É
lugar-comum há muitas décadas uma linha de modelos ser oferecida em
várias versões, de maneira a serem atendido todos os gostos e,
principalmente, bolsos.
Uma exceção a essa regra era o Volkswagen “besouro”, que começou em 1945
a ser produzido com exatamente os mesmos desenho e especificações de
antes da guerra e, quatro anos depois, foi modificado para ficar mais
atraente e ganhar novos mercados. Mas o motor permaneceu o mesmo
quatro-cilindros horizontais opostos
de 1.131 cm³ e 25 cv por muitos anos, depois evoluindo para 1.192 cm³ e
30 cv. Só uns vinte anos depois é que começaram a chegar motores de
maior cilindrada.
Em razão da variedade de modelos hoje em dia, e chegando o momento do
lançamento, percebe-se claramente que muitos fabricantes preferem não
mostrar os motores menos potentes na apresentação à imprensa. A razão,
óbvio, é se acreditar que os jornalistas vão criticar as versões de
motor mais fraco. Ledo engano.
Quando a GM lançou o Omega no Brasil, em julho de 1992, chegou a cogitar
de não levar a versão de quatro cilindros, 2,0 litros e 116 cv para o
evento de lançamento, que foi em New Orleans, a simpática cidade do
Estado de Louisiana, nos EUA, famosa pelos blues. O motivo, é
claro, era o desempenho bem menor em relação ao seis-cilindros de 3,0
litros e 165 cv importado da Opel.
Só que este colunista, consultado por telefone, aconselhou-os a não
fazê-lo, pois significaria o carro nascer morto. Sugeri que avaliassem a
versão 2,0, com carga total, no campo de provas. Viram que andava
razoavelmente mesmo nessa condição e mudaram de idéia. As duas versões
foram submetidas à imprensa e aprovadas. Em seis anos foram produzidos
quase 100 mil Omegas, número considerável levando em conta a faixa de
mercado, e os de quatro cilindros (de 2,0 e mais tarde 2,2 litros)
responderam pela maior parte.
O resultado foi diferente para a Ford, então uma divisão da Autolatina,
quando do lançamento do Verona, em outubro de 1989. Como o leitor deve
se lembrar, o Verona existiu em versão 1,6-litro, com motor Ford AE-1600,
e 1,8-litro, utilizando o VW AP-1800. Quando os jornalistas se dirigiram
à área onde os carros de teste se encontravam, num luxuoso hotel em
Salvador, BA, viram que não havia o 1,6 para experimentar.
Claro, todos perguntaram o que havia acontecido para a versão 1,6 não
estar disponível. Uma tímida explicação pela assessoria de imprensa que
comandava a operação, de que não houve tempo necessário para aprontar os
carros, teve uma interpretação unânime: o carro não devia andar nada.
Resultado: um automóvel bom a seu tempo, que poderia ter sido sucesso,
nunca decolou. Inclusive ajudou a gerar, às pressas, o clone Apollo — e
em versão 1,8 apenas.
Eis que, bem recentemente, a Toyota incidiu no mesmo erro ao não dispor
a versão mais modesta, de 2,5 litros, do picape Hilux de nova geração
por ocasião da apresentação à imprensa, na Argentina. Certamente ficou
temerosa de que o motor menor, de 102 cv, fosse ofuscado pelo brilho do
3,0-litros de 163 cv.
Note-se que esses dois motores são de concepção moderna, com
injeção por duto comum de controle
eletrônico, duplo comando de válvulas e quatro delas por cilindro, ambos
são turboalimentados, apenas o menor não tem
resfriador de ar. Portanto, motores
que representam o autêntico estado-da-arte em diesel. Não havia
explicação e nem justificativa para que tal erro de estratégia se
repetisse 16 anos depois da desastrosa operação da Ford — que se redimiu
do erro.
Quando o novo Fiesta Sedan foi apresentado aos jornalistas em setembro
passado, em Foz do Iguaçu, PR, lá estavam o 1,0-litro, o 1,0 com
compressor (Supercharger) e o 1,6-litro
flexível à disposição de todos. Sem medo. Embora o 1,6 despertasse
maior interesse, por ter sido modificado para operar com álcool e/ou
gasolina, as demais versões permaneciam disponíveis para quem as
quisesse avaliar. O mesmo ocorrera no lançamento do EcoSport, em 2003:
todas as opções de motorização foram reunidas no evento em Manaus, AM.
É importante que os fabricantes entendam que não há demérito algum em
uma versão ser mais lenta do que outra. Há mercado para tudo, as
exigências dos consumidores são bastante variáveis. Por exemplo, muitos
não estão nem aí com o fato de carros de motor 1,0-litro desempenharem
menos que os de cilindrada entre 1,2 e 1,4 litro, como existem vários
hoje. Ou de desempenharem apenas um pouco menos, se o motorista entender
que motores menores requerem mais rotação e maior uso do câmbio. Para
quem não sabe, o Santana surgiu na Alemanha em 1981 com motores 1,3, 1,6
e 1,8-litro. Um Santana 1300!
No caso recente, o da Toyota, há um amplo universo de consumidores — a
fábrica certamente tem idéia exata de quantos são — que não faz questão
de aceleração e retomadas de velocidade emocionantes. Tudo o que querem
é rodar tranqüilamente e consumindo pouco diesel. Se o picape vai de 0 a
100 km/h em 13 ou 18 segundos, para eles isso não tem a menor
importância. Aliás, nem para a fábrica, que não se digna informar os
números de desempenho e tampouco o consumo normatizado de seus modelos.
Não há razão para fabricante algum temer ser criticado porque um
determinado modelo não é tão rápido. Mas nada é mais desabonador para um
fabricante do que o consumidor perceber esse tipo de manobra, autêntico
esconde-esconde.
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