Foi
um leitor, Paulo Roberto de Miguel, que me sugeriu escrever sobre o
“bração pra fora” (suas palavras), o que o incomoda — e a mim também.
Ele associa, com razão, a atitude de colocar e manter o braço para fora
a dirigir de maneira displicente. Sobretudo, contraria um dispositivo do
Código de Trânsito Brasileiro, o Art. 252 Inciso I, o que enseja
autuação de natureza grave e leva a débito de cinco pontos na carteira
de habilitação e multa de R$ 127,69.
Certas observações estão sujeitas a ser tachadas de preconceito, caso de
dirigir com o braço para fora. Não é que todo aquele que o faça tenha
comportamento inadequado diante de seus pares de banco do motorista, mas
fato é que as chances são grandes. Bons motoristas não costumam ter esse
hábito. Até mesmo por uma questão de segurança — o que vale para
qualquer ocupante, principalmente crianças, que adoram pôr mãos e braços
para fora.
Há cerca de cinqüenta anos, um amigo dirigia seu
Renault 4CV, o famoso Rabo Quente, numa
importante avenida de mão dupla do Rio de Janeiro, a Niemeyer. A pequena
tampa do porta-malas, que ficava na dianteira, abriu-se repentinamente e
ele, que era bem alto, estendeu o braço para fora na tentativa de
baixá-lo, em vez de parar o carro e fazer isso de fora. O pequeno carro
desviou ligeiramente rumo à contramão e vinha um caminhão em sentido
contrário. Houve o raspão e seu braço foi arrancado. Na época os
reimplantes de membros ainda eram incipientes e meu amigo — prefiro
omitir seu nome —, ainda bem jovem, perdeu o braço numa bobagem.
Esse triste fato ficou marcado para sempre em mim, ainda por completar
18 anos, e nunca mais nem mesmo apoiei o braço na janela, pois uma lesão
de cotovelo também é séria. Se o carro não tiver um conveniente apoio de
braço na minha porta, repouso o braço sobre a perna esquerda.
Dirigir com uma só mão
O leitor Paulo Roberto falou em seu e-mail na necessidade de usar as
duas mãos para dirigir. É evidente que, ao contrário dos primeiros
carros do fim do século 19 e início do 20, cuja direção era acionada por
um comprida alavanca, o volante de direção prevê o uso das duas mãos.
Mas essa necessidade, dos pontos de vista técnico e ergonômico,
prende-se a determinados momentos da condução apenas. Por exemplo, virar
o volante mais que meia volta com apenas uma mão não é aconselhável para
a maioria das pessoas. Mas para dirigir em reta, com pequenos desvios
apenas, basta uma mão.
Há dois fundamentos em tal afirmação. Primeiro, todo sistema de direção
tem o que se chama de efeito auto-estabilizante, ou seja, o carro quer
sempre andar reto. Isso é conseguido pela geometria de direção,
especificamente os ângulos de cáster e inclinação do eixo de direção, e
pelo próprio torque auto-alinhador dos pneus. Segundo, há muito que os
automóveis mantêm a reta imperturbáveis ao atingir um buraco ou
obstáculo no asfalto — exceção feita quando se dirige fora da estrada,
em que os desníveis do leito carroçável costumam ser enormes. Ainda,
pertence ao passado o famoso estouro de pneu. Por isso, ao se dirigir
calmamente pode-se usar uma das mãos apenas, e duvido que alguém nunca
tenha feito isso — que me perdoe o Paulo Roberto.
Mas dirigir rápido também é possível como uma das mãos: o meu amigo do
4CV continuou a dirigir carros de caixa manual com vigor e um austríaco
chamado Otto Mathé fez o mesmo, inclusive pilotando em corrida com um
Porsche 356. Como o braço perdido
foi o direito, a fábrica montou um modelo com volante na direita, de
maneira a permitir trocas de marchas com a mão esquerda.
Como teria começado
É difícil explicar como e quando teria começado o “bração pra fora”,
como aliás tantos outros hábitos, porém o mais provável é que tenha se
originado em razão das altas temperaturas médias por essas bandas. Seria
impensável andar com janelas abertas num inverno rigoroso típicos de
altas latitudes (norte e sul), muito menos colocar o braço para fora.
Talvez a passagem dos carros apenas conversíveis (phaetons e
double phaetons) para os fechados, que se intensificou a partir da
década de 1930, tenha levado motoristas a sentir mais calor. Braços e
pernas, como se sabe, são os “radiadores” do corpo e têm grande
influência em nossa sensação térmica, e expor o braço na corrente de
vento ajuda a sentir menos calor.
Outra explicação plausível é deixar o braço pronto para usar como
indicador de direção, num tempo em que luzes direcionais ou setas
semafóricas não existiam ou eram item de luxo. Aliás, é bom lembrar que
a sinalização por meio do braço continua valendo no código de trânsito
atual. Por fim, e conjugado com a busca em arrefecer o corpo, uma
maneira de segurar o cigarro para que a fumaça não incomodasse os
passageiros, braço para fora e mão semi-cerrada, ponta acesa escondida,
para o vento não apagar o cigarro.
Dirigir com o braço para fora pode não fazer ninguém bater em condições
normais. Mas, em uma situação de emergência, o tempo de trazer o braço
lá de fora e pousar a mão esquerda no volante pode ser a diferença entre
haver ou não acidente. Sem contar o elevado risco de um trauma no
membro.
Por isso, o “bração pra fora” é um (mau) hábito a ser combatido pelo
motorista e coibido por quem é incumbido de controlar o trânsito de uma
determinada região. E obrigado, leitor Paulo Roberto.
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