemplo, que “um supermercado na cidade x abaixou os preços e formou-se uma colossal fila...” é fazer qualquer um de bobo se o nome do estabelecimento deixa de ser informado. Há algum tempo o Shopping Ibirapuera teve um alarme de bomba, que felizmente era falso. Adivinhe o leitor: “Alarme de bomba num shopping center na Zona Sul de São Paulo obrigou a sua evacuação”. Isso tem nome: deboche. Ou gozação, se o leitor preferir.

O pior de tudo é que o nome do centro de compras poderia ter sido citado — tivesse pago para isso. Isso mesmo: pago.

Vou dar um exemplo que vivenciei. Quando eu dirigia o departamento de Competições da Volkswagen, de 1984 a 1988, nosso principal empenho era no Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos. Num dado momento, segundo ano, acho, a Shell passou a patrocinar o certame, que passou a se chamar Copa Shell de Marcas e Pilotos, sob forma de transmissão pela tevê. Que ótimo! — pensamos todos, fabricantes, pilotos e preparadores.

Na primeira prova transmitida, o resumo do resultado apareceu na tela, com os pontos de cada piloto. Como o campeonato era de marcas e pilotos, ficamos perplexos quando nada foi dito dos resultados quanto às marcas. Pois não é que na semana que se seguiu chegou uma carta da TV Globo propondo pagarmos para ter o nome da marca e modelo informados no resultado de cada prova? Não me lembro quanto, mas era uma exorbitância, e evidentemente demos um solene não! à emissora. Ou seja, queriam receber para dar notícia. Pior, de uma cobertura televisiva que ela estava sendo paga pela Shell para realizar. Vergonhoso.

Jornalismo não combina com merchandising. Se juntos, isso tem nome: picaretagem.
 



Esta é a minha última coluna de 2004. Agradeço a sua atenção, leitor ou leitora, e espero ter-lhe proporcionado, por mais um ano, a minha visão do banco do motorista — seja ao esclarecer dúvidas, apontar falhas em nosso sistema de trânsito, revelar certos problemas nos veículos ou procurar mostrar o futuro sobre rodas.

Desejo-lhe e à sua família um Feliz Natal e um Ano Novo repleto do melhor, contando nos reencontrarmos aqui no próximo dia 8 de janeiro.

Até lá.

Colunas - Página principal - Escreva-nos - Envie por e-mail

Data de publicação: 18/12/04

© Copyright - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados