Um
dos acidentes automobilísticos mais severos, acho que ninguém duvida, é
a colisão frontal. Isso porque as velocidades se somam e, mesmo que os
veículos envolvidos não estejam em excesso, o choque resultante é dos
mais violentos. Se os dois estiverem a 80 km/h, por exemplo, é o mesmo
que um estar parado e o outro a 160 km/h.
O acidente em questão por acaso envolveu dois ônibus da mesma empresa,
um fato mais curioso do que relevante, numa rodovia paulista de mão
dupla no trecho. As circunstâncias da colisão ainda estão por ser
esclarecidas — é pouco provável que sejam —, mas uma testemunha falou em
um caminhão ter sinalizado que um dos ônibus poderia realizar a
ultrapassagem, no momento em vinha outro em sentido contrário e já bem
próximo.
Isso remete à questão de um motorista sinalizar para outro: nem sempre a
mensagem é bem entendida, por alguns fatores. Falta de conhecimento de
um, de outro ou ambos; mau julgamento da situação e, por incrível que
pareça, maldade. Por isso, em nome da segurança, é o motorista que deve
fazer os próprios julgamentos e tomar as decisões baseadas
exclusivamente neles — nunca se basear nos outros em situações de risco,
caso de uma ultrapassagem.
É bastante comum o uso da seta para isso. O veículo à frente, geralmente
caminhão, liga a seta direita como que dizendo para o carro de trás,
"pode ir". Mas poderia ser também "fique na sua faixa, não saia dela".
Qual o certo? Essa resposta é impossível. O inverso também suscita
dúvidas, caso da seta esquerda ligada. Pode ser tanto "vá" quanto "volte
que vem carro aí". O único sinal que não deixa dúvidas, no caso de
sugerir que o carro de trás pode ir, é aquele antigo, feito com a mão,
acenando com curtos movimentos horizontais.
É justamente devido à confusão quanto à interpretação do sinal da seta
que ele é proibido há muitos anos nos Estados Unidos, por exemplo.
Seja ou não essa a possível causa do acidente com os dois ônibus, o fato
é foi um dos acidentes mais violentos de que se tem notícia. As imagens
e fotos deixaram a impressão de acidente aeronáutico. Um dos 22
sobreviventes declarou a uma reportagem que muitos bancos se soltaram
dos trilhos, o que teria contribuído para o elevado número de mortos,
resultado de esmagamento de uns contra os outros em sucessão.
Se isso de fato aconteceu, é totalmente lamentável do ponto de vista de
engenharia, o que demanda investigação. Em 1989, um jato comercial fez
pouso forçado numa região de mata cerrada após ter ficado sem
combustível. A manobra em si foi admiravelmente perfeita, só que também
houve soltura dos bancos no impacto com o solo, o que levou às 11
fatalidades. Todos poderiam ter sobrevivido se os bancos não tivessem se
soltado.
Acidentes com ônibus têm sido mais freqüentes do que se imagina, todo
mundo sabe. Nesta mesma semana um ônibus que saíra de Belo Horizonte com
destino a Caracas, na Venezuela, com estudantes da Universidade Federal
de Minas Gerais que participariam do Fórum Social naquela cidade,
acidentou-se no Peru, ocasionando a morte de quatro e ferindo 32, dos
quais 17 permanecem internados. Segundo relatos, o coletivo não
conseguiu fazer uma curva e tombou. Há poucos dias, outro que ia de São
Paulo para Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, bateu na Via
Dutra, numa curva, próximo a Piraí: três mortos, o motorista inclusive.
A coisa está mesmo perigosa demais. O que será que está acontecendo?
Todos os ônibus são obrigados a ter tacógrafo, instrumento que registra
num disco a velocidade do veículo durante certo intervalo de dias. Não
consta que sejam observados excessos, mesmo após um acidente, apesar de
muitas vezes passageiros afirmarem o contrário. Às vezes é possível
duvidar da precisão do equipamento. Como numa viagem recente que fiz, em
que o velocímetro do ônibus, de onde o tacógrafo faz a leitura, indicava
90 km/h. Estávamos num trecho reto da Via Dutra e todos os
automóveis iam sendo ultrapassados. Obviamente, andávamos a bem mais
naquele momento.
É realmente alarmante a quantidade de acidente com ônibus de viagens
interestaduais, não só colisões como também saídas da pista as mais
diversas e mergulhos em rios e represas. Nem é preciso ir atrás de
estatísticas, basta ficar atento aos noticiários.
Tenho certeza de que se trata de uma explosiva mistura de inabilidade
(sobretudo por falta de treinamento, tema da última
coluna) e irresponsabilidade, combinada com equipamento precário
(algumas vezes) e mau estado ou deficiência da rodovia (muitas vezes).
Uma equação para o DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de
Transportes) e o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), em
conjunto e acima de tudo com muita vontade política, resolverem. Só que
não dá para esperar mais, tem de ser já.
Paciência que seja ano eleitoral: vidas humanas valem muito mais do que
isso.
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