Eliminar eliminando

Do rodízio às rodovias, ganha força a tática de "resolver"
os problemas eliminando o efeito, não a causa

por Bob Sharp

Dissemina-se na cabeça das autoridades de trânsito do país a prática de eliminar problemas acabando com o efeito, não com a causa. Caso típico é o ridículo rodízio de veículos pelo final da placa na capital paulista. Como tem carro demais, dizem os responsáveis pelo trânsito do município, tira-se parte dos carros em certos períodos, em vez de equacionar o problema com inteligência e bom senso — por exemplo, adotar o controle dos semáforos por computador, ao lado da tantas outras medidas que objetivem maior fluidez. Ou seja, como o cidadão vai circular é problema dele, não da autoridade de trânsito da capital, a Companhia de Engenharia de Tráfego.

Curiosamente, o rodízio de veículos na capital paulista foi criado pela administração municipal de Celso Pitta (PP), continuou com Marta Suplicy (PT) e permanece intocado com José Serra (PSDB). Deve ser mesmo um negócio muito bom para os cofres da prefeitura, para ser uma medida apartidária...

Aliás, esta "companhia" vai a partir de agora cobrar dos promotores de eventos ou de quem quer que seja pela monitoração, orientação e fiscalização de trânsito nas imediações dos locais (leia coluna do colega Gino Brasil a respeito). É mesmo coisa do programa Acredite se quiser de Jack Palance. O negócio é faturar. Vergonhoso.

O perigo dessas atitudes marotas da prefeitura de São Paulo é que elas ganhem coro e sirvam de inspiração para outros prefeitos vivaldinos Brasil afora. Por exemplo, já se falou em rodízio de veículos no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, mas felizmente a idéia caiu, deixando cariocas e mineiros fora dessa vergonha paulistana.

Voltando a nosso tema, nesta semana houve dois graves acidentes de estrada com furgões de passageiros — passenger vans ou abreviadamente vans, como são mais conhecidos — com mais 14 vidas perdidas na hora. Foi quando eu soube, numa reportagem televisiva, que em Minas Gerais esses veículos são proibidos de realizar viagens para fora do estado. Só podem ir até a divisa. Fiquei surpreso com a medida, da qual, sinceramente, não fazia idéia e nem podia. Só mesmo uma mente doentia poderia concebê-la: impedir o transporte de passageiros num veículo de... passageiros.

Se a rodovia está aberta ao trânsito, se o motorista é habilitado para o tipo de veículo e se este está em condições legais e técnicas de ser utilizado para a finalidade a que se destina, não há motivo nesse mundo para restringir seu uso em rodovias. Muitos acidentes com vans? Essa é fácil: proíba-se seu uso em viagens, não importa para onde ou em que distância. Ou, ainda melhor: se são considerados veículos perigosos, que sejam logo banidos do mercado brasileiro. Seria o caso, então, de proibir o transporte de passageiros por ônibus, por automóveis de qualquer espécie, trem, avião...

Caso já comentando nesta coluna, vans não podem utilizar o novo trecho de descida da Rodovia dos Imigrantes, sendo obrigadas a tomar a antiga Via Anchieta, ambas no Estado de São Paulo e que unem a capital ao litoral. A Ecovias, administradora daquela rodovia, deve achar que são veículos perigosos, que ficarão sem freio numa serra curta de 6% de declividade... A cabeça de certas pessoas anda ruim mesmo.

Bancos e pedágio
Esse tipo de atitude — eliminar problema no lugar de resolvê-lo — atinge outros setores, como o bancário. Uma lei em São Paulo relativamente recente diz que, se o cliente de um banco ficar na fila mais que 15 minutos, a instituição poderá ser multada. Lei que tem a melhor da intenções, mas, como se diz, de bem-intencionados o inferno está cheio. Disso resulta que, a partir desta sexta-feira (3/2), qualquer pessoa que queira entrar em determinadas agências da Caixa Econômica Federal terá que agendar dia e hora telefonando para um número central, que não é o da agência. Isso só para não incorrer em multa.

Seria o caso de perguntar como fica a questão das filas nos pedágios. Nos dias de muito tráfego, próprios dos fins de semana prolongados, elas são descomunais, congestionando as estradas. Há casos de acúmulo de tráfego na praça de pedágio criar congestionamento de trânsito ainda na cidade. Restringir o acesso às rodovias, pela lógica acima, seria a solução brilhante. Mas criou-se uma maneira inteligente de encurtar as filas, que é a cobrança eletrônica chamada "Sem Parar" ou "Via Fácil", a exemplo do que foi feito nos principais países há muitos anos.

Só que há custo inicial (R$ 48,50) e mensal (R$ 8,65), fora a tarifa que se paga normalmente. Com isso, relativamente poucos aderiram ao sistema. Fica a sugestão para as concessionárias de rodovias de isentar o usuário do pagamento desses custos, de modo a estimular a instalação por mais motoristas. Outra idéia é que, em dias e horários de volume de tráfego excessivo, as concessionárias abram mão de pequena parte do faturamento criando uma alternativa, por exemplo, "1 x 3": um veículo pára e paga, três têm a passagem livre, por liberalidade da empresa. Uma atitude dessas se enquadraria perfeitamente naquilo que se chama de responsabilidade social.

Filas são resultado do crescimento populacional. Elas estão em toda parte, até nos restaurantes tipo quilo, em que as pessoas se servem num bufê. O que é inadmissível é deixar de prestar o serviço em nome da eliminação de filas. E proibir que o cidadão circule livremente com seu veículo, à sua conveniência, com a desculpa de reduzir congestionamentos.
 



Semana passada falei dos acidentes com ônibus rodoviários. Dias depois houve outro, no Estado de Goiás, em que o coletivo saiu da estrada, desceu uma ribanceira e capotou. Saldo: 12 mortos e 33 feridos. Grande parte do teto afundou sobre os bancos, como assinalou corretamente o leitor André Decourt A. Costa, do Rio de Janeiro. Ele sugere mais resistência nas colunas dos ônibus de maneira a evitar o afundamento do teto.

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Data de publicação: 4/2/06

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