Medida irresponsável

O controle da velocidade, da maneira como vem sendo feito,
prejudica o cidadão e não reduz o número de acidentes

por Bob Sharp

O leitor já deve ter notado que não existe equipamento de detecção de velocidade nas subidas e poucas vezes estão presentes nos trechos planos. Nessa situação, está estrategicamente colocado no início de zona de velocidade inferior à zona anterior, ou seja, após uma placa de 100 km/h se o trecho anterior é de 120 km/h. Agora, se é descida, pode esperar que existe um olho eletrônico à espreita. Acho que muitos leitores já tiveram essa amarga experiência. Um descuido com o velocímetro e basta para receber a notificação da autuação.

Por isso, o prazeroso (para muitos) ato de dirigir está se transformando num dissabor diário e constante. É preciso ficar mais atento ao ponteiro que indica velocidade do veículo do que a qualquer outro instrumento ou ambiente interno ou externo. Está surgindo uma nova neurose, o medo de exceder o limite de velocidade e tomar uma multa. Uma evidência disso é a maioria dos motoristas passar a 20 km/h por uma lombada eletrônica de, digamos, 40 km/h. Acontece todo dia. Há um túnel em São Paulo cujo limite é de 50 km/h e, em sua entrada, sempre há algum congestionamento pelo mesmo motivo.

Não vá o leitor achar que sou rebelde, contra o controle de velocidade. Ele é necessário, sobretudo na cidade. Mas isso não autoriza ninguém — pelo menos do ponto de vista moral — que seja encarregado da fiscalização a criar “armadilhas de velocidade”, com o intuito escancarado de auferir. Isso constitui um desrespeito incontestável ao cidadão. A “armadilha” é justamente estabelecer uma velocidade irreal, hipócrita, difícil de manter de tão baixa. Outro dia vi um radar montado num viaduto (na descida, claro) de 60 km/h de limite. Estava na pista contrária àquela em que eu ia e vi o flash acender duas vezes naqueles breves segundos. Não me pareceu que os dois motoristas estivessem dirigindo alucinadamente.

A Imigrantes
O BCWS, como site de internet, tem abrangência mundial e exatamente por isso procuro evitar de falar sobre questões locais, mas há um assunto que gostaria de abordar de novo. É o trecho de descida da Rodovia dos Imigrantes que, junto com a Via Anchieta, une o planalto paulistano ao litoral. Uma obra descomunalmente bela e arrojada, inaugurada há pouco mais de dois anos com a promessa de resolver por vários anos — décadas — os problemas de tráfego que afligiam centenas de milhares de motoristas saía ano, entrava ano.

O que mais se comentou na época era que o novo trecho era incomparavelmente melhor que o antigo, de subida, aberto ao tráfego quase 30 anos atrás. Esse trecho costumava ser usado no sentido litoral na chamada operação descida, adotada principalmente em épocas de grande movimento, como fins de semana prolongados por feriado ou Carnaval. O limite de velocidade era, então, 100 km/h, plenamente adequado ao traçado da rodovia e à sua declividade — 6%, desce seis metros para cada 100 metros horizontais. Em muitas ocasiões adotou-se a mão dupla na rodovia, uma faixa para descida e duas para subida. Isso quer dizer que a coluna de veículo se deslocava a 100 km/h em uma única faixa de rolamento. E nunca houve nenhum problema resultante disso.

Portanto, o novo trecho, de mesma declividade em relação ao antigo e mais moderno, inclusive com menos curvas, criou a expectativa de viagens seguras e rápidas, feitas pelo menos à mesma velocidade a que todos estavam habituados. Mas, uma vez aberta ao tráfego, ninguém entendeu: a velocidade-limite era (e é) de 80 km/h. É tão baixa que se torna difícil mantê-la.

É olho pregado no velocímetro nos 11,48 quilômetros de descida, dos quais 8,23 km são túneis (três). Fica-se alternando freneticamente a vista entre retrovisores e velocímetro, precisando tocar no pedal de freio várias vezes — em praticamente numa reta. Usar marcha inferior não resolve, pois o efeito do motor frear é excessivo, obrigando a acelerar. É aquela velocidade em que não se pode contar com a resistência aerodinâmica para ajudar a “segurar” o carro, de tão baixa. É, com certeza e ironicamente, uma das estradas mais difíceis de se dirigir.

A concessionária da rodovia, a Ecovias, por seu assessor de imprensa, disse a esse colunista certa vez que os freios dos automóveis se aquecem perigosamente ao trafegar a 100 km/h, conforme apontaram estudos e testes. Que até calotas se derretem, tamanho o calor gerado. Diante de tamanha estupidez não houve mais o que argumentar.

Recentemente o comando da Polícia Militar Rodoviária encarregada do policiamento da Via Anchieta, Rodovia dos Imigrantes e outras que compõem o chamado Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) divulgou nota dando conta que no Carnaval, pela primeira vez na história, não se registrou nenhuma morte naquele complexo rodoviário. Palmas para eles e para todos nós, evidentemente... Mas garanto que não foi pelos 80 km/h naqueles 11,48 km. Não dá para admitir que numa rodovia moderna, comparável às melhores do mundo, projetada para 110 km/h, cabeças tortas tenham decidido que ali só se anda a 80 km/h.

Quanto será que o Estado de São Paulo fatura com essa superarmadilha de velocidade? Um dia descubro.

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Data de publicação: 5/3/05

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