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Foi
noticiado pela imprensa, no começo deste mês de setembro, o adiamento
da votação do projeto de lei que trata da liberação da importação de
pneus usados, deixando o assunto na dependência de uma definição
futura. Ao contrário do que vinha ocorrendo em Questões de Direito,
desta vez não entrarei no aspecto do projeto em si, mas sim nas
questões correlatas à aprovação ou não das importações de carcaças de
pneus.
Esse projeto de lei, de autoria do senador Flávio Arns (PT-PR), prevê
essencialmente que a importação de pneus usados seja liberada para que
suas carcaças sirvam de matéria-prima básica para a produção de pneus
remoldados. O projeto está em trâmite há algum tempo, aguardando
votação, mas não pôde ser votado pela Comissão de Meio Ambiente do
Senado porque foi encaminhado à Comissão de Assuntos Econômicos que,
com essa manobra, se viu obrigada a convocar uma audiência pública
sobre o assunto.
O impedimento da votação nesse instante, com sua prorrogação para um
momento indeterminado, tem evidente caráter político. Isso porque
existem duas correntes, uma a favor da liberação dessas importações e
outra contra — e ambas com muita força no cenário nacional.
A corrente favorável à liberação está estabelecida, em sua maior
parte, no Paraná — não por acaso, o estado do autor do projeto de lei
—, em virtude de o maior importador de carcaças de pneus estar
localizado nesse estado. Junto de cerca de 300 empresas de reciclagem
de pneus, o importador entende que a abertura da importação fará com
essas empresas continuem a funcionar, a gerar emprego e a acirrar a
concorrência por meio da oferta de mais opções ao consumidor final de
pneus, sejam eles de automóveis, motos, caminhões ou ônibus.
Por outro lado, temos o entendimento daqueles que são contra esse tipo
de importação — grupo liderado pelo estado da Bahia, que abriga em seu
território duas empresas fabricantes de pneus novos. Os motivos dos
que são contrários à importação podem ser resumidos na agressão ao
meio ambiente (estaríamos, segundo eles, importando lixo do Primeiro
Mundo) e também, a contrariu sensu, um prejuízo à concorrência.
É que os pneus remoldados são muito mais baratos, o que prejudicaria a
produção de pneus novos e comprometeria o investimento dessas
indústrias.
Analisando os argumentos de cada corrente, torna-se evidente que a
questão da concorrência que ambas alegam é puramente especulativa.
Acredito ser possível tanto para as indústrias de pneus novos, quanto
às empresas que os reciclam, fabricar um produto de qualidade com um
preço mais baixo. Além disso, essas empresas têm a possibilidade de
produzir em larga escala, o que naturalmente diminui o custo dos
produtos. Talvez seja uma questão de somar vontade com necessidade.
A questão ambiental é, sem dúvida, um problema sério a ser debatido.
Essas carcaças só acabam sendo exportadas para países como o nosso
porque os de Primeiro Mundo não têm o que fazer com elas. A solução
encontrada passou a ser mandá-las para os países mais pobres para aqui
darmos um jeito, seja reaproveitando, seja dando outra destinação a
esse material. Tal questão não pode, de forma alguma, ser posta de
lado. Caso a importação venha a ser liberada, o aspecto ambiental deve
ser um dos pontos de maior atenção quanto à regulamentação, sob pena
de nos transformamos em um depósito de pneus velhos e poluidores — e
com o agravante de ainda exportarmos divisas com isso. Ou seja,
pagarmos por lixo.
Importação desnecessária
Deixando de lado a questão de devermos importar ou não esse material,
fica a pergunta: é mesmo necessária a importação de carcaças para a
produção de pneus remoldados? Não temos suficiente oferta desse
material para atender a tais indústrias?
Fico procurando o real motivo da importação. Por que não pensarmos em
meios de estabelecer um esquema de coleta de pneus velhos para a
destinação que se pretende dar às carcaças importadas? Esse assunto já
foi discutido pelo relator da proposta na Comissão de Meio Ambiente,
senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que defende que a importação seja
permitida por tempo limitado — cinco anos. Nesse período se
estabeleceria um sistema de coleta de pneus usados para servir de
matéria-prima aos remoldados.
O problema que vejo nessa questão é que, uma vez liberada a
importação, o caminho de volta fica complicado. Ainda que a proposta
do senador Raupp seja pertinente e talvez possa ser a melhor solução,
sua aplicação prática poderia ficar perigosamente prejudicada. De
resto, basear-se em alegações de que os pneus estrangeiros são
melhores que os nacionais, como a feita pelo presidente da Comissão do
Meio Ambiente, senador Leomar Quintanilha (PCdoB-TO), em nada ajuda a
decidir a questão. Muito pelo contrário.
Pelas declarações dos integrantes da Comissão, pode-se arriscar a
dizer que esta é favorável à importação, mas acabou não decidindo
dessa forma por questões políticas. Afinal, estamos em ano eleitoral e
qualquer perda ou ganho de apoio pode ser fundamental para os próximos
quatro anos.
Particularmente, não quero que nosso país vire um depósito de pneus
velhos, ao mesmo tempo em que não considero justo um estado ou região,
que investiu na produção de uma mercadoria que consome essa
matéria–prima, ser prejudicado sem que exista um motivo consistente e
plausível.
Talvez a solução para o impasse esteja em adotar medidas que busquem
um meio-termo para a situação. Uma delas é que a permissão de
importação seja concedida apenas em regime de drawback, em que
se importa a matéria-prima, aplica-se a mão-de-obra sobre o material
para, em seguida, o produto final ser exportado. É uma medida que o
Brasil já adota em vários setores da economia. Se aplicada aos pneus
remoldados, estimularia sua exportação e evitaria um enorme acúmulo de
carcaças importadas. Enquanto isso, os pneus velhos nacionais teriam
como destino as indústrias de reciclagem, que teriam a entrega e
coleta de sua matéria-prima garantida por um programa de coleta.
Com uma solução como essa, acredito que todos seriam satisfeitos em
seus interesses. A indústria de reciclagem de pneus teria uma demanda
contínua e regular, com a possibilidade de trazer material estrangeiro
e, mais ainda, de exportar o produto final dessa reciclagem. As
indústrias de pneus novos teriam de se mexer um pouco — mas não muito
— para manter seu mercado, pois haveria uma dinamização do setor. E,
mais importante, o Brasil estaria com seu meio ambiente preservado do
risco de virar uma lata de lixo de pneus para o resto do mundo. |