O
leitor já deve ter notado que não existe equipamento de detecção de
velocidade nas subidas e poucas vezes estão presentes nos trechos
planos. Nessa situação, está estrategicamente colocado no início de zona
de velocidade inferior à zona anterior, ou seja, após uma placa de 100
km/h se o trecho anterior é de 120 km/h. Agora, se é descida, pode
esperar que existe um olho eletrônico à espreita. Acho que muitos
leitores já tiveram essa amarga experiência. Um descuido com o
velocímetro e basta para receber a notificação da autuação.
Por isso, o prazeroso (para muitos) ato de dirigir está se transformando
num dissabor diário e constante. É preciso ficar mais atento ao ponteiro
que indica velocidade do veículo do que a qualquer outro instrumento ou
ambiente interno ou externo. Está surgindo uma nova neurose, o medo de
exceder o limite de velocidade e tomar uma multa. Uma evidência disso é
a maioria dos motoristas passar a 20 km/h por uma lombada eletrônica de,
digamos, 40 km/h. Acontece todo dia. Há um túnel em São Paulo cujo
limite é de 50 km/h e, em sua entrada, sempre há algum congestionamento
pelo mesmo motivo.
Não vá o leitor achar que sou rebelde, contra o controle de velocidade.
Ele é necessário, sobretudo na cidade. Mas isso não autoriza ninguém —
pelo menos do ponto de vista moral — que seja encarregado da
fiscalização a criar “armadilhas de velocidade”, com o intuito
escancarado de auferir. Isso constitui um desrespeito incontestável ao
cidadão. A “armadilha” é justamente estabelecer uma velocidade irreal,
hipócrita, difícil de manter de tão baixa. Outro dia vi um radar montado
num viaduto (na descida, claro) de 60 km/h de limite. Estava na pista
contrária àquela em que eu ia e vi o flash acender duas vezes naqueles
breves segundos. Não me pareceu que os dois motoristas estivessem
dirigindo alucinadamente.
A Imigrantes
O BCWS, como site de internet, tem abrangência mundial e
exatamente por isso procuro evitar de falar sobre questões locais, mas
há um assunto que gostaria de abordar de novo. É o trecho de descida da
Rodovia dos Imigrantes que, junto com a Via Anchieta, une o planalto
paulistano ao litoral. Uma obra descomunalmente bela e arrojada,
inaugurada há pouco mais de dois anos com a promessa de resolver por
vários anos — décadas — os problemas de tráfego que afligiam centenas de
milhares de motoristas saía ano, entrava ano.
O que mais se comentou na época era que o novo trecho era
incomparavelmente melhor que o antigo, de subida, aberto ao tráfego
quase 30 anos atrás. Esse trecho costumava ser usado no sentido litoral
na chamada operação descida, adotada principalmente em épocas de grande
movimento, como fins de semana prolongados por feriado ou Carnaval. O
limite de velocidade era, então, 100 km/h, plenamente adequado ao
traçado da rodovia e à sua declividade — 6%, desce seis metros para cada
100 metros horizontais. Em muitas ocasiões adotou-se a mão dupla na
rodovia, uma faixa para descida e duas para subida. Isso quer dizer que
a coluna de veículo se deslocava a 100 km/h em uma única faixa de
rolamento. E nunca houve nenhum problema resultante disso.
Portanto, o novo trecho, de mesma declividade em relação ao antigo e
mais moderno, inclusive com menos curvas, criou a expectativa de viagens
seguras e rápidas, feitas pelo menos à mesma velocidade a que todos
estavam habituados. Mas, uma vez aberta ao tráfego, ninguém entendeu: a
velocidade-limite era (e é) de 80 km/h. É tão baixa que se torna difícil
mantê-la.
É olho pregado no velocímetro nos 11,48 quilômetros de descida, dos
quais 8,23 km são túneis (três). Fica-se alternando freneticamente a
vista entre retrovisores e velocímetro, precisando tocar no pedal de
freio várias vezes — em praticamente numa reta. Usar marcha inferior não
resolve, pois o efeito do motor frear é excessivo, obrigando a acelerar.
É aquela velocidade em que não se pode contar com a resistência
aerodinâmica para ajudar a “segurar” o carro, de tão baixa. É, com
certeza e ironicamente, uma das estradas mais difíceis de se dirigir.
A concessionária da rodovia, a Ecovias, por seu assessor de imprensa,
disse a esse colunista certa vez que os freios dos automóveis se aquecem
perigosamente ao trafegar a 100 km/h, conforme apontaram estudos e
testes. Que até calotas se derretem, tamanho o calor gerado. Diante de
tamanha estupidez não houve mais o que argumentar.
Recentemente o comando da Polícia Militar Rodoviária encarregada do
policiamento da Via Anchieta, Rodovia dos Imigrantes e outras que
compõem o chamado Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) divulgou nota dando
conta que no Carnaval, pela primeira vez na história, não se registrou
nenhuma morte naquele complexo rodoviário. Palmas para eles e para todos
nós, evidentemente... Mas garanto que não foi pelos 80 km/h naqueles
11,48 km. Não dá para admitir que numa rodovia moderna, comparável às
melhores do mundo, projetada para 110 km/h, cabeças tortas tenham
decidido que ali só se anda a 80 km/h.
Quanto será que o Estado de São Paulo fatura com essa superarmadilha de
velocidade? Um dia descubro.
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