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Nas
últimas edições de Questões de Direito temos tratado de
diversos projetos de lei que se relacionam, de modo direto ou não, com
o trânsito. E desta vez não será diferente.
Em março último foi apresentado pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS) o
Projeto de Lei nº 6.726/06. O deputado pretende alterar a Lei nº
10.826/03, também conhecida como Estatuto do Desarmamento, para que os
taxistas sejam incluídos no rol de pessoas autorizadas a portar armas
de fogo.
Segundo a exposição de motivos do projeto, tal alteração seria
necessária para que os taxistas pudessem proteger seu patrimônio e,
principalmente, sua vida. Discorrendo sobre o assunto, a exposição diz
que os taxistas são, dentre as categorias não institucionais, os
profissionais mais visados pelos bandidos e, por isso, vítimas
constantes e diretas de ataques criminosos, sendo "obrigados a prover
fuga aos meliantes" e sujeitando-se "a se tornar alvo fácil em
eventual troca de tiros entre os bandidos e a polícia".
Continuando com a argumentação pela aprovação da medida, a exposição
de motivos afirma que "ao conceder o porte de arma aos taxistas, de
forma genérica, espera-se que seus potenciais agressores desistam da
empreitada, por saberem que as vítimas podem estar armadas e reagir
com sucesso ao assalto".
Antes de uma análise mais crítica do projeto de lei, convém deixar
clara a posição deste colunista sobre o porte de armas. Defendo que,
dentro das normas, do Estatuto do Desarmamento e da capacidade de seu
portador, qualquer um possa ter uma arma, sendo livre arbítrio de cada
um o desejo de possuir ou não tal objeto, respeitando a
individualidade das pessoas nesse aspecto.
Não foi à toa que me posicionei contra o desarmamento, quando do
plebiscito ocorrido sobre esse tema, basicamente por dois motivos.
Primeiro, que todos são livres para escolher se querem ou não possuir
uma arma de fogo. Segundo que, contrariando um dos principais
argumentos dos que defendiam a proibição da venda, bandido não compra
arma em loja, de maneira que se criariam todas as condições para que
tivéssemos que nos preocupar com mais um produto comercializado
ilegalmente, de forma mais intensa do que ocorre hoje.
Embora eu não seja contra que cada um possua uma arma, a liberação
para uma classe que sofre constantes ameaças, como sabemos, precisa
ser analisada com atenção.
O projeto de lei em questão tem o cuidado de estabelecer condições
para a obtenção do porte de armas: os profissionais devem ter mais de
cinco anos de atividade e não possuir antecedentes criminais. Essa
preocupação é válida, mas não sana o principal problema que o projeto
de lei traz consigo.
Alvo fácil
Sem dúvida, os taxistas estão diretamente expostos à violência urbana
em meio à qual vivemos. Seja nas grandes metrópoles ou nas cidades
pequenas, essa nobre classe surge como um grande alvo dos bandidos.
Ocorre que, com a concessão de armas como pretende o projeto de lei, a
sensação que fica é que o efeito será o contrário do que se pretende:
em vez de distanciar a marginalidade desses profissionais e
protegê-los, eles acabarão se tornando alvos mais fáceis dos
criminosos.
Como já dissemos, marginal não compra arma em loja: busca formas
alternativas para a tomada de sua posse. Os criminosos — digamos —
mais experientes e profissionais se valem do tráfico de armas para
consegui-las, ao passo que os menos experientes ou com menos recursos
acabam por furtar ou roubar armas, seja de seguranças ou de usuários
comuns.
Com um grande número de taxistas também possuindo armas, a categoria
será mais um alvo a ser considerado pelos criminosos ao fazer a opção
pelo roubo de uma. E mais: com a vantagem de poder levar o carro e o
dinheiro obtido em seu trabalho. Roubar as armas de seguranças de
bancos ou de estabelecimentos comerciais em geral será coisa do
passado, pois o roubo dos taxistas será mais fácil, vantajoso e
rentável.
Isso tudo fará com que nosso principal bem e a maior preocupação do
projeto de lei — a vida do taxista, de seus passageiros e de quem está
ao seu redor — fique constantemente na mira dos bandidos, com um
estímulo a mais para que o marginal atue contra essa classe. Fazer com
que os taxistas em geral se armem, portanto, acabará sendo um tiro no
pé nessa questão. Aquilo que poderia ser sua tábua de salvação pode
ser o chumbo que ceifará sua vida.
Se a preocupação é a busca de mais segurança para uma classe
profissional, infelizmente a solução não é tão simples. A solução
desse problema passa pela busca de um equilíbrio social e chega à
redução da impunidade, de modo que a marginalidade não seja uma opção
atraente para muitos como é hoje. E o meio para isso não me parece ser
a concessão do porte de arma para um ou outro grupo de cidadãos.
Se a segurança da população se basear nessa filosofia, teremos de
conceder o direito de possuir armas a todos os cidadãos e esquecer o
estado democrático de direito para que cada um faça sua segurança,
tirando do Estado essa responsabilidade. Nesse caso em que o Estado
democrático de direito perderá um de seus pilares, porém, o risco para
a população será ainda maior. |