Faz
algum tempo que um leitor, Luciano A. do Carmo, me escreveu de Salvador,
Bahia, dizendo ser instrutor de um curso para frentistas de postos
naquela cidade. O curso, diz, abrange relações humanas e interpessoais,
postura, recepção, comunicação, matemática básica, técnicas de vendas,
mecânica, aditivos e lubrificantes, dentre outros. Vai adiante
explicando que para poder fazer o curso o aluno deve ter ensino médio
completo, entre 18 e 40 anos, não ter tatuagem visível no corpo e nota
mínima de sete na avaliação final. Após isso segue-se um encaminhamento
dos melhores alunos para vagas de emprego nas redes de postos
conveniados, o que, segundo o Luciano, gera bastante elogios tanto pelos
empresários quanto pelos clientes.
Muitos podem se perguntar por que seria necessário tal treinamento, dado
que é uma atividade relativamente simples. Na verdade não é. Além de
automóvel não ser brinquedo, mas uma máquina cada vez mais complexa, a
função de frentista mescla venda de produtos com prestação de serviços,
em que eficiência é necessária visto ser uma parada obrigatória do
automóvel e geralmente associada a um cliente que tem pressa.
Essa questão de treinamento veio-me à mente diante das notícias recentes
sobre tapar buracos das rodovias em caráter emergencial. O mau estado
delas já foi tratado nesta coluna várias vezes, uma situação
absolutamente inaceitável. Rodovias e qualquer outro tipo de via por
onde passem automóveis, e até calçadas por onde caminhem pedestres, não
podem ter buracos e ponto final. Mas por que este vasto universo
brasileiro de estradas esburacadas e outras simplesmente destruídas? Um
das respostas certamente é falta de treinamento.
Na primeira coluna que escrevi para o BCWS,
Calotas perdidas, em maio de
2001, falei de uma conversa com um vizinho do prédio onde moro, um
senhor alemão, na qual ele falava sobre o treinamento profissional na
Alemanha. Sem isso a pessoa simplesmente não consegue arranjar emprego.
Não importa a atividade, tem de fazer curso.
Ele deu como exemplo os consertos da pavimentação de estradas. Quando
surge o buraco, a equipe de reparação usa a melhor técnica. Demarca o
pedaço de asfalto danificado, corta-o e remove-o, aplica nova base, como
pedras, e depois refaz a pavimentação compactando-a como se tratasse de
um recapeamento completo. O resultado é uma "mancha" no asfalto — só
mancha, porque não se percebe a emenda ao passar com uma roda por ela.
Por coincidência, eu havia estado na Alemanha pouco antes e passara por
uma estrada secundária que mais parecia um colcha de retalhos de tanto
remendo, só que era absolutamente lisa.
Tenho visto, felizmente, alguns casos de trabalho bem-feito, como na Via
Dutra e num e noutro trecho de rodovias do Estado de São Paulo. São,
porém, mais exceção do que regra. Por isso, é esperar para ver o
resultado da operação tapa-buracos das rodovias federais ora em execução
pelo DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura dos Transportes).
A capital paulista
Uma muito boa para contar para os leitores de outras cidades. Em São
Paulo, onde este colunista reside (apesar de a sede do BCWS ser
em Pindamonhangaba, na região do Vale do Paraíba), há igualmente uma
febre de recapeamento das ruas — que bom seria se tivéssemos eleições a
cada seis meses... E realmente isso está tirando da capital paulista o
título de pior cidade do Brasil em pavimentação, que é abaixo de
qualquer crítica.
Mas há um detalhe: a mesma febre está produzindo um "efeito colateral",
em que as tampas de bueiros e janelas de inspeção não estão sendo
levantadas para compensar o ganho de altura com a nova camada asfáltica.
O resultado prático é que pisos tipo mesa de bilhar alternam-se com
crateras consideráveis, de até 10 centímetros de profundidade e com
borda de canto vivo, o que ninguém espera quando a pavimentação é nova e
de aparente boa qualidade. O impacto que o carro sofre é dos mais
violentos.
Como houve grita geral, a prefeitura, pela empreiteira correspondente ao
trecho reparado, mandou encher os "buracos" de asfalto, à moda da casa:
forma-se um pequeno calombo, mas — eureka! — se deixa um pequeno furo,
para ser possível saber que ali tem uma tampa caso seja preciso
removê-la. Solução mais porca, impossível. Coisa de Acredite se
quiser, o programa de tevê de coisas bizarras que era apresentado
pelo grande ator Jack Palance.
Sobre buracos, há o caso de um fabricante brasileiro de autopeças que,
procurando expandir os negócios, procurou vender o que produzia —
articuladores esféricos de suspensão, também chamados de pivôs — para o
Japão. Foi com surpresa que ouviu da empresa japonesa potencial
compradora que o item jamais era trocado lá, por toda a vida do carro. O
motivo, eu nem precisaria dizer: pavimentação decente.
Transponha-se tal deficiência de qualidade sobretudo por falta de
treinamento para o universo de serviços dos quais dependemos, e aí
explicam-se os problemas de toda ordem que enfrentamos. Mudar é preciso,
um dia isso vai acontecer, mas até lá é preciso exercitar nossa
paciência e nosso direito de cidadãos. Sobretudo esse último. Sempre
ajuda.
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